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Theresa May sobreviveu ao voto de confiança, mas o seu Brexit está em apuros

Enquanto May se pode vangloriar de ter enfrentado com sucesso a sua oposição no Partido Conservador, o resultado não a ajuda em nada em encontrar uma saída para o impasse parlamentar. Artigo de Robin Pettit.
Theresa May. Foto governo britânico/Flickr

Ao vencer a votação de não-confiança do Partido Conservador por 200 contra 117 votos, Theresa May derrotou a tentativa mais grave para a afastar da liderança do partido. Uma aposta nunca teve grandes hipóteses de sucesso pela simples razão de que não existia nenhum candidato abertamente declarado ao lugar. Nem um único deputado conservador esteve disposto a vir a público dizer que conseguiria fazer melhor que a primeira-ministra e exigir o cargo em vez dela.

A falta de um desafio após ela ter perdido a maioria nas eleições antecipadas de 2017 mostrou a relutância dos prováveis sucessores em darem um passo em frente. Isto deve ser lido no contexto em que o Partido Conservador, por tradição, não aceita de ânimo leve más prestações eleitorais dos seus líderes. A vitória de May nesta votação deixou bem claro que não há ninguém no Partido Conservador a achar que podia fazer melhor a negociar com os 27 países da UE.

Na antevisão da votação houve muita especulação sobre o que seria um “bom” resultado para May. Contudo, tendo em conta todas as humilhações e derrotas que a primeira-ministra já sofreu, qualquer vitória neste voto de não-confiança já bastaria. May fica agora livre de uma disputa ao seu lugar por um ano inteiro. Isso irá aumentar bastante a sua capacidade de conservar a posição de líder do partido.

Ainda bloqueada

Ainda que os Brexiteers da linha dura do European Research Group (ERG) tenham fracassado na sua tentativa de afastar May, a vitória dela de nada servirá para desfazer o impasse parlamentar. O resultado do voto de não-confiança mostra que no interior do Partido Conservador, o ERG e os Brexiteers da linha dura não dominam qualquer tipo de maioria. Contudo, se olharmos para a aritmética parlamentar, têm força suficiente para afundar qualquer acordo que seja posto a votos na Câmara dos Comuns. O ERG e o DUP [partido unionista da Irlanda do Norte que garante a maioria parlamentar ao governo] estão em sintonia quanto ao que consideram ser um acordo inaceitável. Por isso, se a primeira-ministra pode continuar no cargo, também é evidente que o seu poder efetivo é muito próximo do zero.

A questão que se põe agora é o que vai acontecer tanto à primeira-ministra como aos seus adversários da linha dura do Brexit? May tem agora a tarefa pouco atraente de decidir o que fazer com o seu moribundo acordo de saída.  A UE deixou bem claro que não quer reabrir negociações. Mesmo se o fizessem, o mais provável seria que o novo acordo fosse pior, particularmente tendo em conta o desejo francês para haver concessões sobre o acesso da frota pesqueira às águas britânicas ou os planos de Espanha para Gibraltar.

Hora de eleições?

Não há dúvidas de que a escolha mais realista de May pode ser a de novas eleições, nas quais o único tema na agenda seria o seu acordo de saída da UE. Isto é perfeitamente exequível em termos parlamentares. Poria os seus opositores internos na posição difícil de terem de fazer campanha contra o seu próprio partido, e se ela não perdesse teria a capacidade de dizer que tem um mandato democrático para avançar com o acordo. Contudo, todos os caminhos enfrentam o facto fundamental de que o prazo de 29 de março de 2019 estar desconfortavelmente próximo.

Essa contagem decrescente é sem dúvida o maior ativo dos apoiantes do Brexit duro. Sabendo que é altamente improvável que qualquer acordo de saída chegue ao parlamento com apoio da maioria, eles poderiam simplesmente continuar a impedir a sua aprovação e deixar o tempo correr. Há rumores de que se preparam para apoiar uma moção de censura ao governo, trabalhando com os Trabalhistas e os Liberais-Democratas para provocar eleições. Isso seria uma opção nuclear e iria causar estragos profundos ao Partido Conservador. E os Brexiteers começaram a minimizar essa hipótese logo após a votação sobre a liderança.

Resumindo, enquanto May se pode vangloriar de ter enfrentado com sucesso a sua oposição no Partido Conservador, o resultado não a ajuda em nada em encontrar uma saída para o impasse parlamentar. O obstáculo do voto de não-confiança foi ultrapassado, mas May não ficou mais perto de resolver o problema que esteve na origem do despoletar desse voto.


Robin Pettitt é docente de Política Comparada na  Kingston University de Londres. Artigo publicado no portal The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

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