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Viver confinado sem tal ser decretado

Em 1959, a PIDE desencadeou sucessivas vagas de prisões de nacionalistas angolanos que militavam em vários grupos clandestinos. Na recém inaugurada cadeia de S. Paulo, em Luanda, passaram nesse ano centenas de indivíduos num corrupio constante. Por Adolfo Maria.
Adolfo Maria com Mário Pinto de Andrade e Gentil Viana. Os três formaram em Lisboa um Grupo de Reflexão (em meados dos anos 80) para a procura de vias para o  fim da guerra civil em Angola.
Adolfo Maria com Mário Pinto de Andrade e Gentil Viana. Os três formaram em Lisboa um Grupo de Reflexão (em meados dos anos 80) para a procura de vias para o fim da guerra civil em Angola.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Viver confinado sem tal ser decretado

Se falarmos de confinamento em espaço reduzido, esta será a minha quarta clausura: uma prisão em Luanda, no tempo do regime fascista-colonialista português; uma rigorosa clandestinidade de quase três anos logo após a independência do meu país, Angola, seguida de prisão; portanto três. Agora, em virtude da pandemia chamada covid 19, há este confinamento, aliás bem menos duro que os anteriores.

Procurando enquadrar-me no espírito dos depoimentos publicados neste blog - onde, em feliz iniciativa, se tem feito o resgate da memória de tempos de prisão e confinamentos vários de que foram vítimas milhares de participantes na luta contra o colonial fascismo de Salazar e Caetano - não descreverei o mais terrível confinamento que sofri: o de estar escondido, sozinho, durante mais de dois anos, fugido à caçada da polícia política, a DISA, cinco meses após a proclamação da Independência de Angola pela qual eu tanto lutara através do combate cultural político e armado. Essa experiência de auto-clausura está descrita no meu livro (que também é um manual de sobrevivência): ANGOLA – SONHO E PESADELO, Edições Colibri. Há ainda os poemas escritos nessa situação que revelam a minha extrema solidão, a raiva do injustiçado, as saudades várias, assim como a firmeza no combate diário para sobreviver; foram publicados em livro intitulado ANGOLA NO TEMPO DA DITADURA DEMOCRÁTICA REVOLUCIONÁRIA – POÉTICA DO AUTO-CÁRCERE, Edições Colibri.

Um desamparo tomou o corpo e a mente

Vou então falar da experiência vivida em 1959, ano em que a polícia política portuguesa, PIDE, desencadeou, a partir de 29 de Março, sucessivas vagas de prisões de nacionalistas angolanos que militavam em vários grupos clandestinos. Na recém inaugurada cadeia de S. Paulo, em Luanda, passaram nesse ano centenas de indivíduos num corrupio constante; entravam uns, saíam outros, permaneceram dezenas. Um grupo progressista gravitava em torno da Sociedade Cultural de Angola e do seu jornal “Cultura”. Esse grupo integrava alguns portugueses como António Veloso, Calazans e Julieta Gandra e, entre outros angolanos, Luandino Vieira, Hélder Neto, Benúdia, Meireles, António Cardoso e eu. Em Julho todos os citados foram presos, excepto eu e Julieta Gandra; eram acusados de ser membros de organizações clandestinas recentemente criadas. Em Outubro, Julieta Gandra e eu fomos presos sob a acusação de pertencermos ao PCA (Partido Comunista Angolano – o segundo) e MLNA (Movimento de Libertação Nacional de Angola). No mesmo dia em que fui preso também foram encarcerados os poetas António Jacinto e Mário António mas estes por acusação diferente (tinham pertencido ao primeiro PCA)

Eu acabara de fazer vinte e quatro anos e estava casado, havia três meses, com a Lena, então jovem de 21 anos, que viria a acompanhar-me em todos os posteriores e movimentados momentos da luta nacionalista e da luta pela liberdade, tornando-se uma activa e brava participante, sempre magnífica companheira até à sua morte, há dez anos.

Eram cerca das seis da tarde, em Outubro de 1959, quando fui abordado pelo agente da PIDE que me deu ordem de prisão. Embora me tivesse preparado para esse momento, senti abrir-se o chão, um desamparo tomou o corpo e a mente. Fui conduzido à sede dessa polícia política salazarista (era no antigo Hotel Miradouro, perto da Fortaleza de S. Miguel). Aí mandaram-me esvaziar os bolsos (soube mais tarde que, com as minhas chaves, foram revistar o meu apartamento). Sentia-me desarmado até ao tutano. Aqueles esbirros davam-me ordens, levavam os meus pertences, em nome de quê? – perguntava-me. A Lena estava na Sociedade Cultural à minha espera (íamos ao cinema ver “As Bruxas de Salém”). E depois vieram as inquietações: “como é que ela, tão inexperiente na política, ia aguentar o choque desta separação”; “por quanto tempo ficaríamos longe um do outro?”. Estava sozinho na sala da sede da PIDE, apurava os ouvidos para tentar interpretar os movimentos nos corredores. Interrogava-me: “o que sabem eles de mim e das minhas actividades? Como é que me vou comportar nos interrogatórios?”.

