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A agitação da quimera do “wokismo” ou o impedimento do debate

Disseminou-se à direita a ideia da existência de uma pretensa “ideologia woke” para estigmatizar correntes políticas progressistas e, assim, desviar melhor o olhar das discriminações que denunciam. De um ponto de vista retórico, o termo produz uma versão totalmente caricaturada de um adversário fantasmado. Por Denis Valentin.
Nuvem de conceitos com a palavra woke no centro. Foto de EpicTop10.com/Flickr.
Nuvem de conceitos com a palavra woke no centro. Foto de EpicTop10.com/Flickr.

Enquanto começo a escrever este texto, sou quase surpreendido ao ver que o meu corretor automático – que está, contudo, na vanguarda das evoluções da nossa língua – sublinha a vermelho o termo sobre o qual quero falar: wokismo.

Esta recusa de um obstáculo informático aponta imediatamente para uma característica chave das controvérsias em torno desta pseudo-noção: trata-se de um neologismo recente e pouco francês destinado a curto-circuitar os termos clássicos do debate público sobre questões relacionadas com a imigração e a discriminação sofrida por várias minorias.

Temos assistido a uma verdadeira blitzkrieg semântica: fabricou-se e divulgou-se massivamente uma palavra no debate público, ainda antes de deixar que alguém se pudesse interrogar sobre a sua pertinência ou sequer tentasse explicá-la. Daí a situação em que nos encontramos hoje: a esquerda, visada por este termo no que diz respeito às suas reivindicações ditas "societais", é apanhada de surpresa, de tal forma que alguns dos seus representantes políticos acabam mesmo por usar eles próprios a palavra, acrescentando mais uma fonte de discórdia a uma constelação partidária já despedaçada.

Tudo se passa então como se a direita conservadora e a extrema-direita tivessem ganho mais uma batalha na guerra das ideias. Bastaria agora simplesmente provar que o “wokismo” corresponde verdadeiramente a uma “ideia” política. Só que não é nada disso: é um artifício meramente retórico para o qual é bem difícil encontrar um conteúdo preciso e cuja omnipresença mediática, mas mais geralmente pública (no duplo sentido do termo, uma vez que o termo é agora retomado por vários altos responsáveis), condena uma parte crescente dos debates à inanidade. Conviria assim, tanto para o bem de quem por ele é visado como para o de quem o utiliza, guardá-lo na gaveta das invenções lexicais sem futuro.

O paralogismo elementar sobre o qual assenta o mal-entendido do “wokismo” consiste na criação de um neologismo e mais precisamente na passagem de um adjetivo anglo-saxónico (woke) a um substantivo (wokismo). No debate anglo-saxónico sobre estas questões, efetivamente não se fala nunca de wokismo [1], o que é significativo: a ironia do destino passa pelo facto de que quem denuncia uma “americanização” caricatural do debate público importa termos dos Estados Unidos, deformando-os. Introduzem-nos na linguagem sem nenhum esforço de aclimatação contextual (não é preciso lembrar que os campus norte-americanos não são comparáveis à sociedade francesa) e duplicando este primeiro erro de raciocínio através do efeito exagerado produzido pela substantivação indevida da palavra woke.

Sem regressar à genealogia do vocábulo, pacientemente lembrada em muitos órgãos de imprensa, diga-se que há pessoas que efetivamente se dizem woke em inglês, ou seja literalmente “acordados” face às diferentes formas de discriminação e de opressão – o que explica que, no Reino Unido, 16% dos indivíduos se possam ter descrito assim num inquérito frequentemente citado pelos defensores do “wokismo”.

O falacioso truque de magia consiste em transformar em nome o que é apenas um adjetivo, isto é, em termos técnicos, em converter em substância consistente o que é apenas um atributo de grupos e pessoas muito diversos. Através da sua própria existência, este simples neologismo dá a impressão de que há um movimento constituído à volta de uma "ideologia woke", ela própria fantasmada na sua coerência.

É um processo retórico comparável ao que consiste em unificar a “teoria de género” para a desqualificar melhor como pretensa ideologia apesar de se tratar na realidade de um campo extremamente diversificado e polémico: o dos estudos de género. “Wokismo” é uma palavra que não se caracteriza pelo seu conteúdo mas pela sua função: estigmatizar correntes políticas muitas vezes incomensuráveis, evitando perguntar-se sobre o que têm a dizer.

Seria preciso contudo distinguir duas coisas: apesar de existirem naturalmente (pelo menos tanto quanto em todas as outras correntes políticas) tendências ideológicas ativas em certas formas de militância de esquerda, e particularmente nas chamadas questões "societais", isso não nos permite de forma alguma afirmar que a soma destes movimentos constitui uma ideologia. Na verdade, não há ideologia no "wokismo", exceto na teimosia com que os adoradores da palavra a usam para caracterizar fenómenos díspares.

É precisamente porque não há “wokismo” fora das cadeias de informação em permanência e das redes sociais, mas apenas pessoas muito variadas que se afirmam sensíveis às diferentes discriminações que atravessam as nossas sociedades, que nunca ninguém incarnou esta pseudo-corrente e respondeu em seu nome aos ataques da direita. Há todo o interesse, do ponto de vista retórico, em construir o que se chama um “espantalho”: uma versão totalmente caricaturada do adversário que permite torná-lo tão irreconhecível que nem se sente visado e que, assim sendo, não sente interpelado a responder.

