Foi chamada a “revolução do streaming” e constituiu uma mudança transversal na forma como consumimos entretenimento. O nome é adequado: é a maior revolução nas tendências de consumo de entretenimento desde que a música passou a estar disponível on demand com os vinis. Há menos de uma década, DVDs e CDs enchiam lojas e casas, hoje em dia todo esse conteúdo está disponível na nuvem, sem formato material e com escassas possibilidades de posse.
A desmaterialização do produto de entretenimento é um processo cujo motor foi tecnológico, no sentindo em que a melhoria de velocidades de banda larga e dos dados móveis permitiu consumir conteúdos diretamente na nuvem, deixando de depender de um objeto físico. Mas a revolução do streaming é também um processo económico, que implica o desapossamento do produto físico e a criação de um novo modelo rentista, com base numa subscrição mensal que dá acesso aos produtos de entretenimento na nuvem.
Esse formato tornou-se popular porque é mais acessível. A biblioteca de um serviço como a Netflix, Amazon, Hulu ou mesmo Spotify, oferece centenas de filmes e séries, ou milhares de músicas, em alta qualidade e sem anúncios, por um preço mensal fixo. Ora, comprar DVDs, Blurays e CDs de música acaba por sair mais caro e dá acesso apenas a um conteúdo singular e limitado. A revolução do streaming permitiu um maior acesso aos conteúdos de entretenimento on demand para quem tem menos poder de compra. Nesse sentido, é uma melhoria.
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Mas será uma melhoria permanente? Ao entrar no mercado em Portugal, plataformas como a Netflix beneficiaram de pouca competição e de um investimento grande num catálogo de qualidade. Mas, à medida que novas plataformas entram nesse mercado, esse catálogo vai sendo espartilhado, o que significa que o consumidor tem de subscrever mais de um serviço de streaming para ter acesso a uma diversidade maior de conteúdos.
Por outro lado, os preços das subscrições tem vindo sistematicamente a aumentar. Ainda em agosto, a Spotify anunciou que ia aumentar preços em todo o mundo. Após atrair e fidelizar utilizadores com o um acesso fácil e barato, as plataformas de streaming começam a subir preços para aumentar taxas de lucro.
Subscrição vs propriedade
Para além da tendência para aumentar preços, o modelo de consumo de entretenimento tem outro problema fundamental do lado do consumidor. É que este deixa de ser dono do produto que consome e fica à mercê completa da plataforma. Se a plataforma deixar de disponibilizar o conteúdo ou se o consumidor deixar de pagar a subscrição, perde acesso.
Esta despossessão garante mais uma coisa: se a plataforma achar que um conteúdo não deve ser disponibilizado, não o disponibiliza. Isso aconteceu, por exemplo, com episódios de sitcoms como Community ou It's Always Sunny In Philadelphia, que deixaram de ser disponibilizados por critério das plataformas e que hoje não estão disponíveis para os consumidores.
A desmaterialização em si já levanta problemas sobre o acesso aos conteúdos comprados. Uma grande discussão sobre esse tema começou quando a plataforma de videojogos Steam fez saber aos seus utilizadores que o que estavam a comprar era uma licença para o jogo e não o jogo em si. A mudança de vocabulário em si não é nada de novo.
Na verdade, a cópia física de um filme, CD de música ou videojogo sempre foi uma espécie de licença para o conteúdo, mas neste caso, há mesmo exemplos de pessoas que pagaram por um conteúdo e depois deixaram de o ter. A Forbes relata o caso do jogo Order of War: Challenge, que foi retirado das bibliotecas Steam dos utilizadores ainda em 2013, apesar de ter sido comprado por quem o jogava.
Essa mecânica sempre foi impossível com as cópias físicas do produto, mas os modelos das plataformas digitais tornam cada vez mais os consumidores dependentes das vontades das empresas que servem de intermediário entre o objeto final e o consumidor, sejam elas lojas virtuais ou sites de streaming.
Muda o meio, muda o conteúdo
Se a revolução do streaming foi motor económico para novas formas de consumo, também o foi para mudanças substanciais no modelo de criação de entretenimento de massas e até de nicho. Essas mudanças expressaram-se de forma diferente nos diferentes meios de entretenimento.
O ator Matt Damon explicou como essas mudanças ocorreram no cinema e porque é que “já não se faz filmes como antigamente”. E essa explicação revelam muito sobre a nova realidade do meio. Para além de algum declínio na indústria do cinema, mas que se tem demonstrado mais suave do que o esperado, o fim do paradigma da propriedade foi o maior fator de transformação da indústria.
Dizia o ator numa entrevista que “o DVD era uma grande parte da nossa receita, e a tecnologia tornou-o obsoleto. Com os filmes que costumávamos fazer, sabíamos que não precisávamos de ganhar a receita toda no cinema, porque depois saía o DVD, e passados seis meses recebíamos mais dinheiro”.
Agora, toda a receita depende do cinema, e portanto qualquer nova produção é um grande risco. Filmes vencedores de Óscar como O Bom Rebelde, escrito por Matt Damon, dificilmente conseguiriam ser produzidos na indústria de Hollywood. Por isso, os estúdios de cinema apostam na nostalgia ao fazer remakes e adaptações de velhas histórias, ou em grandes blockbusters de superheróis, que sabem que terão sucesso. Mas a morte do DVD significou efetivamente a morte de novas experiências. Por outro lado, as séries de televisão começaram a ter um novo protagonismo, por garantir mais horas de conteúdo às plataformas de streaming e uma maior fidelidade por parte dos consumidores.
Na música, o aparecimento das lojas digitais, mas sobretudo do Spotify, permitiu que milhares de artistas independentes se dessem a conhecer ao mundo sem terem de passar pelo crivo das editoras musicais. Músicas e artistas que nunca teriam tido a oportunidade de ter palco, ganharam-no.
Só que a perda de mediadores não traz só coisas boas. A mediação entre públicos e artistas sempre foi uma ferramenta essencial para fazer uma pré-seleção de conteúdos, apesar dessa pré-seleção normalmente ter como critério-guia o lucro. O fim desse filtro significa, por exemplo, que conteúdos de extrema-direita mais facilmente se tornam acessíveis à população.
É o caso de JW “Broken Veteran”, um “artista” que foi criado no Spotify e que rapidamente chegou ao top das músicas mais ouvidas da plataforma com canções racistas e de extrema-direita. “Dizemos não a AZCS" (centros para requerentes de asilo), "Chamem-me de extrema-direita", "Vão-se lixar cabrões esquerdistas", "Timmermans, profeta falso" e "Se não gostam, vão-se embora", são os nomes traduzidos de alguns dos seus hits. Há ainda uma outra rasteira. É que “Broken Veteran” não existe: as suas músicas são produto de inteligência artificial. Tudo desde o instrumental, à letra e à voz é produzido com IA.
A revolução do streaming deixou a indústria do entretenimento com conteúdos mainstream menos diversificados e conteúdos alternativos menos mediados. Para o bem ou para o mal, essa é a nova realidade de uma nova forma de consumo de entretenimento que começou por ser mais abrangente e acessível, mas que poderá em breve definhar para uma inacessibilidade geral.