Via que o meu próximo destino estava nas mãos daqueles estranhos, meus inimigos políticos, senhores de um poder arbitrário que a ditadura lhes outorgava

Via que o meu próximo destino estava nas mãos daqueles estranhos, meus inimigos políticos, senhores de um poder arbitrário que a ditadura lhes outorgava. Sentia que estava cercado, tinham-me posto longe do mundo. E essa sensação tornou-se mais forte e definitiva quando, às dez horas da noite, me levaram para a cadeia de S. Paulo e me atiraram para uma exígua cela onde só cabia a tarimba-cama e a sanita cujo tampo viria a ser minha mesa de cabeceira e mesa de comer. Nesse momento fechou-se para mim o mundo, fez-se um vazio total. E adormeci profundamente. Acordei com sussurros agitados. Abri os olhos. Enquadrado no buraco do pequeno postigo da porta de ferro, o rosto do Meireles e a fala: “porra, não acordavas. Não há nada sobre ti. Aguenta”. Nunca mais vi o Meireles que, depois de julgado, foi deportado para Portugal em 1961 juntamente com os presos portugueses do nosso grupo. Vim a perceber que os prisioneiros tinham uma certa mobilidade no corredor, durante os momentos das abluções matinais, certamente porque o seu processo já estava concluído. O guarda abria as celas e eles encaminhavam-se até ao fundo do corredor onde estava a casa de banho colectiva. Assim, faziam umas escapadelas a espreitar para as celas dos outros prisioneiros. Eu viria, semanas mais tarde, a beneficiar dessas circunstâncias. Tinha sido transferido para uma cela mesmo ao lado da casa de banho e estava ainda no isolamento, em período de interrogatórios, quando, de manhã cedo, no meio da barulheira dos presos políticos na casa de banho, que seguia com atenção, a portinhola se abriu e apareceu o Higino Aires que me atirou um coto de lápis com a frase “toma que pode ser útil”. O angolano Higino Aires viria a ser condenado num dos julgamentos de militantes do nacionalismo, julgamentos que ficaram conhecidos pelo “processo dos 50” (foram todos condenados). Higino Aires foi deportado para o campo de concentração do Tarrafal em Cabo Verde, onde ele e dezenas de outros jazeram largos anos. Neste processo estavam incluídos membros da Sociedade Cultural: António Veloso, Calazans Duarte, Julieta Gandra e Meireles, que foram também condenados e transferidos para cadeias em Portugal.

O coto de lápis foi mesmo útil

Nunca esqueci o gesto do Higino Aires. Não só pelo que representou naquele momento, mas também porque o lápis foi mesmo útil, como veremos. Ao fim de dezoito dias de internamento prisional (ou seja total confinamento, como agora se diz), recebi autorização para receber jornais e livros. Mais tarde tive direito a recreio à hora do crepúsculo. Por fim foram autorizadas visitas da minha mulher.

Verifiquei que, nessa novíssima cadeia, ainda não fora montado um parlatório. O preso ficava junto ao familiar e eram vigiados pelo guarda sentado na sua secretária a um ou dois metros de distância. Logo na primeira visita a Lena e eu enlaçámo-nos brevemente mas com muito ardor, o que incomodou o guarda que baixou os olhos, corou e nada disse. Isto deu-me uma ideia. Preparei-me para, na próxima visita, fazer passar informações para o exterior. Com o bocadinho de lápis que o Higino me dera, escrevi nas folhas de papel higiénico (eu explico: o papel higiénico eram pequenas folhas quadradas de fino papel semitransparente, não era absorvente). Escrevi em letra miudinha vários informações para a Lena entregar a um dos nossos companheiros. Dobrei o papel em contínuos quadradinhos até ficar do tamanho de uma unha. Embrulhei esse minúsculo volume em invólucros impermeáveis dos bombons ou rebuçados que tinha guardado. Na hora da visita, meti-o na boca e avancei para o encontro. Logo que cheguei, agarrei a Lena e beijei-a, metendo-lhe na boca a mensagem. Ficou meio assustada mas depressa se recompôs. O guarda Viriato, que nos vigiava, tinha corado e baixado os olhos. Pouco depois, de olho no guarda, sussurrei à Lena a quem ela devia entregar a mensagem.

Sair para o recreio provocava em mim uma ambígua sensação

Ao fim da tarde, às seis e meia, começava o meu recreio no quintal da prisão (um comprido edifício de rés-do chão). No meu andar para cá e para lá fui surpreendido pela voz murmurada do Mário António. Falava-me com intermitências, aproveitando os momentos em que eu passava junto à parede da sua cela. Devia estar empoleirado sobre a tampa da sanita e com a cabeça junto à janelinha gradeada. Soube então que ambos tínhamos sido presos no mesmo dia.

