Está aqui

Japão: Tragédia nuclear fora de controlo

O que o Japão vive, nesta quarta-feira, é uma tragédia nuclear que saiu fora do controlo. A radioactividade foi comprovada em seis províncias japonesas, Fukushima, Tochigi, Gunma, Saitama, Yamanashi, Chiba, Kanagawa, Shizuoka e Tokyo, a capital. Relato do correspondente do Esquerda.net no Japão.
Habitante evacuada da cidade de Hitachi, localizada perto da central de nuclear de Fukushima, a ser examinada, procurando-se vestígios de contaminação radioactiva. Foto Asahi Shimbun/EPA/LUSA

Na terça feira, os trabalhadores da central nuclear que ainda tentavam fazer alguma coisa para amenizar a situação tiveram que abandonar os seus postos de trabalho. Às 6h14 uma explosão ocorreu no reactor 2. Durante o dia houve um incêndio no reactor 4. E um fuga radioactiva ocorreu nesse reactor. A radioactividade constatada, segundo as autoridades atingiu um nível prejudicial à saúde humana. O que era um desastre nuclear, ainda sob controlo, segundo as autoridades (governo e Tokyo Electricidade), e o pior acidente desde Chernobyl, segundo a imprensa mundial, transformou-se numa perigosa tragédia, completamente fora do controlo. Quem quiser pensar diferente, desde logo, tem todo o direito. Mas, nos próximos dias, seremos apenas observadores passivos de uma tragédia que se agrava. Ninguém consegue dizer, com segurança, quais serão os desenvolvimentos imediatos e futuros.

Na segunda-feira, o governo alegava que o perímetro, de 20 km à volta da central nuclear de Fukushima, era seguro. Na terça-feira, após os novos desdobramentos, esse perímetro foi aumentado para 30 km, mas, com que critério esse perímetro é determinado, ninguém conhece. A situação parece a de ratos de laboratório, submetidos a sádicos cientistas Na primeira experiência verifica-se o que ocorre com esses infelizes roedores numa distância de 3 km. Após verificar-se que é uma distancia curta e que existe contaminação nuclear, testam com 10 km. Se ainda assim esses roedores sofrerem contaminação, aumenta-se esse raio para 20 km, 30 km, e assim sucessivamente…

Mas a realidade de terça-feira desmentiu as palavras das autoridades “competentes”. A radioactividade foi comprovada em seis províncias japonesas (Fukushima, Tochigi, Gunma, Saitama, Yamanashi, Chiba, Kanagawa, Shizuoka e Tokyo, a capital), para onde, maus ventos sopraram, segundo o que parece. Várias pesquisas cientificas já provaram que a alergia do pólen, derivada do cedro japonês, que afecta milhões de pessoas, no Japão, neste período, pode viajar 100km ou mais. Isso, qualquer japonês sabe. Na terça-feira, substâncias radioactivas viajaram uma distância que foi superior a 300 km. Essa é, no mínimo, qualquer distância entre Fukushima, onde ocorreu o acidente, e a cidade mais próxima da província de Shizuoka, na região de Tokai.
As autoridades “competentes”, disseram que a radioactividade, no perímetro de 30 Km (já não é mais 20!) segundo as amostras colhidas, é, realmente, prejudicial à saúde Mas, o “pozinho” radioactivo que viajou por seis províncias e também Tokyo, numa distância aproximada de 300 km, não é prejudicial à saúde. Se você conhece o personagem das histórias infantis chamado Pinóquio, certamente, será capaz de imaginar que o nariz das autoridades japonesas, que já crescia antes do tsunami, pode estar produzindo folhas nas últimas horas.

O nível da radiação que voou na região de Kanto, na terça-feira, varia de intensidade e, neste momento, não há como verificar se não houve mesmo nada prejudicial à saúde Mas, o grave nessa história é que, sem dúvida, ninguém pode imaginar quais seriam as proporções do acidente se este tivesse sido mais grave, o que não está descartado de acontecer nos próximos dias. Como não temos nenhuma informação confiável, o melhor é acreditar nas nossas próprias avaliações, ou seja, quanto mais longe você conseguir ficar de Fukushima, melhor… Para se ter uma ideia da dimensão que pode tomar a tragédia, basta lembrar que a região de Kanto, onde fica Tokyo, é a maior concentração populacional do Japão. O pais tem uma população de 127 milhões (2009), sendo que as seis províncias e Tokyo, que receberam o “pozinho” radioactivo, somam 48 milhões (veja tabela abaixo, dados de 2008).

