A provedora do exército israelita demitiu-se na sexta-feira após circularem rumores de que seria ela a autora do vazamento para a imprensa do vídeo onde se viam soldados da base militar de Sde Teiman a torturarem um preso palestiniano. O caso ocorrido em julho do ano passado levou à detenção de onze soldados suspeitos de torturas e violação de um palestiniano de Gaza. Mas na sequência da abertura da investigação vieram os ataques da extrema-direita no interior do Governo e por entre os comentadores televisivos contra a provedora, acusando Yifat Tomer-Yerushalm de prejudicar a imagem de Israel. Surgiram manifestações em frente à base militar para apoiar os soldados implicados, tratados como heróis, e pedir a demissão da provedora. E terá sido em resposta a esses ataques à investigação que a provedora terá decidido enviar as imagens à imprensa. Na semana passada, por entre pedidos de demissão e ameaças de morte, a provedora acabou por se demitir. Os ataques só pararam quando foi dada como desaparecida no domingo por algumas horas, acabando depois detida pela polícia israelita.
“O incidente em Sde Teiman causou danos imensos à imagem do Estado de Israel e das IDF [Forças de Defesa de Israel]”, afirmou o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, num comunicado divulgado no domingo. “Este é talvez o ataque mais grave de relações públicas que o Estado de Israel sofreu desde a sua fundação”, lamentou o governante, resumindo a tortura prisional a um problema de imagem.
O impacto na imagem terá sido mesmo o único, a julgar pela impunidade total em atos semelhantes. Segundo o Guardian, os cinco soldados que acabaram acusados nunca foram identificados e estão hoje em liberdade. Quanto à provedora que agora se demitiu, diz o Haaretz, nunca mais abriu nenhuma investigação nem naquele centro de tortura nem em nenhum outro, receando pressões. Nos últimos dois anos de guerra em Gaza, houve apenas uma condenação de um soldado israelita por abusos nas prisões. E também nenhum soldado foi sequer acusado da morte de civis em Gaza, nem mesmo em casos que chocaram o mundo como o ataque a paramédicos em ambulâncias ou o bombardeamento aos carros dos voluntários da World Central Kitchen.
Na verdade, o cargo de provedora do exército não foi criado com o objetivo principal de investigar abusos, mas sim de proteger o estado israelita de ser alvo dos organismos da justiça internacional, escudando-se na existência de um organismo judicial supostamente independente do governo e dos militares para investigar casos de abusos. Ou seja, o cargo acaba por servir mais para proteger os soldados israelitas de acusações no estrangeiro, aponta ao Guardian o chefe do Instituto para o Estudo das Relações Civis-Militares da Universidade Aberta de Israel.
“Por outras palavras, não se faz cumprir a lei enquanto um valor em si, mas enquanto uma defesa contra os tribunais internacionais”, diz Yagil Levy, acrescentando que mesmo essa realidade está hoje sob ataque dos setores mais extremistas da direita israelita. Terá sido por isso que durante a guerra “a provedora deu ao exército mãos livres em Gaza, o que se nota nos danos colaterais sem precedentes dos ataques aéreos”, diz o académico, apontando mais um exemplo de como a direita israelita entende que o país está isento de respeitar a lei internacional, “trazendo até justificações religiosas para apoiar este ponto de vista”.