Lutas

Procissão do “Santo António Despejado” denuncia turistificação de Lisboa e alerta para as suas consequências

15 de junho 2025 - 19:55

Marcha organizada por movimentos pelo direito à habitação denuncia turistificação numa rede articulada de ações no sul da Europa. "Lisboa contra a turistificação" leva pessoas à rua para exigir uma cidade mais justa e acessível.

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Procissão Santo António Despejado
Fotografia de Manuel Martin.

Um pouco antes das 19h deste domingo, os participantes na Procissão do Santo António Despejado saem da Igreja de Santo António, em Lisboa, em direção ao Quartel da Graça. A ação de protesto convocada pelo Movimento Referendo pela Habitação e pela assembleia Parar o Hotel no Quartel resgata a imagem de Santo António para, no mês de junho, alertar para as consequèncias da turistificação da capital portuguesa.

A representação deste santo “serve de espelho aos residentes que, no quotidiano, assistem ao desaparecimento progressivo dos lugares que davam alma à cidade”, diz ao Esquerda.net Mariana Menses Muñoz, historiadora e membro do MRH. “A figura do Santo António Despejado emerge de diálogos coletivos sobre como dar visibilidade aos desafios que cidades como Lisboa enfrentam”.

No percurso escolhido também há importância: o Quartel da Graça está projetado para se transformar em mais um hotel, mesmo no coração de Lisboa, e a Assembleia Parar o Hotel no Quartel tem estado empenhada em combater esse processo e transformar o espaço num centro comunitário para servir as pessoas do bairro.

“O quartel representa precisamente o tipo de infraestrutura que poderia ser transformada num espaço de convívio e cultura para os residentes, em vez de mais um projeto voltado para o turismo ou para o mercado hoteleiro de luxo ”, diz a ativista. “É uma metáfora perfeita do que Lisboa está a perder - e do que ainda pode salvar”.

A ação que acontece este domingo com a participação dos movimentos pelo direito à habitação congrega os cidadãos preocupados com uma cidade onde cada vez é mais difícil viver e onde há sempre menos espaços culturais, sob o lema "Lisboa contra a turistificação". Mas Portugal não está sozinho. Na verdade, a ação articula-se com outras ações da rede internacional South Europe Against Touristification (Europa do Sul contra a turistificação, com a sigla SET), que junta ativistas em cidades como Veneza, Valência, Sevilha, Pamplona, Palma, Lisboa, Málaga, Malta, Madrid, Girona, Canárias, Donostia/San Sebastián, Camp de Tarragona e Barcelona.

Procissão de Santo António Despejado
Fotografia de Raquel Lindner.

Por todo o sul europeu, a turistificação intensiva cristaliza-se como modelo económico, expulsando das cidades as pessoas que lá vivem. A rede SET propõe “um futuro urbano mais justo” que “deve ser construído desde abaixo, de forma coletiva e retomando os laços quebrados nos bairros da nossa cidade”.

A capital portuguesa é um dos expoentes máximos de uma economia que coloca os interesses do turismo à frente dos de quem vive na cidade. “A política nacional e da cidade de Lisboa é sempre, mais, mais, mais e está a destruir a cidade”, diz Mariana. “Lisboa, em poucos anos, tornou-se o principal concelho turístico do país, onde cada vez mais hotéis, mais AL, mais apartamentos turísticos são instalados para instalar cada vez mais turistas”.

Isso também se expressa nos Santos populares, festas tradicionais que cada vez mais são gentrificadas e destinadas aos turistas. Por isso, quem participa na procissão deste domingo também luta pelo direito à cidade e contra a perda da “autêntica identidade comunitária e o carácter de auto-organização dos residentes” dos Santos Populares.

“O que eram celebrações de bairro, arraiais populares e convívios de rua transformaram-se em produtos vendidos nas redes sociais a estrangeiros como meros eventos de diversão - verdadeiras 'raves' ao ar livre”, diz a historiadora. “A essência tradicional foi substituída por uma lógica de parque temático, onde prevalece o consumo desenraizado em detrimento do significado cultural e social”.