Sair para o recreio àquela hora provocava em mim uma ambígua sensação. Gosto muito de sol e sempre me entristeceram os crepúsculos. Por um lado, era bom sair da cela que o calor tropical aquecera e punha nela um ar morno e abafado; por outro lado, fazia frio na alma ver a claridade do fim do dia desaparecer rapidamente (nos trópicos o crepúsculo dura pouco, faz-se logo escuro). Isto, mais o desgaste que o encarceramento provoca e ainda as incertezas todas quanto ao desfecho do processo punham-me irritadiço com frequência.

Ademais, àquela hora o guarda Viriato tinha sempre o rádio ligado na Radio Ecclesia que transmitia a reza do terço numa monótona ladainha em coro que durava trinta minutos, o meu tempo de recreio. Um dia, ele olhou provocadoramente para mim e disse: “A Religião é o ópio do Povo – Lenine”. Olhei-o irritado e respondi secamente: "Não, Marx” e virei-lhe as costas para prosseguir nos passos para lá e para cá. Nem vi a cara que ele fez.

É preciso uma forte disciplina para resistir

A terminar a evocação deste meu «confinamento prisional» em 1959 em Luanda, quero salientar que, nestas situações, é preciso impormo-nos uma forte disciplina para resistirmos no exíguo espaço e no longo tempo de um dia de cárcere e com a angústia de não sabermos por quantos dezenas, centenas ou milhares serão multiplicados. Primeiro, é preciso ter e manter convicções profundas; segundo, estar determinado a resistir e sobreviver; terceiro, e consequentemente, organizar e cumprir uma rotina que nos ocupe o máximo de tempo: exercícios físicos, arrumação da cela, lavagens mesmo (uma vez inundei o corredor da prisão com a água saída da minha cela, através das descargas sucessivas do autoclismo na sanita cujo sifão eu bloqueara); nessa rotina são importantes as leituras ou estudo (quando deixam entrar livros); quarto ponto, ocupar a mente em análises, em projectos ou em jogos mentais, desviando-a de recordações e pensamentos que causam ansiedade.

Um confinamento omnipresente no espaço público

Quero ainda acrescentar que, além dos vários tipos de confinamento, consequência do combate político, há o “confinamento de rua” aquele a que estamos submetidos em regimes ditatoriais. Para lá dos edifícios prisionais onde eles «confinam» fisicamente muitos dos seus opositores, ou dos auto-confinamentos motivados pela clandestinidade na luta militante, há um outro confinamento mais geral: o confinamento na rua, no espaço público. De facto, sob esses regimes, o confinamento está sempre presente.

Esta é uma realidade inconcebível para quem vive em liberdade, como os portugueses na actualidade. Mas a verdade é que quem viveu em ditaduras, vivia um confinamento omnipresente no espaço público. Porquê? Porque se olhava para trás e para o lado a ver se éramos seguidos pela polícia política; sentados numa esplanada a conversar, baixava-se a voz para o interlocutor se queríamos falar de certos assuntos. Motoristas de táxis eram informadores da polícia política; porteiros de prédios também. Quando saíamos de um espectáculo, não dávamos opinião aos acompanhantes sem primeiro ver se alguém estava perto a ouvir. Certas proximidades sociais eram sinal de perigo. Muitos livros eram proibidos, os jornais só vinham para a rua depois de passar pelo crivo da censura; filmes eram exibidos com cortes impostos pela censura; reuniões políticas eram proibidas (salvo as promovidas pelo poder vigente); partidos e sindicatos eram proibidos. Ternuras públicas de namorados eram proibidas, até o modo de vestir estava sujeito a restrições. A coacção estava no pensamento único destilado pela comunicação social estatal e outra, em ameaçadores editoriais. A denúncia estava na nossa rua, onde vizinhos colaboradores do regime nos espreitavam.

Em suma, havia no nosso quotidiano um sufocante confinamento já no espaço público. É um confinamento do género fantasma: está em toda a parte a ensombrar o nosso viver. Sofri esse tipo de confinamento desde jovem, em Luanda, até partir para o exílio e continuar o combate pela Independência de Angola. Infelizmente, voltei depois a sofrer um confinamento de características semelhantes: foram dois confinamentos similares em épocas totalmente diferentes. Portanto, se juntarmos estes dois aos quatro atrás descritos, poderemos dizer que já experimentei seis confinamentos. Só o referente ao covid 19, o actual, é que foi um confinamento ordenado por um decreto presidencial após aprovação por um Parlamento e visando a salvaguarda dos cidadãos!...

Adolfo Maria
9-05-2020 para ESQUERDA.NET

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