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Trabalhadores da TAP contestam algoritmo usado para despedir

A escolha dos trabalhadores a despedir está a ser feita por um algoritmo criado pelo Boston Consulting Group, que teve acesso aos dados sobre absentismo. Trabalhadores contestam critérios errados e má fundamentação em todo o processo.
Aviões da TAP
Foto Manuel de Almeida/Lusa

A edição desta sexta-feira do Jornal Económico dá conta do mal-estar na TAP pela forma como estão a ser propostas as rescisões de contrato a muitos trabalhadores. A empresa apoia-se num algoritmo criado pelos seus consultores no processo de restruturação - o Boston Consulting Group (BCG) - para, por exemplo, identificar quem tenha tido mais faltas injustificadas nos últimos anos.

“O algoritmo não tem coração. A BCG trabalha com números e não com pessoas e tem demonstrado, uma vez mais, não ter a mínima sensibilidade neste processo”, disse o presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), Henrique Louro Martins, ao Jornal Económico. O sindicalista queixa-se que “a empresa faz tábua rasa do passado dos seus tripulantes, não tendo em conta o seu percurso profissional, observando apenas critérios vagos e poucos objetivos”.

Um dos casos a provocar polémica é o de um trabalhador que perdeu o filho menor e o irmão nos incêndios de Pedrógão Grande em 2017. Na altura, a empresa acompanhou sempre a sua recuperação, mas agora viu essa situação ser usada contra si na reunião em que lhe propuseram a saída. A própria TAP admitiu que “o trabalhador em questão foi efetivamente listado pelos critérios, mas o caso foi detetado pelos Recursos Humanos e o trabalhador está ao serviço, tendo inclusive recebido a ‘carta de conforto’ na passada sexta feira”.

Há também pelo menos um caso de um trabalhador “apanhado” pelo algoritmo por causa de faltas injustificadas e que encontrou irregularidades nessa inscrição, alegando que conta apenas com baixas justificadas por doença.

Para o advogado Garcia Pereira, também ouvido pelo Jornal Económico, o uso de dados sobre o absentismo é uma “manifesta violação do Regulamento Geral da Proteção de Dados. Para ir à origem do absentismo, só podem fazer isso com conhecimento dos dados do trabalhador. Como é que os dados vão parar a uma entidade estranha à TAP?”, questiona. A conclusão deste especialista em Direito do Trabalho é que o algoritmo serve de justificação para um despedimento cego na empresa. No caso dos tripulantes, acrescenta Garcia Pereira, “a TAP tem um objetivo a atingir e não querem assumir a responsabilidade política de fazer um despedimento coletivo”.

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