Fukushima - 2.052.000
Ibaraki - 2.963.000
Gunma - 2.012.000
Tochigi - 2.011.000
Saitama - 7.112.000
Chiba - 6.129.000
Kanagawa - 8.917.000
Shizuoka - 3.799.000
Tokyo (Tokyo e cidades que formam a região metropolitana de Tokyo) - 12.838.000
Total – 47.831.000

Com base nesta tabela, é possível, usando um pouco da imaginação, criar vários cenários possíveis, caso novas fugas de radioactividade aconteçam No pior cenário, do ponto de vista económico, onde Tokyo seja atingida, assistiremos ao colapso completo de um pais chamado Japão. As vítimas, que não são fatais agora, directas e indirectas podem superar a casa dos milhares ou mesmo alguns milhões É realmente difícil não sofrer um certo pânico e evitar sensacionalismo. Mas há possibilidade de diversos cenários e não há como descrevê-los nos limites deste artigo.

Na Europa, as autoridades do sector nuclear declararam que o Japão vive o apocalipse. Hoje, uma nuvem de fumaça saiu do reservatório de combustível utilizado do reactor 4. As trabalhos de resfriamento provisório dos reactores, com a evacuação dos trabalhadores da usina, devido à contaminação radioactiva foi abandonado. A Tokyo Electricidade foi forçada a pedir ajuda do governo. Através da internet, vi uma foto de um helicóptero militar jogando agua sobre o reservatório de combustível usado. Não há dúvida de que é uma medida desesperada, na falta de outra opção. Mas, é claro que se trata de uma medida de eficácia questionável ou melhor dizendo, provavelmente, inútil O governo e a Tokyo Electricidade têm mantido a opinião pública na ignorância. E mesmo a imprensa japonesa não esta conseguindo reagir à altura dos acontecimentos. Ficamos sempre com informações sobre o passado, quando necessitamos saber o que ocorre agora, no presente, neste minuto.

Alem das 200 mil pessoas que já haviam evacuadas, o governo sugeriu que as pessoas num perímetro de 30km da central nuclear não saiam de casa, pois correm o risco de contaminação. De repente, essas pessoas, cujo número é de milhares de pessoas, encontram-se numa espécie de prisão domiciliária. Ficar em casa e esperar que as coisas piorem? Ou será melhor sair e correr risco de contaminação nuclear?

O governo, absolutamente incapaz de fazer frente à dramática situação, não pode sequer reconhecer a sua falta de preparação. É evidente que as autoridades “competentes” não estão em condições de fazer absolutamente nada. Não há estrutura para evacuar milhares de pessoas em situação e emergência, transporte, instalações provisórias. Não existe equipamento suficiente para se verificar graus de contaminação nuclear. A única coisa que nos resta, sinceramente, é esperar que a tragédia seja a menor possível.

Alguns deverão lembrar-se que, este que vos escreve, o faz desde Tokyo e, posso garantir, a sensação que vivo não é nada agradável. Fui convidado a trabalhar, na próxima semana, nas províncias de Tochigi e Ibaraki. Com relação a Tochigi, já havia declinado ao convite e, com relação a Ibaraki, não há dúvidas de que não irei, nem mesmo amarrado. No que diz respeito à minha pessoa, confesso que sou forçado a agir como os patos, ou seja, viajar rumo ao sul, já que Fuklushima fica ao norte… Um grande amigo acaba de me confessar que retirou todo o pouco dinheiro que tem da sua conta bancaria. Disse-me: “Não confio em nada. Se tiver problemas, não terei como tirar dinheiro do multibanco. O que vou fazer?” Bem, seguramente o meu amigo está um pouco assustado com o ritmo dos acontecimentos.

Fui chamado a trabalhar na província de Saitama esta noite. Não é uma perspectiva muito boa, mas, como todos, tenho que trabalhar. Por outro lado, decidi que não pretendo trabalhar em Tokyo, nos próximos dias. Pânico? Não sei… Mas o que você faria se estivesse em Tokyo hoje?

Fui olhar o panorama desde a janela do meu quarto. Essa mesma janela pela qual quase tive que pular durante o terramoto da sexta-feira. Olhei para o horizonte, em direcção ao norte. A parte de cima do céu esta límpida e azul. Era possível, inclusive, ver a lua, mesmo sendo ainda final de tarde. A parte de baixo do céu estava cinzenta. Maus augúrios? Não foi o que pensei naquele momento. Apenas senti uma certa tristeza.  

Artigos relacionados: 

Sobre o/a autor(a)

Termos relacionados Energia nuclear, Internacional
(...)