Leituras

“O 25 de Abril que novembro traiu” é mais do que um livro de memórias

23 de novembro 2025 - 14:18

Numa altura em que as forças conservadoras tentam institucionalizar o 25 de Novembro como uma data fundadora da democracia, relegando o 25 de Abril para uma celebração pacificada e despolitizada, o livro de Duran Clemente resgata a revolução como rutura,

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Ana Sofia Ferreira 

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capa do livro

Há livros que são mais do que memórias: são instrumentos de combate pela preservação da história. O 25 de Abril que novembro traiu (Monocromia, 2025), de Manuel Duran Clemente, é um desses livros. Publicado no cinquentenário da Revolução de Abril, inscreve-se num momento em que a disputa pela memória se intensifica e a narrativa dominante sobre o processo revolucionário português é posta em causa. Entre a evocação e o ensaio, inscreve-se no território em que a memória pessoal se transforma em reflexão política. O autor pertence à geração de militares que viveu a Revolução de Abril por dentro, participando nas suas tensões, esperanças e derrotas. Da Guiné, onde se encontrava destacado no dia 25 de Abril de 1974, até à 5.ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, Duran Clemente atravessou os lugares decisivos de um processo que, cinquenta anos depois, continua a definir a democracia portuguesa.

Fernando Rosas
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O livro propõe-se interrogar o modo como a Revolução é hoje lembrada — ou reconfigurada — no espaço público. A partir de uma experiência individual que se quer contributo para a memória coletiva, o autor reivindica uma leitura crítica do 25 de Novembro de 1975, recusando a versão canónica que o celebra como início da “normalização democrática”. Para Duran Clemente, esse dia marca antes o epílogo de uma contrarrevolução que dissolveu o Movimento das Forças Armadas, reinstaurou a hierarquia militar tradicional e interrompeu o impulso popular que ligara os militares aos trabalhadores e moradores nos meses de 1974-75.

A narrativa de Duran Clemente confronta diretamente a tentativa de reduzir o processo revolucionário a uma ameaça comunista frustrada. Invocando factos frequentemente esquecidos, recorda que o 25 de novembro só foi possível após o fracasso contrarrevolucionário de 11 de março de 1975 e, que a alegada “ameaça insurrecional da esquerda militar nunca passou de um pretexto para consolidar o poder dos chamados “moderados” e restaurar a disciplina militar. A obra não ignora as tensões internas da esquerda nem o peso das forças internacionais, mas insiste num ponto: a democracia portuguesa nasceu de uma revolução socialista, consagrada constitucionalmente em 1976.

No prefácio de Rui Pereira, que abre a obra sob o título eloquente “Sonho e pesadelo entre Abril e Novembro”, a imagem do corte da emissão na RTP – quando o rosto de Duran Clemente foi substituído pela comédia “The Man from the Diner’s Club”, em plena crise de 25 de Novembro – torna-se metáfora fundacional. Ali se resume a tentativa de interromper o processo revolucionário e substituí-lo por uma narrativa neutralizadora, “uma paródia triste”, como escreve o prefaciador, que ressoa nos dias de hoje nas comemorações oficiais da data pelos partidos políticos de direita na Assembleia da República.

Duran Clemente recusa essa leitura conciliadora e intervém num tempo em que a disputa pela memória se intensifica. O que está em causa, como lembra o prefácio de Rui Pereira, é a edificação da “consciência presente”, porque toda a batalha pela memória é uma batalha pela interpretação do presente. Não por acaso, Duran Clemente dialoga com os conceitos de “democracia filofascista” ou de “Conceitos Essencialmente Contestados”, que, como diria W.B. Gallie, estruturam no seu âmago as disputas pelos sentidos do poder popular, da liberdade e da democracia.

A narrativa de Duran Clemente reitera a importância de devolver a voz aos protagonistas silenciados. Numa altura em que as forças conservadoras tentam institucionalizar o 25 de Novembro como uma data fundadora da democracia, relegando o 25 de Abril para uma celebração pacificada e despolitizada, este livro resgata a revolução como rutura, como acontecimento político, social e cultural que abriu “todos os campos dos possíveis”.

O 25 de Abril que novembro traiu é mais do que um livro de memórias: é um ato de resistência, um gesto político que recoloca a Revolução do 25 de Abril no centro da história da democracia portuguesa, recordando que a democracia portuguesa é filha da Revolução de Abril.


Ana Sofia Ferreira é Professora Auxiliar de História Contemporânea na Universidade do Porto. Especialista em história social e política, estuda questões relacionadas com a violência política, a esquerda radical e o processo revolucionário português de 1974-76.