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Revisitando a tragédia do “Titanic”

No momento em que o mundo vai fazendo face a uma grande tragédia, provocada pelo rápido e mortífero alastramento da Covid-19, faz sentido lembrar os contornos de outra, ocorrida faz agora 108 anos. Por Jorge Martins
Titanic a partir de Southampton em 10 de abril de 1912 - foto de Francis Godolphin Osbourne Stuart, disponível em wikipedia
Titanic a partir de Southampton em 10 de abril de 1912 - foto de Francis Godolphin Osbourne Stuart, disponível em wikipedia

Apesar de o seu tempo e espaço serem limitados, ao contrário da atual, há similitudes que importa recordar e que mostram que a humanidade é rápida a esquecer as lições dos seus fracassos.

Crença otimista no rápido progresso científico e técnico

O século XIX, em especial a sua segunda metade, foi marcado por um vertiginoso progresso científico e técnico, possibilitado pela Revolução Industrial, que, a partir da Inglaterra, se foi estendendo, progressivamente, a grande parte da Europa, à América do Norte e ao Japão.

Esse progresso coincidiu, igualmente, com o desenvolvimento crescente do capitalismo industrial, politicamente sustentado pelas revoluções liberais, que levaram à substituição da aristocracia pela burguesia como classe dominante. Mas as desigualdades sociais cresciam, com o aparecimento de uma classe operária vítima de uma exploração atroz, mal paga e a viver em condições desumanas na periferia das principais cidades.

Aquelas revoluções trouxeram consigo a perda da influência da religião, em especial da Igreja Católica. Assim, o positivismo, para quem a explicação científica é a única fonte de conhecimento, tornou-se a corrente filosófica dominante da época. Surgiu, então, a crença otimista de que o rápido e contínuo progresso científico e técnico seria o caminho para a felicidade, que poderia ser obtida em vida e não na morte, como postulam as várias religiões.

Se a substituição da teologia pela ciência foi essencial para um enorme conjunto de avanços civilizacionais, também ao nível político, económico, social e cultural, a crença absoluta no progresso científico como algo por natureza positivo trouxe consigo a arrogância e a soberba do ser humano face ao mundo natural, expressa na frase do geógrafo e historiador francês, Vidal de La Blache: “a civilização é o resultado da luta do Homem contra a Natureza”. O pesadelo ambiental começou aí e agravar-se-ia ao longo do século XX.

A Guerra da Secessão dos EUA (1861-1865) já mostrara que as novas armas, produto da industrialização, provocavam um número de mortes e feridos e deixavam um rasto de destruição muito superior ao das guerras passadas. Mas isso foi visto como sendo o resultado de uma situação de conflito bélico e poucos refletiram sobre isso.

Naufrágio do Titanic

Foi o naufrágio do Titanic, ocorrido em abril de 1912, que marcou, simbolicamente, o fim desse otimismo.

Todos conhecemos o essencial da história, imortalizada no oscarizado filme de James Cameron, de 1997, mas há alguns pormenores que importa lembrar.

Num tempo em que a aviação ainda dava os primeiros passos, a navegação marítima desempenhava um importante papel nas cada vez mais frequentes ligações intercontinentais.

A crescente procura levou uma das maiores companhias britânicas de navegação da época, a White Star Line, a construir três enormes navios de passageiros. Um deles foi o Titanic. Concebido com as mais avançadas técnicas da época, foi considerado o mais luxuoso de então. Muitos consideravam-no inafundável, crença que a companhia proprietária alimentou.

A distribuição dos passageiros refletia a estratificação social da época: a primeira, na parte superior do barco, para os mais ricos e influentes (aristocratas, oficiais, homens de negócios, políticos, a que se juntavam os respetivos criados), a segunda, na zona intermédia, para as classes médias (professores, clérigos, pequenos empresários, imigrantes ricos); a terceira, para os menos abonados, em especial imigrantes pobres de várias nacionalidades.

Durante a sua conceção, um dos projetistas abandonou o projeto, quando o proprietário da companhia, Joseph Ismay, não aceitou a sua proposta de colocar um maior número de barcos salva-vidas no convés superior. Para este último, aquele espaço serviria para os passageiros da 1ª classe passearem e contemplarem o oceano.

Na crença de que o navio era praticamente inafundável, a segurança foi preterida em favor do luxo e da comodidade. Assim, os compartimentos estanques do navio eram demasiado baixos, para dar mais espaço aos passageiros dos conveses superiores. Por outro lado, antes da sua trágica viagem inaugural, iniciada a 10 de abril de 2012, apenas houve um exercício mal-amanhado com os salva-vidas. Para agravar a situação, aos vigias não foram fornecidos binóculos e a função dos radiotelegrafistas era mais a de receber e enviar mensagens dos passageiros que a receção das comunicações de outras embarcações próximas.

Na verdade, durante a viagem, estas últimas alertaram, várias vezes, o Titanic para a presença de campos de gelo e icebergs na zona, mas a maioria não chegou ao comandante e a que chegou não foi suficientemente valorizada. Mais preocupado com a imagem de eficiência da companhia, Ismay pretendia chegar a Nova York a horas, praticamente obrigando a tripulação a manter o barco próximo da velocidade máxima, apesar da presença dos gelos e do nevoeiro noturno.