Isto explica que – atalhando – os debates direita/esquerda sobre “wokismo” que os estúdios de televisão albergam colocam em grande medida em oposição um interlocutor conservador ou reacionário que compara os danos desta ideologia aos “totalitarismos” do século XX e um interlocutor progressista que tenta explicar que este conceito não corresponde a nenhuma realidade observável (nenhum corpus ideológico, nenhum movimento constituído, nenhuma personalidade política representativa...)[2].

Daí advém uma situação paradoxal que torna impossível uma verdadeira discussão e que se caracteriza por uma discrepância evidente: face aos múltiplos ataques “anti-woke”, nenhuma verdadeira resposta “pró-woke” é possível. Quando a direita ataca o “wokismo” apenas fala de si própria e das suas próprias obsessões e o debate público dá mais um passo em frente na situação terrível em que se encontra atualmente: somos muitas vezes obrigados a lidar com discursos paranoicos e fechados em si mesmos, não visando convencer mas aniquilar um adversário que já nem sequer achamos que valha a pena questionar-nos sobre o que diz verdadeiramente[3]. A substantivação do adjetivo woke (que também pode assumir a forma de "ideologia woke" ou "cultura woke"), correlato linguístico da substancialização do "wokismo", é o pecado original que leva a estes diálogos surdos.

Alguns poderão talvez responder que apesar de expressões como o “wokismo” (dever-se-ia incluir nesta mesma família pelo menos a “cultura do cancelamento”, o “indigenismo”, o “racialismo”) não terem dimensão descritiva, podem na verdade ser utilizadas como categorias polémicas federadoras – um pouco como à esquerda se trata por vezes o outro como “facho”: seria justificado por uma boa guerra, dir-se-ia ainda.

Mas o problema é que a caricatura acaba por contaminar os elementos da linguagem política e talvez até a ação pública: é o que incarna Jean-Michel Blanque e o seu estranho “Laboratório da República”, apresentado como uma arma “universalista” contra o “wokismo”.

Se uma boa parte do pessoal político da direita, desde a que se diz centrista à que reivindica a sua pretensa “radicalidade” se apropria do do termo, é nomeadamente porque lhe permite numa mesma jogada desacreditar com um simples gesto as lutas da esquerda contra as discriminações e afirmar que “somos os verdadeiros feministas e os verdadeiros anti-racistas porque somos fiéis à promessa republicana e universalista”.

Não podemos deixar de constatar uma relativa flutuação das expressões utilizadas por quem se sente incomodado pela luta contra as discriminações quando a julga demasiado “moralizante”: o persistente “politicamente correto” [4] foi brevemente substituído por um “islamo-esquerdismo” tão ridículo e xenófobo na sua própria formulação que rapidamente foi reconfinado para as nebulosas de onde partiu.

O “wokismo” é apenas, no fundo, um enésimo avatar daquilo que a direita chama, desde o fim do século XX, os “bem pensantes”. Este termo sofreu uma impressionante inversão porque “bem pensantes” eram ainda, nos anos 1970 ou 1980, os meios cristãos conservadores. Estes fenómenos de distorção parecem tornar-se a regra, uma vez que a expressão “politicamente correto”, também ela, foi utilizada em primeiro lugar de forma positiva nos Estados Unidos por militantes de esquerda antes de ser reinvestida pejorativamente à direita. Em França, é quando estes termos já perderam o sentido original que são injetados no debate público para caracterizar uma realidade frequentemente bem diferente.

Mas pensemos o que pensarmos da sua pertinência, os “bem pensantes” – no sentido em que o termo é entendido pelos conservadores – ou o “politicamente correto” tinham pelo menos o mérito de assumir o seu carácter puramente polémico e de não se fazer passar por verdadeiras noções ou por uma corrente tão perigosa que necessitaria da criação de um pomposo “Laboratório da República”.

Dissimulando, e esquecendo mesmo a sua origem retórica, as personalidades políticas que permitem que esta pseudo-ideia se entranhe cada vez mais no debate público continuam a enterrá-lo sob um amontoado de controvérsias sem objetivo, enquanto seria cada vez mais urgente torná-lo novamente um espaço digno de uma troca de argumentos entre pessoas esclarecidas. Se é verdade que numa democracia, mais do que em qualquer outro sistema, os nossos inimigos ideológicos nos fazem crescer, então mesmo os cultores do "wokismo", à direita como por vezes à esquerda, terão tudo a ganhar se finalmente aprenderem a considerar os seus oponentes pelo que realmente são. Mas só o poderiam fazer se abandonassem este termo, ao qual muitas vezes se agarram como um amuleto.
 


Valentin Denis é professor de Filosofia.

Texto publicado originalmente no Europe Solidaire et sans Frontières. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.


Notas

[1] Existe a palavra wokeness mas trata-se de outra coisa: o sufixo inglês designa mais um estado, aqui “o estar acordado”, o “estado de vigília”, enquanto que o sufixo francês “isme” neste contexto sugere a existência de um movimento, de uma corrente, de uma escola de pensamento etc.

[2] Eis um exemplo, entre muitos outros deste género de confrontos: Interdit d’interdire, Qu’est-se cache derrière le “wokisme”?

[3] Olivier Christin, Duel au soleil des médias: Zemmour et Mélenchon, AOC, 23 septembre 2021.

[4] Alguns observadores norte-americanos notam também uma substituição da crítica do political correctness pelo dos woke, como o linguista John McWhorter: How Woke Became an Insult, New York Times.

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