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Japão: segunda explosão e caminhando para a terceira

Onze trabalhadores ficaram feridos na explosão, um deles com gravidade. Vítimas do terramoto e do tsunami estimadas em 20 a 30 mil. 600 mil pessoas estão abrigadas provisoriamente em instalações de emergência.
"Ocorreu, às 11h da manhã locais, a segunda explosão no reactor 3 da central Fukushima 1. A explosão, uma grande bola de fogo que foi filmada, produziu uma torre de fumaça de dezenas de metros".

Ocorreu, às 11h da manhã locais, a segunda explosão no reactor 3 da central Fukushima 1. A explosão, uma grande bola de fogo que foi filmada, produziu uma torre de fumaça de dezenas de metros. Ao ver as fotos, dá-me a impressão de aproximadamente uns cem metros, comparando-se com o prédio do reactor que, no mínimo, deve ter uns dez metros de altura, para não se exagerar nos cálculos. A foto que vi na edição nocturna do jornal Yomiuri, o mais importante do país, mostra uma explosão em forma de uma espécie de cogumelo japonês, artigo de luxo, conhecido como cogumelo do pinheiro. Tal como a de sábado, o governo e a operadora dizem ter-se tratado de uma explosão de hidrogénio.

Como vem ocorrendo desde sexta-feira, após o terremoto e o tsunami, as autoridades tentam minimizar os factos e já me pergunto se a população japonesa está a acreditar completamente nas palavras das autoridades. A explosão provocou um acidente com onze trabalhadores da Tokyo Electricidade e de empresas contratadas. Um deles encontra-se em estado grave. Não consegui obter informações sobre a gravidade da exposição radioactiva sofrida por esses trabalhadores.

Cerca de 600 moradores negaram-se a abandonar as suas moradias e encontram-se no perímetro estabelecido para evacuação, de 20 km. Após a explosão, as autoridades pedem que não saiam de casa. Foi informado também que o vento levou (não se sabe até onde) as substâncias produzidas na explosão. Mas, mesmo assim, as autoridades afirmam que não há perigo. As explicações são insuficientes, mas não resta dúvida de que a explosão de hoje foi mais grave que a de ontem. Basta comparar as fotos da explosão de sábado com a de hoje, como fez o Yomiuri, na capa da edição nocturna.

O sistema de refrigeração do reactor 2 da central Fukushima 1 entrou em colapso esta tarde e parou de funcionar. Está a ser bombeada água do mar. A exemplo do que ocorreu com os reactores 1 e 3, é possível que ocorra uma nova explosão de “hidrogénio”, como as anteriores.

A crise nuclear japonesa está a tomar rumos dramáticos e, pior que isso, perigosos. Além de um histórico terremoto e tsunami, apesar das palavras “tranquilizadoras” das autoridades, pode ser que estejamos marchando para uma coisa horrenda. O seguro, penso, seria evacuar toda a população da região, num raio de mais de cem quilómetros ou muito mais, e deixar lá apenas a sede do governo japonês, o primeiro-ministro Naoto Kan e os seus ministros, e a direcção da Tokyo Electricidade. Mas o governo, que não consegue socorrer, neste momento, sequer as pessoas que ainda se encontram desaparecidas na região devastada, obviamente, não pode nem sonhar em evacuar mais gente. No Verão japonês, até as crianças brincam com fogos de artificio. Mas o governo japonês parece estar a brincar com coisas mais sérias do que isso.

Do caos imediato ao caos permanente

Ao despertar, o céu estava límpido e senti por um fugaz momento certa tranquilidade. Fui fazer uma inútil tentativa de comprar pão de forma para o pequeno-almoço. Desde ontem, já entrei varias vezes no Seven Eleven, uma loja de conveniência, caçando o pão, que anda meio sumido das prateleiras. Perguntei ao caixa sobre o paradeiro do dito cujo, já que duas vezes por semana, em média, costumo comprar lá o sagrado pão do meu sempre apressado pequeno-almoço. O rapaz informou-me que o pão desaparece logo que chega. A conclusão que cheguei é que, se quero comprar pão, terei, primeiro, que arrumar uma cartucheira para, quem sabe, impor alguma intimidação nessa horda de bárbaros. Comentei com um amigo que pensava se tratar de japoneses, mas, em certos momentos, não sei se com tantos terremotos, comecei a ver alucinações, se parecem mais a um bando de piranhas, no Rio Amazonas, devorando uma presa, que, por descuido, entrou no rio. Desde sexta-feira, após o terremoto, não só o pão, como as batatas fritas, todos tipos de salgadinhos e as sopas instantâneas estão meio sumidos das prateleiras.