Após o choque com o iceberg, pouco antes da meia-noite de 14 de abril, o projetista que ficara e seguiu no navio, rapidamente concluiu que este estava condenado. Foi então que, em pânico, o comandante e sua equipa deram conta que não haveria barcos salva-vidas para todos e que a única esperança para os que nele não tivessem lugar era a chegada de um navio de resgaste antes de o naufrágio se consumar. Algo que não viria a acontecer!

Com a certeza de que o barco se afundaria, gerou-se, literalmente, um clima de “salve-se quem puder”. Atarantada, a tripulação dava ordens contraditórias. Os barcos salva-vidas foram lançados à água, mas alguns foram-no de forma tão desajeitada que acabaram por desaparecer nas águas, sem que alguém tenha podido entrar neles. Verificou-se, ainda, que não havia marinheiros suficientes para tripular os botes.

Mas o mais dramático foi ter de escolher quem tinha prioridade nos salva-vidas. O critério foi classista, privilegiando os passageiros das 1ª e 2ª classes e, dentro destes, as mulheres e as crianças. Os mais pobres, que viajavam na 3ª classe, foram preteridos. Revoltados e desesperados, tentaram ascender ao convés superior, mas foram barrados pela tripulação, que, em alguns pontos, chegou mesmo a fechar os acessos. Poucos conseguiram passar as barreiras e atingir a salvação.

Ao mesmo tempo, enquanto o navio se afundava, foi ordenado à orquestra, constituída por oito músicos contratados, que continuasse a tocar.

Menos de três horas depois, na madrugada de 15 de abril, o Titanic partiu-se em dois e naufragou. No final, das 2224 pessoas, entre passageiros e tripulantes, que aí se encontravam, 1514 (ou seja, 68%) pereceram no naufrágio. Mas, se observarmos as diferentes classes, verificamos que, da 1ª, apenas faleceram perto de 38%, contra mais de 58% na 2ª e quase 75% na 3ª. Já quanto aos tripulantes, cerca de 77% morreu no naufrágio, entre eles o comandante, Edward Smith. Já o dono da companhia, Joseph Ismay, fez questão de entrar num salva-vidas e sobreviveu.

Não notam semelhanças aterradoras com a tragédia de há 108 anos atrás?

Pensemos agora no que está a acontecer na crise da CoViD-19. Não notam semelhanças aterradoras com a tragédia de há 108 anos atrás?

A mesma soberba e a mesma arrogância estão presentes na atual tragédia. A ideia de que não era necessário investir na investigação dos vírus, que as doenças infetocontagiosas eram coisa do passado ou dos países pobres, o desinvestimento nos serviços de saúde (quer ao nível de recursos materiais, quer da contratação de profissionais) e a abertura à sua privatização em muitos países ou a convicção dos ocidentais que a doença ficaria circunscrita à Ásia, como sucedeu com a SARS-2, em 2002/3 foram fatais e facilitaram o desenvolvimento da pandemia e as suas terríveis consequências. Acresce, ainda, a forma como o governo chinês, preocupado com a imagem do regime, escondeu a epidemia num primeiro momento, acusando o médico que alertou para a sua expansão (e que viria a ser uma das primeiras vítimas da doença) de “espalhar boatos”. Quando procurou “emendar a mão”, já era tarde.

E agora vê-se que, em alguns dos países mais ricos do mundo, faltam meios nos vários sistemas públicos de saúde. Assim, muitos dos seus profissionais estão exaustos e alguns caem vítimas da doença, faltam máscaras, luvas e outros equipamentos de proteção e, pior que tudo, faltam os ventiladores que poderiam salvar muitas vidas, tal como faltavam os botes no Titanic. E, tal como aí faltavam marinheiros para os tripular, também faltam, na maioria dos sistemas de saúde, profissionais especializados para lidar com eles.

Este último aspeto é o mais dramático e o que mais me angustia: em Itália, primeiro, em Espanha depois, os médicos têm, frequentemente, de decidir quem tem direito ao ventilador e pode viver e quem não tem e está condenado a morrer. Noutros países ricos para lá se caminha. E, quando chegar aos mais pobres, o horror vai acentuar-se…

Mas, tal como então, há quem ponha o lucro à frente da segurança das pessoas. O patético papel que Trump, Bolsonaro e outros governantes têm desempenhado seria cómico se não fosse tão trágico. Para eles, é preciso que a orquestra continue a tocar!... Uma atitude que, no momento atual, é criminosa.

Por outro lado, a falta de solidariedade no seio da União Europeia é gritante, com os países mais ricos do Norte a negar aos países do Sul os mecanismos de que estes necessitarão para fazer face à crise económica e social decorrente da pandemia. Só faltava mesmo que, no fim desta, nos aconteça o que sucedeu à família dos músicos que pereceram no naufrágio. Ao abrirem uma carta da White Star Line, verificaram que, em lugar de condolências, vinha uma fatura, exigindo o dinheiro das fardas que aqueles utilizavam e eram pertença da companhia. E o problema é que andam por aí muitos Ismays!…

Artigo de Jorge Martins

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