Com o início do novo ano iraniano e após meses de protestos contra o 'hijab forçado', em que as mulheres são obrigadas a usar um lenço na cabeça em público, o regime islâmico decidiu implementar nova legislação e práticas sobre esta controversa questão.
Nos últimos meses, um grande número de mulheres começou a contestar as tentativas de assegurar que elas usassem o hijab "corretamente". Isto significa uma cobertura total do cabelo, incluindo franjas, bem como a testa e o queixo. Na maioria das cidades iranianas encontrará algumas mulheres que agora deixam completamente de usar o lenço na cabeça, pelo que a nova repressão, no mês do Ramadão, reflete a tentativa do regime de reconquistar a autoridade.
A 9 de abril, a televisão estatal iraniana divulgou um vídeo mostrando os agentes de segurança que controlavam a entrada de várias estações de metro de Teerão, impedindo a entrada daqueles que não estavam a usar o hijab. Além disso, Ahmadreza Radan, comandante da força policial, avisou os cidadãos que a partir de 15 de Abril as pessoas que não cumprirem os regulamentos de cobertura da cabeça serão identificadas e sujeitas ao sistema judicial. Ele acrescentou: "A polícia utilizará sistemas inteligentes para evitar qualquer tensão e conflito com os concidadãos no estabelecimento da lei do hijab".
Mohammad Hossein Hamidi, comandante da polícia de trânsito da Grande Teerão, também avisou os habitantes da capital que as instituições governamentais irão utilizar "câmaras de vigilância em toda a cidade" para investigar as violações do hijab obrigatório.
No entanto, apesar da confirmação da polícia de que as mulheres que não usarem o hijab serão processadas, muitos deputados duvidam que qualquer uma destas novas restrições funcione. No Majles (parlamento) Morteza Hosseini disse que tal rumo não é "nem prático nem sensato". Ele acrescentou: "Qualquer iniciativa neste domínio deve basear-se na lei aprovada pelo Majles islâmico". Em vez de tomar a referida iniciativa, apelou ao chefe da polícia para "gastar a sua força e energia na luta contra homens que violam a lei - extorsionistas e traficantes de droga - bem como na questão da segurança rodoviária".
Além disso, até agora as ameaças não tiveram grande efeito sobre os opositores do hijab obrigatório, e as mulheres ainda podem ser vistas a andar nas ruas sem qualquer cobertura de cabeça - pelo menos nas cidades maiores, especialmente Teerão. Na semana passada, duas atrizes relativamente famosas assistiram ao funeral público de um realizador e não usaram um lenço de cabeça.
Nos últimos seis meses, nos protestos a nível nacional que começaram depois de Mahsa Amini ter sido morta sob custódia da Gasht-e Ershad (polícia da moralidade) em setembro de 2022, algumas mulheres queimaram publicamente os seus lenços em protesto contra o hijab obrigatório, e muitas outras simplesmente recusaram-se a usar o lenço de cabeça - muitas vezes conquistando o apoio público pela sua coragem.
Nos campi universitários, o governo avisou estudantes e funcionários sobre a necessidade de seguir as regras do hijab: os ministérios da Educação e da Ciência declararam ambos, no primeiro dia da reabertura das escolas e universidades após as férias de Nowruz (ano novo iraniano), que acabam de terminar, que os estudantes que não observarem as regras do hijab serão privados de educação. No entanto, na maioria dos campi há ainda um número considerável de estudantes que se recusam a cobrir os seus cabelos e que fazem ações de protesto.
Envenenamentos
Esta semana as notícias foram dominadas pela continuação do que se tornou o "envenenamento em cadeia" das estudantes em todo o Irão. De acordo com vídeos e outras imagens nos meios de comunicação social, foram envenenadas estudantes nas cidades de Shahriar, Bandar Ganaveh, Ashnoye, Amol, Shahin Shahr e Tabriz.
Um vídeo enviado a partir de Shahriar, perto de Teerão, mostra pessoas a queixarem-se de que, enquanto a polícia chegava ao local após um incidente de envenenamento, não havia sinais de quaisquer ambulâncias. Outro vídeo enviado de Shahin Shahr, na província de Isfahan, mostra os pais desesperados a correr pela escola tentando encontrar uma forma de ajudar as suas filhas, que também foram vítimas de envenenamento.
A 11 de Abril houve relatos da Universidade de Teerão de que estudantes e funcionários se queixavam de "inalar um cheiro semelhante à tinta causada pela pintura das linhas na rua". Isto resultou em "sintomas de dificuldade respiratória, incluindo ardor na garganta, nas estudantes do dormitório".
Tudo isto continua apesar da condenação do líder supremo desta onda de envenenamentos e das suas "instruções" para encontrar e punir os culpados. Mas a questão permanece: quem são as forças por detrás de tudo isto? Claramente, com a República Islâmica a enfrentar a crise mais grave dos seus 44 anos, há fações dentro do próprio regime que estão à direita até dos elementos mais conservadores atualmente no poder - fações que presumivelmente se opõem às políticas dos sucessivos governos que permitem o ensino secundário para raparigas, para não falar do ensino universitário. E isto num país onde o número de mulheres candidatas a universidades é, segundo os números oficiais, superior ao dos homens, e onde a percentagem de mulheres nos departamentos científicos e de engenharia é muito mais elevada do que nas universidades europeias e norte-americanas.
Divergências
Entretanto, no que diz respeito à oposição, para além da confusão prevalecente entre a esquerda exilada, há boas notícias: existem claramente grandes divergências entre os apoiantes de Reza Pahlavi, o filho do antigo xá. A última disputa é sobre acrescentar novos nomes (de personalidades bem conhecidas) à carta de solidariedade dos opositores do governo iraniano, promovida por Pahlavi.
Há duas semanas surgiu uma controvérsia após os monárquicos terem criado uma série de projetos de crowd-funding. Inicialmente, afirmaram que alguns dos fundos angariados seriam utilizados para ajudar o povo iraniano a enfrentar dificuldades financeiras (uma ironia, pois essa dificuldade é parcialmente causada pelas sanções exigidas pela mesma oposição da "mudança de regime de cima para baixo"). No entanto, logo negaram ter enviado quaisquer fundos para o Irão. O dinheiro angariado será utilizado para financiar publicidade, viagens, presenças nos meios de comunicação social, etc., diz-se agora.
Uma página de crowd-funding que vi (embora deva salientar que isto pode ter sido uma falsificação) era para angariar dinheiro para comprar uma tiara para a esposa de Reza Pahlavi! Claro que é bem sabido que o filho do ex-xá conseguiu esbanjar a maior parte da fortuna roubada pela sua família enquanto fugiam após a revolução de 1979. Mas Pahlavi culpa um "amigo íntimo" não identificado por o ter enganado para que transferisse dinheiro para uma conta duvidosa.
Qualquer que seja a realidade, os esforços em curso de angariação de fundos estão a causar divisões entre os seus aliados mais próximos - é evidente que eles querem uma "parte justa" de tudo o que for angariado nos EUA e noutros sítios.
Yassamine Mather é uma socialista iraniana exilada na Escócia, investigadora de Informática Avançada na Universidade de Oxford e editora da revista académica "Critique" da Universidade de Glasgow. Preside à campanha "Hands Off the People of Iran" pelo levantamento das sanções e contra as ameaças de guerra, em solidariedade com os movimentos democráticos em luta contra o regime teocrático do seu país. Artigo publicado em Weekly Worker, traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.