O leitor já devera estar pensando se vale a pena continuar a ler. Se esse que escreve do Japão neste momento, por acaso, não terá perdido alguns parafusos com tantos tremores. Outros mais radicais perguntarão se isso e jornalismo. E os extremistas dirão que não é hora para brincadeiras. Não posso responder a esses questionamentos. Em qualquer caso, adianto as minhas desculpas. Também sou ser humano e, sim, posso estar com os nervos meio abalados. Todas as vezes que me sento diante do computador, sou acometido de inúmeros tremores, alguns realmente sérios, e preciso relaxar um pouco, mesmo que isso seja as custas da paciência do leitor. Realmente desculpem-me.

O número de mortos, baseado em informações de ontem, irá ultrapassar a casa de 20 mil e, no momento, podemos dizer que será menor de 30 mil, mas ainda é cedo para se chegar a um número definitivo. Nos povoados de Minami Sanriku, na provincial de Miyagi e Otsuchi, na provincial de Iwate, estima-se que morreram em torno de 20 mil pessoas, cerca de dez mil em cada localidade.

São tantas informações e tanta pressão que, ontem, esqueci-me de informar que o terremoto foi tão forte que entortou a ponta da torre de Tokyo, um dos marcos da capital japonesa.

Nós ainda não temos a dimensão exacta dos problemas do Japão pós terremoto e tsunami. Mas, o que escrevi acima, é apenas uma minúscula demonstração das proporções caóticas que estamos a viver nestes dias. Não entenda por isso que todo pais está afogado no caos, pois isso não é real.

As linhas do TGV para o nordeste continuam paradas. Várias linhas estão com funcionamento irregular. Os constantes terremotos acarretam mais problemas nas linhas que estão a funcionar de maneira precária, já que são necessárias, a cada terremoto significativo, inspecções de segurança. Durante a manhã, a situação em Tóquio estava meio caótica, com milhares de pessoas obrigadas a aguardar os comboios.

Cerca de 600 mil pessoas estão abrigadas provisoriamente em instalações de emergência. Dessas, 400 mil pelo terremoto e tsunami, e 200 mil pelas explosões na central nuclear, na província de Fukushima.

Os resgates nas áreas atingidas ainda continuam. A área afectada possuía poucas estradas principais. A estrada costeira, depois do tsunami, está com varias partes intransitáveis, dificultando as operações de resgate.

A área devastada continua sem luz, sem água e instalações sanitárias. A situação alimentar é precária e isso está a acarretar um comportamento de pânico não sei se em todo o país ou, pelo menos, até à área de Kanto, onde ficam as grandes cidades de Tóquio e Yokohama. Não sei se a palavra adequada é falta de combustível Em certo sentido ela existe, mas, por outro lado, muita gente optou, por via das dúvidas, por encher os depósitos dos carros, sem necessidade imediata, o que provocou a falta, em muitos casos, ou o racionamento, onde ainda existe.

Fui ao supermercado ontem para certificar-me da situação. Não pude ter uma ideia real, pois era domingo. Muitas prateleiras estavam vazias, mas disso, ainda não concluo que haja falta de alimentos. Nas lojas de conveniência, sim, existe um desequilíbrio. Uma parte da população japonesa, das grandes cidades, vive sozinha. São, na sua maioria, pessoas que tiveram de se afastar das suas famílias, nas províncias mais atrasadas, onda falta emprego, sendo forçadas a viver nas grandes cidades. Muitos são solteiros, não cozinham e costumam comer os pratos prontos vendidos nas lojas de conveniência. Basta pagá-los, que, imediatamente, os caixas os aquecem nos micro-ondas, operação que leva apenas um minuto. O que ocorre é que essa parte da população viu-se diante da possibilidade de não ter o que comer e foi forçada a fazer stock de algum tipo de comida. Muitos não têm frigoríficos e a solução é comprar alimentos não perecíveis. As sopas instantâneas desapareceram na sexta e sábado, reapareceram no domingo e, hoje pela manhã, tinham sumido outra vez. Essa é a única explicação que encontrei para o desaparecimento das batatas fritas e dos salgadinhos das prateleiras.

O terramoto criou uma crise energética de grandes proporções no Japão. Do ponto de vista imediato, a partir de hoje faltará luz em várias partes. Em particular, na área de Kanto, a principal do país. O racionamento vai acarretar problemas nas fábricas, nos transportes e no sector de serviços que opera à noite, em particular restaurantes, bares, entretenimento, saúde e toda uma gama de sectores. Uma outra discussão é se a população irá permitir que as actuais centrais nucleares continuem a funcionar ou se as que estão a ser construidas deverão ser terminadas. As consequências económicas disso são óbvias. Parte do orçamento fiscal, que deverá ser votado nos próximos dias, terá de ser modificado, levando-se em conta a necessidade de reconstruir a área devastada. Ao iniciar esta nova semana, apenas estamos a começar a sair do choque da semana passada. Sob todos os ângulos, o Japão desta semana é muito mais complexo do que o da semana passada.

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