Está aqui

Relembro que Alcindo Monteiro foi pontapeado, por ser negro

Nuno Cláudio Cerejeira, que esteve no programa da RTP “A nossa tarde”, foi condenado, como outros foram, nele não há sinais de arrependimento e tem seguidores. Artigo de Soraia Simões de Andrade
Dossier Caso Alcindo Monteiro, SOS Racismo - Foto de Soraia Simões de Andrade
Dossier Caso Alcindo Monteiro, SOS Racismo - Foto de Soraia Simões de Andrade

Imagine-se um cenário em que alguém chega a casa de outro alguém, mata-o, vai ao notário mudar de nome e, em função disso, deixa de fazer sentido a acusação ou a sentença. Ora, foi isto que o Tribunal Constitucional fez em Janeiro de 1994 no decorrer da leitura da sentença do caso referente ao assassinato de José Carvalho, duramente criticado na altura, entre outros, por Teixeira da Mota ou José Falcão, fundador do SOS Racismo, justificando-o com o facto de o MAN se ter entretanto dissolvido.

Ao MAN (1985 e 1992), que começou por se definir como Associação Cultural Acção Nacional, uma associação de direita radical, aderiu alguma da juventude oriunda da margem sul do rio Tejo em dissidência ou desagrado com a Democracia Cristã preconizada pelo CDS.

O líder do MAN terá entendido que os skin podiam representar a base de militância que o MAN nunca conseguiu congregar. Razão pela qual os materiais do MAN começaram a circular no meio skin. Meio esse bastante impermeável, na medida em que os skin, principalmente da margem sul, não queriam ser controlados por ninguém nem estavam muito interessados em política, apenas em “cultura suburbana” que, nesta altura, exprimiam na música e nos concertos que frequentavam, em copos e bebedeiras, em pichadas nas paredes e nos confrontos violentos de rua ou em recintos fechados, como aconteceria aquando da morte de José Carvalho.

Os grupos Hammerskin e Blood&Honour, um deles a que pertencia Nuno Cláudio Cerejeira, redes internacionais de extrema-direita, também se procuraram afirmar na década de noventa com primícias idênticas: onde o culto da violência, e especialmente da violência física motivada pela identidade, orientação, ou o factor étnico-racial, fizeram estragos inapeláveis de tão sórdidos.

A leveza do Tribunal Constitucional aquando da sentença de José Carvalho, não terá sido a única mas foi certamente uma das razões mais relevantes para que a profanação, a ausência de acatamento, as ofensas físicas e verbais fossem crescendo, e o sentimento de impunidade lhes desse a sensação, quiçá, de que eram imbatíveis.

A 10 de Junho de 1995, o país estremece com mais uma morte: a de Alcindo Monteiro.

Alcindo Bernardo Fortes Monteiro, morava no Barreiro, era primo de dois dos músicos que integravam o grupo Karapinhas (Tutin di Giralda e Djone Santos), que acompanhou o rapper General D em estúdio e em espectáculos.

Nasceu no Mindelo (São Vicente), Cabo Verde. Os pais, Francisca e Bernardo, compraram um apartamento no Barreiro no fim da década de setenta. O pai foi fogueiro num ferry-boat na Alemanha e mais tarde trabalhou no Hospital de Almada.

Quem conviveu com Alcindo conta que tinha uma paixão pela dança (participou inclusive em vários concursos, tendo ganho alguns) e que era um óptimo cozinheiro de cachupa e de sorriso fácil.

Em 1994, ano em que Lisboa é Capital da Cultura, é lançada a colectânea RAPública, a primeira de hip-hop em Portugal pela multinacional Sony Music.

O início da década de noventa é marcado pela emergência de novos meios de comunicação, como no audiovisual: o início das televisões privadas (SIC 1992,TVI 1993), com um forte impacto nas comunidades jovens. Um exemplo disso mesmo é o programa Chuva de Estrelas da SIC onde um dos rappers desta primeira colectânea participa (Funky D).

Um dos assuntos privilegiados das televisões privadas nesses primeiros passos é o da imigração. Títulos como: ''criminalidade aumenta nas periferias de Lisboa'', ''gangs violentos atacam na margem sul'', são recorrentes durante este período. Estas televisões encontraram nos ''gangs'', na ''africanidade'', na ''desterritorialização'' uma agenda mediática para angariarem audiências (um exemplo disto é a estreia do programa Casos de Polícia em 1994 na SIC e as temáticas âncora do seu alinhamento). Ao mesmo tempo que isto acontecia programas como Chuva de Estrelas ou, entre outros, o jornal Blitz davam palco a vozes e rostos disruptivos, a uma narrativa que saía dos bairros. O tempo de antena fornecido alternava entre a condescendência e o verdadeiro interesse por essas formas musicais e culturais.

