França

PS e extrema-direita salvam governo de moção de censura

17 de janeiro 2025 - 14:19

A França Insubmissa diz que assim o PS rompeu com a Nova Frente Popular. Este defende-se com as “concessões” por escrito que negociou com o centro-direita.

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Olivier Faure
Olivier Faure. Foto de Yoan Valat/EPA/Lusa.

A moção de censura ao governo francês apresentada pela esquerda não foi viabilizada esta quinta-feira devido aos votos do Partido Socialista e da extrema-direita. E se a abstenção da extrema-direita era já esperada, e suficiente para manter o governo de direita em funções, o sentido de voto do PS era menos evidente depois de semanas de negociações com o executivo terem falhado sobre a questão mais importante em discussão, a reforma das pensões, e de, no discurso da véspera, o primeiro-ministro François Bayrou ter ignorado por completo as outras “concessões” negociais feitas.

O PS mostrou-se surpreendido pelo teor desta intervenção, teve de mudar subitamente de guião e choveram críticas internas. Mas o resultado final acabou por ser também uma abstenção.

Em sentido contrário, os deputados do Partido Comunista e dos Ecologistas, que também tinham estado em negociações com o governo de direita para chegar a um “acordo de não censura”, acabaram por anunciar que se juntariam à França Insubmissa que protagonizou o processo do voto de censura.

A posição do PS agrava assim a divergência que já se fazia sentir no seio da Nova Frente Popular, a coligação que juntou esquerda e ecologistas nas últimas eleições legislativas. A França Insubmissa tinha optado por uma estratégia política de oposição ao governo que redundaria na moção de censura, os seus parceiros de coligação preferiram arrastar semanas de conversações com o Governo.

Jean-Luc Mélenchon, dirigente da LFI, fala em “servilismo” do PS e não poupa nas palavras que publica na rede social X: “o PS rompeu com a Nova Frente Popular. Mas capitula sozinho. Os outros três grupos votámos a favor da censura. Continuam a luta”.

Tal posição não é partilhada pelos Verdes, cuja secretária-geral, Marine Tondelier, afirma que “isso não ajuda a que as pessoas possam decidir com calma, para além disso sempre com um vocabulário virulento ou humilhante”.

Olivier Faure, secretário-geral do PS, por seu turno, gabou-se de “uma esquerda que propõe, que avança, que faz ceder o governo”. Mas não conseguiu sequer convencer todos os seus deputados a votar da mesma forma, com oito socialistas a juntarem-se à moção de censura.

Apesar da revolta nas suas fileiras, o líder socialista foi ao ponto de agradecer a Bayrou ter “aberto a possibilidade de uma alternativa” ao permitir que a reforma das pensões volte à mesa das negociações. Depois de ter apresentado esta questão como uma linha vermelha para não censurar o executivo, a maioria da direção do PS deu o dito por não dito, preferindo também não referir o resto do discurso de Bayrou que disse na quarta-feira que, a não haver acordo, a lei será mesmo implementada. A central sindical CGT interpretou a afirmação como querendo dizer que sem a anuência das confederações patronais as conversações continuariam bloqueadas e contestou fortemente.

E a aparente convicção expressa na tribunal parlamentar cai por terra quando se consultam outras fontes. O Mediapart falou com um quadro do grupo parlamentar que disse sobre o processo de decisão: “ninguém estava de acordo no partido. Não era nem uma questão de correntes, nem de gerações, nem de circunscrições eleitorais. Estávamos até divididos no interior de nós mesmos”.

Numa reunião da própria corrente interna de Faure no PS, na véspera da votação, relatada pelo Libération, percebe-se que entre os cerca de 500 membros presentes online estava longe de haver serenidade ou consenso. Aquele jornal fala de uma reunião “agitada” em que “muito maioritariamente” as intervenções iam no sentido favorável à moção de censura.

Para salvar a face, o líder socialista agarrou-se ao mínimo possível: pediu uma “prova escrita” das ditas concessões negociais. Esta veio sob a forma de uma carta do primeiro-ministro que foi divulgada pelo PS aos jornais. Nela se explicita as questões negociadas com o PS, como o abandono da extinção de 4.000 postos docentes, uma proposta que era do governo anterior e um ligeiro aumento do imposto sobre transações financeiras, a par do compromisso governamental de que a lei das reformas seria novamente votada no parlamento.

O Governo pegou na não censura e deu um passo mais em frente esta sexta-feira. Agora Eric Lombard, ministro da Economia, diz que aquilo a que se chegou foi não só um acordo sobre esta votação específica mas que também implica um “acordo” com o PS para que este “não censure” o orçamento, dando assim por certa, aos microfones da BFM-TV, a sua aprovação. Ao mesmo tempo, o executivo começa a receber os parceiros sociais para reiniciar as conversas sobre a reforma das pensões.