Está aqui

Sobreviventes ao ensino à distância

Na Educação, os professores vivem o inferno da multiplicação das ordens, dos mecanismos de controle, das convocatórias e solicitações sem horário nem sensatez, do escrutínio público, da constante afronta à sua dignidade. Texto de Ana Paula Timóteo
Faixa "Professores exigimos respeito" - Foto Paulete Matos
Faixa "Professores exigimos respeito" - Foto Paulete Matos

No final de Abril de 1971, Sérgio Godinho gravava num estúdio em França o seu álbum de estreia “Os Sobreviventes”. No mesmo ano seriam também gravados os álbuns Cantigas de Maio de José Afonso, e que incluiu o Grândola Vila Morena, e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades de José Mário Branco.

No álbum Os Sobreviventes há um tema singular e de um enorme significado e compromisso político. “Que força é essa amigo” é uma canção, de letra curta, mas de uma lucidez extraordinária e, infelizmente, actual. E esta actualidade, decorridos 46 anos após o 25 de Abril, deve-nos preocupar porque alguma coisa está definitivamente a falhar.

Depois da revolução iniciada em 1974 e logo após a explosão de todo um povo que saiu à rua em festa e afogou ruas e avenidas de voz e esperança no 1º de Maio de 74, lentamente foi-se assistindo a um decrescendo no furor participativo na vida política e na construção de uma sociedade democrática e moderna e uma fragilização da audácia que no início parecia rebentar a plenos pulmões. Gradualmente as ruas e as salas e anfiteatros onde se debatia o futuro foram-se esvaziando substituídas pelos debates televisivos a que se assiste no sofá, pelos desabafos em círculos fechados. Durante muito tempo, vingou um discurso justificador da anémica intervenção política que se sentia em alguns sectores da sociedade. A atitude de frágil militância política (e atenção que não é o mesmo que militância partidária apesar de muitas vezes se confundirem os conceitos), era conotada pelos longos anos de ditadura que assim tinham enraizado um medo difícil de superar e ausência de hábitos de intervenção cívica. Com o tempo essa fundamentação foi perdendo fôlego e hoje não é facilmente entendível que as interrogações cantadas por Sérgio Godinho no tema aqui recordado estejam não apenas vivas, mas cada vez mais prementes de serem respondidas.

Afinal, a cada trabalhador subjugado ainda faz sentido perguntar “que força é essa amigo (…) que só te serve para obedecer? Que só te manda obedecer?”.

 

Na Educação, os professores vivem o inferno da multiplicação, não dos pães, mas das ordens, dos mecanismos de controle, das convocatórias e solicitações sem horário nem sensatez, do escrutínio público, da constante afronta à sua dignidade. Um complexo edifício kafkiano cada vez mais monstruoso e onde todos se afadigam convencidos que não existe alternativa a não ser obedecer, obedecer sempre como se da suspensão dos direitos laborais dependessem vidas humanas.

Convém também lembrar um aspecto que parece por vezes ficar esquecido. O trabalho insano que os professores realizam não apenas no momento actual com o formato bizarro de ensino à distância, mas ao longo dos anos dentro de escolas esgotadas e infelizes é, para além de todas as considerações respeitantes ao ECD e código do trabalho, miseravelmente remunerado. Por isso, podemos ir buscar à letra do Sérgio Godinho mais uma interrogação: afinal para quê, “carregar pedras, desperdiçar muita força p’ra pouco dinheiro”? uma pergunta a que se poderia acrescentar “e pr’a ajudar o disparate a vingar?”.

 

Surpreendentemente, quando se organizam demonstrações públicas do que não é aceitável e do que se rejeita, protesto brandido em voz e intervenção nos mais diversos espaços de debate e luta, o cansaço individual parece ser um adversário de peso fragilizando a força colectiva.

Parece pois evidente a existência de uma energia quase totalmente direcionada para a obediência servil e acrítica e que se mostra esgotada e inexistente para levantar a cabeça, firmar os pés e negar a escravidão que existe e dela somos todos vítimas. Ao mesmo tempo que este cenário é inaceitável após 46 anos de democracia, também se sente que não é difícil perceber porquê.

 

Hoje a precariedade no trabalho parece ter pés de chumbo e não arredar pé mantida e alimentada pelo tecido empresarial com o beneplácito dos sucessivos poderes de governação. Tudo porque a precariedade é um chicote metafórico muito útil e que interessa para manter o trabalhador de “rédea curta” sempre no difícil jogo equilibrista que o mantém refém do medo e longe do protesto. Não do medo de ir parar à rua António Maria Cardoso, mas de simplesmente ir parar à rua e começar a ser mordido pelos créditos à banca que foi obrigado a fazer. E a este medo junta-se o do ser prejudicado por aquilo que diz. Não, já não se vai parar a Caxias, mas fica-se na corda bamba e a medir cada palavra que se profere, cada acto que se assume, cada pergunta que se faz, cada tomada de posição assumida porque o lado lodoso dos que trepam e conquistam pisando as costas dos parceiros, não se extinguiu fazendo deles os informantes em tempos de democracia.

Os tempos são de mudança, mas temos que ser nós os orquestradores dela

E este é um cenário vivido também nas escolas onde o modelo de gestão antidemocrático tem vingado a bem do bem maior com que o ME se alimenta: o do acatamento sem ondas nem ruído. Para isso tem contado com um séquito de homens e mulheres de mão que, em grande parte das direções existentes (há boas e relevantes excepções) regem os seus pares assumindo-os como seus subordinados, com tiques de autoritarismo e soberba.

Vive-se assim nesta agonia de nos destroçarmos por dentro porque nos damos por inteiro a quem não merece e de novo regressamos a Sérgio Godinho: “Que força é essa? Amigo/ Que te põe de bem com outros e de mal contigo?” .

Resta expressar o desejo de que nestes dias azedos bem como em todos os outros que vierem, possamos todos “sentir uma força a crescer nos dedos e uma raiva a nascer nos dentes” porque é dessa força e dessa raiva que se alimenta o progresso humanista.

Os tempos são de mudança, mas temos que ser nós os orquestradores dela.

Texto de Ana Paula Timóteo

Termos relacionados Covid-19, Comunidade
(...)