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Reino Unido: eleições locais sob a sombra do Brexit

Eleições locais no Reino Unido dão grandes perdas aos conservadores e perdas ligeiras aos trabalhistas. Maiores beneficiados são os liberais-democratas. Resultados estão a ser lidos como um voto pró-UE, mas balanço de forças em torno de Brexit mantém-se muito disputado.
Fila para votar, Reino Unido, 2010. Foto de Ruth_W/Flickr.
Fila para votar, Reino Unido, 2010. Foto de Ruth_W/Flickr.

Com a sombra do Brexit no horizonte, o Reino Unido foi às urnas eleger os seus representantes autárquicos. As eleições são parciais, deixando de fora vários postos e territórios como a Escócia e Gales, mas no contexto atual dificilmente deixariam de ser lidas como um termómetro político na questão do Brexit. Nesse sentido os resultados constituem um resultado animador para as forças pro-União Europeia.

O poder local no Reino Unido distribui-se por councils. O equivalente português mais próximo é a freguesia, mas os councils têm mais poderes, assumindo tarefas que em Portugal caberiam às câmaras municipais. Muitas cidades britânicas funcionam ainda hoje como um mero ajuntamento de councils, sem nenhuma autoridade superior. Reformas mais recentes introduziram autoridades metropolitanas e mayors acima dos councils nalgumas cidades, nomeadamente nas maiores, como Londres, Manchester ou Liverpool — estes lugares na sua maior parte não foram a votos.

Ao todo, foram a votos 248 councils na Inglaterra e Irlanda do Norte — Gales e Escócia tem um calendário local próprio. Cada council tem dezenas de councillors a distribuir pelos diversos partidos, num total superior a 8700 lugares.

A meio da tarde de sexta-feira, com cerca de 80% dos councils contados, o grande derrotado é o Partido Conservador. Os conservadores, que dispõem de grande implantação local, perdem em termos líquidos mais de 900 councillors, descendo para 2700. Mas os trabalhistas de Jeremy Corbyn também estavam em perda, embora menos pronunciada: menos 102 representantes, descendo para perto de 1660. Os grandes vencedores são os liberais-democratas (mais 512, total de 1069) e os Verdes (mais 124, total 171). Em termos de percentagem de votos, conservadores e trabalhistas têm 28%, os liberais-democratas 19%, outros partidos somam 25%.

Tendo em conta que os liberais-democratas e os Verdes são os partidos mais resolutamente pro-europeístas, os resultados estão a ser vistos como uma vitória para as forças a favor do Remain e de um segundo referendo. No entanto, além das eleições locais não serem diretamente extrapoláveis para as nacionais, outros fatores complicam o quadro. Os liberais duplicam o seu resultado mas continuam bastante atrás dos dois principais partidos. Por outro lado, com o adiamento do Brexit a obrigar à realização de eleições europeias, as sondagens para estas estão a colocar à frente o Brexit Party, novo veículo político de Nigel Farage, dando um sinal de que o voto Brexit se mantém forte e pode ganhar um segundo referendo, que seria sempre muito disputado e dificilmente superaria as profundas tensões que lhe subjazem.

Com a ambiguidade destes sinais, as reações políticas estão na maioria a reiterar a linha que já traziam de trás. No partido trabalhista, os setores apostados no remain veem nas eleições a confirmação de que o partido perde votos com a sua ambiguidade. Do lado da direção trabalhista, potencialmente com mais implicações, tanto Jeremy Corbyn como o seu número dois John McDonnell declararam que o sinal das eleições é que o Brexit precisa de uma solução o mais rápido possível. Estas declarações foram interpretadas em alguns quadrantes como sinal de que os trabalhistas se preparam para aprovar um acordo de Brexit com Theresa May — embora McDonnell tenha esclarecido que essa não era a única solução.

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