Passou um ano e uma semana da tempestade em Valência que causou 229 mortos e inúmeros estragos. Um ano inteiro de manifestações massivas, de notícias sucessivas sobre a incapacidade do governo regional de direita de gerir a situação e sobre as suas manipulações grosseiras para tentar sobreviver politicamente. Esta segunda-feira, Carlos Mazón, presidente da Generalitat valenciana, anunciou finalmente que se demitiria.
O dirigente do PP disse que “por vontade pessoal já me teria demitido há muito tempo” e anunciou ao mesmo tempo que continuará no parlamento regional e que não iriam ser convocadas eleições antecipadas, colocando nas mãos da extrema-direita a constituição de um novo executivo.
Um dos momentos que terá ditado este desfecho foi o funeral de Estado onde os familiares das vítimas lhe gritaram “assassino”.
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Tomás Muñoz
No dia fatídico, 29 de outubro de 2024, o aviso para a tempestade foi enviado demasiado tarde. Depois de três dias antes já ter previsto o fenómeno, desde as 7 da manhã que a agência meteorológica nacional, a Aemet, tinha emitido um alerta vermelho mas a mensagem de emergência da responsabilidade do governo regional só foi enviada quando já havia muitas vítimas mortais e estragos.
Entretanto, enquanto as televisões locais e publicações nas redes sociais tornavam evidente a catástrofe, Mazón estava desaparecido da esfera pública, apenas surgindo publicamente às 20h30. Grande parte da tarde, cerca de quatro horas, soube-se dias depois, foi passada num almoço com uma jornalista local famosa com a qual queria estabelecer uma “colaboração”. Maribel Vilaplana abriu o jogo esta segunda-feira no decorrer da investigação judicial ao sucedido. Diz que, naquela ocasião, Mazón continuava com “absoluta normalidade” depois de receber mensagens e chamadas em que “falava pouco”. A dado momento, acrescentou, passaram a ser “muitas”. A juíza já pediu a lista de chamadas recebidas pelo ex-dirigente regional valenciano.
Sabe-se ainda que, depois de ter ido com ela a um parque de estacionamento onde ainda se demorou mais, Mazón deslocou-se para sua casa e apenas chegou ao seu gabinete às 19.55. Uma hora mais tarde do que asseguravam até agora as fontes oficiais do Governo valenciano.
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Só quando instigadas pelos jornalistas ao perceberem que Mazón não tinha estado no centro operacional é que as fontes oficiais do governo regional começaram a apresentar respostas. Primeiro disseram que estava “a trabalhar”, depois que tinha estado num “almoço de trabalho”, mais tarde num “almoço privado de trabalho”. Só a 8 de novembro acabaram por reconhecer com quem o presidente da Generalitat tinha almoçado.
É mais uma das mentiras sobre o que se passou durante a tempestade que têm vindo a ser desmontadas. Por exemplo, Mazón tinha dito que se tratou de um fenómeno que não tinha sido previsto pela meteorologia, apesar dos alertas emitidos. E pouco depois de milhares de pessoas não conseguirem chamar a linha de emergência, garantia que “o 112 não colapsou”. Este é gerido regionalmente. Um relatório da própria Generalitat reconheceu posteriormente que 8.290, 42% das chamadas feitas, não foram atendidas.
Passado algum tempo assegurava: “reuni-me com as vítimas”, o que se ficou a saber que não tinha feito. Tinha dito ainda que ligara a vários autarcas naqueles momentos. Os registos telefónicos acabaram por mostrar que só ligou a um, que acabou por declarar que não falou da tempestade.
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Ainda ensaiou a tese de um “apagão informativo” da responsabilidade de agências que dependem do governo nacional, nomeadamente a Confederação Hidrográfica de Júcar, que não ocorreu. E da culpabilização do governo nacional, narrativa atrás da qual correu o PP no seu conjunto. Mas a juíza que está a instruir o caso explicou já que “o comando único da emergência” é da responsabilidade do governo regional.
Para além disso, garantira que não havia falta de meios para lidar com a situação. O que ficou desmentido imediatamente. Foi-lhe então criticado ter demorado a pedir ajuda ao Exército e nos dias seguintes não ter querido aproveitar muitos dos meios oferecidos por outras comunidades autónomas.
Esquerda exige eleições antecipadas
A esquerda reagiu à demissão de Mazón com críticas. Ao nível local, Compromís e Partido Socialista convergem na necessidade de se seguir para eleições. Na rede social X, o PSPV escreveu que “não é apenas Mazón, é todo o PP que aplaudiu e cobriu a sua negligência”. O Compromís acrescenta que “Mazón é culpado mas Feijóo e Abascal”, líderes nacionais do PP e do Vox, “são cúmplices” porque “ambos reiteraram apoio ao negligente Mazón”. Esta coligação de formações de esquerda de Valência diz ainda que “não nos serve, depois da pior catástrofe vivida no País Valenciano, continuar com o mesmo programa, orçamento e as mesmas políticas negacionistas climáticas que apenas vão trazer DANAs mais violentos”.
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Ao nível nacional, a ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, do Sumar, criticou a postura de Mazón na altura da sua demissão: “229 vítimas e os seus familiares não mereciam esta declaração” nem “um Feijóo que foi incapaz de liderar quando mais era preciso”, referência ao facto do líder do PP sempre ter respaldado o seu colega partidário.
Ione Belarra, do Podemos, escreveu igualmente no X que foi “a mobilização social e política do povo valenciano” que forçou a demissão. E Antonio Maíllo, da Izquierda Unida, também diz que a demissão “não basta”: “a sua intervenção foi uma vergonha: desonesta, cínica e desprovida da mínima empatia pelas vítimas”.