Num protesto organizado em dia de greve pela CGTP, dezenas de trabalhadoras das cantinas concentraram-se esta sexta-feira em Lisboa para exigir a revisão do contrato coletivo de trabalho que a associação patronal AHRESP recusa negociar há 20 anos. Entre outras reivindicações, as trabalhadoras exigem aumentos salariais de 15% com o mínimo de 150 euros e o salário de entrada no sector de 920 euros, um regime de diuturnidades a vencer de 4 em 4 anos no valor individual de 25 euros, a redução do horário de trabalho para as 35 horas semanais e 25 dias úteis de férias.
Concentração das trabalhadoras das cantinas em Lisboa. Foto Esquerda.net
Presente no protesto em solidariedade com esta luta, Mariana Mortágua deu aos jornalistas o exemplo de uma trabalhadora ali presente que "trabalha há 30 anos na cantina de uma escola, não tem um contrato efetivo, é contratada por três meses de setembro a dezembro, depois é despedida e há um novo contrato em janeiro" A situação repete-se há décadas e se "há vinte anos ganhava um bocadinho acima do salário mínimo nacional, entretanto passou a receber o salário mínimo nacional e há vinte anos que trabalha no mesmo sítio".
"As empresas não renegoceiam os contratos coletivos de trabalho e o Estado e os municípios que contratam estas empresas para garantir as cantinas não querem saber das condições de trabalho dos seus trabalhadores", prosseguiu Mariana Mortágua, acrescentando que "esta trabalhadora representa 30 mil pessoas que trabalham nas cantinas das escolas" e que a estas 30 mil há que juntar mais dezenas de milhares que trabalham na restauração em condições semelhantes.
"Temos aqui um exemplo do que é o país dos baixos salários, dos contratos precários, o país da pobreza das pessoas que trabalham e não conseguem sair da pobreza. Elas merecem todo o nosso respeito e merecem ser respeitadas pelo seu trabalho e ter salários dignos", defendeu a coordenadora do Bloco, denunciando também os ataques ao direito à greve por parte das instituições públicas onde trabalham, ao contratarem nos dias de greve "outras pessoas precárias ou põem as auxiliares das escolas a fazer o trabalho nas cantinas".
Mariana Mortágua no protesto das trabalhadoras das cantinas. Foto Esquerda.net
"Este não é o Governo do trabalho digno, pelo contrário, o Governo tem prolongado a exploração e o modelo dos baixos salários", concluiu Mariana Mortágua, defendendo que "a solução é a contratação coletiva" e que "o Estado e as Câmaras devem internalizar estas trabalhadoras".
"Se as cantinas precisam sempre destas pessoas para as manter, porque é que não são funcionárias do Estado? Porque é que o Estado vai pagar a um intermediário que vai explorar estas pessoas com contratos precários? Porque é que não é o Estado a contratar estas pessoas e dar-lhes salários dignos e carreiras? Este era um primeiro passo para conseguirmos resolver a vida de milhares de pessoas que garantem as cantinas todos os dias e que são maltratadas pelas empresas, pelo Estado e pelas autarquias", defendeu a coordenadora bloquista, lembrando que "o salário mínimo não paga a renda da casa" e que por isso "é preciso uma rotura completa com este modelo de precariedade".
Concentração das trabalhadoras das cantinas em Lisboa. Foto Esquerda.net
Mariana Mortágua no protesto das trabalhadoras das cantinas. Foto Esquerda.net