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Reino Unido: vitória da direita eurocética agudiza as tensões em torno do Brexit

Brexit Party ficou à frente nas eleições europeias no Reino Unido. Apesar de forte subida dos partidos pro-UE, e do colapso dos conservadores, os partidos pro-Brexit somam mais votos que os pro-UE. Resta como fiel da balança o Labour, penalizado pela sua tentativa conciliar os dois lados.
Foto de Tiocfaidh ár lá 1916/Flickr.
Foto de Tiocfaidh ár lá 1916/Flickr.

Com apenas os lugares na Irlanda do Norte por atribuir, o grande vencedor da eleições europeias no Reino Unido foi o Brexit Party. Lançado há menos de 6 meses por Nigel Farage, que já ficara à frente com o UKIP nas eleições europeias de 2014, o BP fez campanha com uma mensagem populista de direita de levar o Brexit por diante a todo o custo, tentando tornar a campanha num segundo referendo à UE. Conseguiu 31,6% dos votos e 29 deputados eleitos

Em segundo lugar, uma surpresa: os liberais-democratas, conhecidos como LibDems, o partido mais abertamente pro-UE, mais que triplicou o seu voto de 6% para 20%, e passou de 1 para 16 deputados. Relegou para terceiro lugar o Labour de Jeremy Corbyn, que teve uma queda acentuada face às eleições anteriores: de 24% para 14%, de 20 deputados para 10. Em quarto lugar, os Verdes, que à imagem dos LibDems beneficiaram da mesma transferência de voto pro-UE, aqui mais pela esquerda, quase duplicaram o voto para obter o seu melhor resultado de sempre: de 7% para 12%, de 3 para 7 deputados.

Os conservadores surgem apenas em quinto lugar: passaram de 23% para 9%, de 19 para 4 deputados. Uma hecatombe para o grande partido histórico da direita britânica, abandonado em massa pelo seu eleitorado devido à incapacidade de executar o Brexit. Em sexto lugar, último partido a eleger deputados, ficaram os nacionalistas do SNP, resolutamente pro-UE e também pro-independência da Escócia. Concorrendo apenas ali, reforçaram o seu voto de 2,4 para 3,6% do total nacional, e de 2 para 5 deputados.

Com o prazo para o Brexit fixado para outubro, é provável que os 73 eurodeputados britânicos — o terceiro maior grupo no parlamento, a seguir a franceses (74) e alemães (96 deputados) — venham a ocupar os seus lugares apenas por alguns meses, até que o país saia por fim da UE. Isto a menos que um segundo referendo reverta a saída. Os resultados não são diretamente extrapoláveis para umas eleições legislativas, onde devido ao sistema eleitoral de círculos uninominais os eleitores tenderão a voltar aos dois grandes partidos — embora o Brexit Party, com um resultado tão forte, comece a preocupar os conservadores. Nesse sentido, os resultados têm menos importância em si do que pelos sinais que dão sobre o que sucederia num eventual segundo referendo, a grande aposta das forças pro-UE.

Ora os resultados eleitorais dão sinais preocupantes para as forças pro-UE no cenário de um segundo referendo. Após três anos de enorme tensão e desgaste político, o voto Brexit continua forte. Os conservadores colapsaram, mas o Brexit Party, numa linha de Brexit ainda mais dura, tomou o seu testemunho e a dianteira. Os partidos pro-Brexit juntos (BP, Conservadores, UKIP) totalizam 44% dos votos, enquanto os partidos abertamente pro-Remain (LibDems, Verdes, SNP, ChUK, Plaid) se ficam por 40,4%. Resta como fiel da balança o Labour, com os seus 14%.

A interpretação do voto Labour para um lado ou para o outro vai ser muito disputada e decisiva nos próximos tempos. Certo é que o partido de Corbyn foi a votos com a sua linha de sempre: respeitar o referendo de 2016, executar um Brexit que defenda os direitos dos trabalhadores e o ambiente. A tentativa de conciliar leavers e remainers saiu-lhe cara, com o voto remain convicto a fugir em grande escala para LibDems e os Verdes. O voto que restou será provavelmente o que se revê na posição de Corbyn — ou seja, respeita a decisão do referendo anterior, não se pode somar ao bloco pro-Remain. Mas perante o desaire eleitoral, os setores pro-Remain trabalhistas, que vão de parte da esquerda que apoia Corbyn à ala centrista que o combate impiedosamente, tentarão novamente alinhar o partido pelo segundo referendo e o apoio ao Remain.

É possível que Corbyn enfrente em breve uma nova disputa interna à sua liderança, sobretudo se não ceder ao apelo do Remain. Mas os sinais de ontem em nada garantem que um Labour alinhado com o Remain tenha mais hipóteses de sucesso eleitoral que a linha de Corbyn. A distribuição regional do voto reforça esta impressão: tirando a Escócia (sob controlo do SNP) e a região de Londres, praticamente todo o país pôs o Brexit Party à frente, incluindo as regiões de forte tradição industrial, e bastiões do voto trabalhista, em Gales, Midlands e a norte — nessas zonas o Labor teve ainda assim melhores resultados.

Na conjuntura política mais polarizada em muitas décadas no Reino Unido, muito há a ganhar, muito há a perder, e tudo continua em aberto. Pelo menos até outubro, o Brexit continuará a monopolizar os acontecimentos.

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