Livro e homenagens assinalam 30 anos do assassinato de José Carvalho

28 de outubro 2019 - 14:47

A 28 de outubro de 1989, um grupo de skinheads assassinou José Carvalho à frente da sede do PSR. 30 anos depois é tempo de celebrar a sua vida: o coletivo Toupeira Vermelha pintou um mural e as Edições Combate lançam um livro sobre a extrema-direita na sessão de homenagem marcada para o próximo dia 9 no São Luís, em Lisboa.

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Antimilitarista, anti-racista, anti-fascista e militante revolucionário, José Carvalho era conhecido como Zé da Messa por ter sido operário durante 18 anos nesta fábrica da linha de Sintra. Começou a trabalhar nela apenas com 14 anos. Só saíu quando esta fechou. Os trabalhadores resistiram durante meses ao encerramento procurando salvaguardar o seu posto de trabalho. José Carvalho, membro comissão de trabalhadores, foi incansável nessa luta, lembram os seus colegas da altura.

José da Conceição Carvalho nasceu em 1953 na Beira Alta mas é na Venda Nova, na Amadora, que passa grande parte da sua vida. Filho de vendedores de frutas e legumes, adere ao Partido Socialista Revolucionário.

Trabalhadores da Messa contra encerramento da empresa.

Fonte: https://algueirao-memmartins.blogspot.com

Enquanto fez serviço militar torna-se um dos ativistas dos Soldados Unidos Vencerão, movimento de base que abala a hierarquia militar no pós-revolução de abril. Mais tarde agarra em mãos o trabalho anti-militarista no Tropa Não que questionava o serviço militar obrigatório.

O PSR lançara uma campanha anti-militarista de longo fôlego e abrira as portas da sua sede aos fins de semana a concertos que José Carvalho organizava. Muitas bandas, conhecidas e desconhecidas, tocaram nessa época no bar das Palmeiras, ponto de encontro de militâncias, de refúgio contra os preconceitos e de convívio de uma juventude inconformada. Xutos e Pontapés, Rádio Macau, Peste e Sida, Sitiados, Censurados e muitos outros marcaram presença nestes concertos artesanais.

O dia 28 de outubro de 1989 podia e devia ter sido apenas mais um destes dias de festa. Lá dentro, Censurados, NAM, o Núcleo de Atrasados Mentais, entre outras bandas tocavam. Lá fora, um grupo de 15 skinheads procura forçar a entrada. Pedro João Oliveira do Carmo Andrade Grilo, um neo-nazi que tinha 18 anos, esfaqueia José Carvalho. À 1.55 da madrugada, aos 36 anos, morre.

O skinhead vai ser defendido em tribunal pelo famoso advogado José António Barreiros. Em março de 1991 vai ser condenado por homicídio voluntário qualificado a 12 anos de prisão. Por co-autoria do crime Américo Silva é condenado a sete anos, Melchior Santos a seis e Gabriel Ferreira a cinco, Miguel e Filipe Temporão são condenados a penas suspensas entre 15 a 18 meses.

Em agosto desse ano, Grilo foge da prisão. Quatro anos depois entrega-se. Em 2001 é libertado.

O assassinato desperta brutalmente o país para a atividade dos movimentos de extrema-direita que já tinham sido responsáveis por vários crimes. Voltariam a matar: Alcindo Monteiro vai ser assassinado em 1995.

Em 1990, inspirado pela memória de José Carvalho e pelos seus combates, surge o SOS Racismo e o movimento anti-racista avança. A consciência anti-fascista também.

Um mural na Amadora para “continuar a lutar contra o fascismo e o racismo”

Passados trinta anos, há várias celebrações da vida e das lutas de José Carvalho. No passado sábado, no Parque Central da Amadora, cinco dezenas de ativistas convocados pelo coletivo Toupeira Vermelha juntaram-se para pintar um mural.

Trouxeram pancartas onde estavam inscritas frases como “não passarão”, “vida a vida”, “abaixo o fascismo, viva a vida”, “nem fascismo, nem racismo”, “até outro dia, parceiro” e “bute” e deixaram desenhada na parede a cara de José Carvalho junto com a mensagem “30 anos e continuamos a lutar contra o fascismo e o racismo”.

Evocar José Carvalho, debater o perigo da extrema-direita hoje

No sábado, dia 9 de novembro, às 16 horas, no Teatro São Luís, uma outra homenagem irá acontecer. Organizada pelas Edições Combate, a sessão está convocada como uma “evocação e debate sobre o que é o perigo da extrema-direita hoje”.

Vão intervir Cecília Honório, José Falcão, Filomena Marona Beja, Heitor de Sousa e Fernando Rosas e irão estar presentes elementos dos Censurados, que atuavam na noite do assassinato de José Carvalho, e de outras bandas que passaram pelos concertos antimilitaristas do Bar das Palmeiras.

A sessão serve também para as edições Combate lançarem o livro Combates contra a extrema-direita, Homenagem a José Carvalho nos 30 anos do seu assassinato.

Coordenado por Andrea Peniche, Cecília Honório, Francisco Louçã, Fernando Rosas, José Falcão e Luís Leiria, o livro conta com um prefácio de Francisco Louçã e com os artigos de Enzo Traverso, Os novos «sonâmbulos» frente ao pós‐fascismo; de Michael Löwy, A extrema‐direita: um fenómeno global; de Fernando Rosas, O autoritarismo pós‐liberal; de Cecília Honório, Direitas e populismo: UE e Portugal; de Jorge Martins, Porque cresce a extrema-direita?; de Paulo Pena, A grande máquina da desinformação; de Andrea Peniche, Nem um passo atrás! A “ideologia de género” como ofensiva contra os direitos; de Luís Leiria, Jair Bolsonaro: a extrema-direita toma o governo do Brasil; de Giuseppe Cugnata, Procura e oferta da extrema-direita em Itália: o caso da Liga; de Miguel Urbán, Vox no contexto europeu; e a republicação de dois artigos escritos em 1996: de José Falcão, Violência no desporto: claques e extrema-direita; e de Pedro Marta Santos sobre A extrema-direita em Portugal (dos anos 1970 a meados dos anos 1990). O livro inclui ainda um anexo com dados sobre a extrema-direita e a direita radical nos países da União Europeia, elaborado por Jorge Martins.