Foram várias as cassetes de vídeo cedidas durante a minha investigação1 acerca dos primeiros anos do RAP em Portugal, pré-gravação, e da sua relação com as indústrias culturais, pós gravação, nelas vê-se/ouve-se, em freestyle, alguns daqueles que mais tarde fizeram parte do primeiro grupo de rappers a editar, uma narrativa sustentada pelo desconforto provindo dos seus receios de confrontação com estes grupos, os quais, embora minoritários, exerciam pressão ou desacatos pontuais, em datas concretas (como o 10 de Junho), entre a margem sul e Lisboa (nomeadamente o Cais do Sodré e o Bairro Alto) onde estes primeiros rappers se concentravam, em espaços de socialização e distração da noite lisboeta.

 

A família Cerejeira fixou-se no Barreiro depois de estar em Moçambique. Aos dezassete anos Cláudio Cerejeira abandonou o ensino, no nono ano, trabalhava como escriturário para o Aeroporto de Lisboa, era um dos integrantes do grupo skin mais extremista da margem sul. Uma das tatuagens, feita no extinto Centro Comercial Portugália, na Almirante Reis, exibe um guerreiro viking sentado num trono, em alusão ao ''poder celta'': símbolo de um ''poder branco''.

Naquela madrugada, Alcindo saiu para o Bairro Alto, ia dançar como era habitual, numa noite que estava longe de imaginar se revelar fatídica. O episódio é conhecido. Foi isolado por um grupo de skins onde se encontrava Cláudio Cerejeira. Esse mesmo, Nuno Cláudio Cerejeira, entrevistado num programa familiar da RTP no dia 24 de Outubro em virtude da sua recente condição de pai de três recém nascidos.

A produção/coordenação do programa, intitulado A Nossa Tarde, deixou um comunicado na sua página de facebook horas depois dos comentários de inúmeras pessoas indignadas com a presença de alguém com um histórico conhecido e público de ameaças, agressões à integridade física, envolvido em crimes desencadeados por uma onda de violência racista, xenófoba, homofóbica que tem caracterizado a deslocação destes agrupamentos ideológicos. Neste comunicado lê-se: “no dia 24 de outubro o casal [Cláudia e Cláudio] veio ao nosso programa, acompanhado da diretora da Casa Ronald Macdonald Ana Patacho, falar EXCLUSIVAMENTE da experiência da paternidade a triplicar. A coordenação do programa A Nossa Tarde não teve nenhum conhecimento sobre os antecedentes criminais do pai, nem tão pouco das suas convicções políticas”.

Recordo que no início do ano a TVI convidou para um programa matinal um dos líderes de alguns destes movimentos, que em início dos anos dois mil (2004-5) formava o PHS, Mário Machado, esse mesmo, também acusado da morte de Alcindo, e que depois de cumprida pena, tem tentado desenvolver/cimentar outros movimentos, como a NOS/Nova Ordem Social (soube-se ontem através das notícias se tratar de mais uma tentativa de projecto político falhado pela “inexistência de líderes’’), do qual foi aliás falar a esse programa que é visto por uma grande franja de população reformada, desempregada, trabalhadores da restauração.

Conseguirão imaginar a cara dos familiares, dos pais e irmãos, primos e amigos de Alcindo Monteiro quando se deparam com o cenário do pai fraterno e dedicado que roubou a vida, motivado pelo mais vil dos sentimentos, a alguém tão próximo?

 

Relembro que Alcindo foi pontapeado, por ser negro. Por Nuno Cláudio e pelos restantes, na cabeça, no estômago, nos genitais, um quadro de terror. Cláudio Cerejeira foi condenado, como outros foram, nele não há sinais de arrependimento e tem seguidores. A prová-lo estiveram os comentários e intimidações que um grupo de seus seguidores tem feito nas minhas, e de outros, redes sociais, após a exposição nas nossas páginas deste dislate televisivo.

Uma televisão com a qual colaboro tantas vezes, à qual o estado atribuiu o papel de órgão de comunicação social de serviço público através de um contrato de concessão, deverá continuar a ter outras prioridades, a preservar o seu carácter distintivo na programação e nas escolhas, e não a meta de uma maior audiência.

Conseguirão imaginar a cara dos familiares, dos pais e irmãos, primos e amigos de Alcindo Monteiro quando se deparam com o cenário do pai fraterno e dedicado que roubou a vida, motivado pelo mais vil dos sentimentos, a alguém tão próximo?

Artigo de Soraia Simões de Andrade


Nota:

1 Soraia Simões de Andrade: Fixar o (in) visível. Os primeiros passos do RAP em Portugal (1986 - 1998), Editora Caleidoscópio, Vale de Cambra, 2019.

Sobre o/a autor(a)

Termos relacionados Esquerda com Memória, Cultura
(...)