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Por que se fala tanto nas obrigações?

Foi este o esquema que precipitou a queda do BES ao gerar a necessidade de registar uma provisão de perdas potenciais de 1.250 milhões de Euros, não contemplados na almofada de capital que, um mês antes da intervenção no banco, todos declaravam suficiente. Artigo de Mariana Mortágua.

Em benefício da clareza, simplifiquemos a história. No geral as perdas devem-se a um mecanismo básico: desde 2009 (que saibamos) que o BES emitia obrigações, que eram compradas em primeira instância (ou seja, no mercado primário) pela BES Vida, que depois as vendia à Eurofin, que as revendia a clientes BES através de vários mecanismos: colocando-os nas carteiras de investimentos dos clientes; vendendo directamente, entre outros.

Mais tarde, no final de 2013, a BES Vida ter-se-à recusado a continuar a comprar toda esta dívida BES, mas isso é outra parte da história.

Quando, em 2014, o BES entra em problemas, os clientes começam a querer desfazer-se das obrigações BES que tinham em carteira. Querem vende-las, mas ninguém as quer comprar, e por isso as taxas de juro de mercado aumentam. Na prática, quer dizer que os compradores queriam um desconto para ficar com as obrigações: só as compram se forem muito mais baratas, o que geraria uma perda para os seus detentores (para uma explicação do funcionamento das obrigações ver aqui).

Para evitar este processo, que prejudicava a imagem do banco, e cumprir supostos acordos de rendimento (ainda que informais) com os clientes que tinham inicialmente comprado as obrigações, o BES resolve recomprar estes títulos, não ao seu barato valor de mercado, mas por um valor associado ao valor de emissão. Estas operações de recompra geraram perdas para o banco, em 2014, no valor de 311 milhões de euros, com potencial de subida caso os clientes corressem aos balcões.

Há várias questões que se colocam relativamente a estas emissões: por que é que eram intermediadas pela Eurofin? Por que é que, em muitos casos, como em 2009, eram emitidas por valores acima do praticado no mercado (quer dizer que o mercado estava a pedir, por exemplo, 4% de juro para emprestar dinheiro ao BES, mas o BES estava a pagar a 7%)? Quem eram, de facto, as entidades compradoras?

Não temos, por enquanto, respostas para estas questões. É sobre elas que se debruça a audição com Isabel Almeida, directora financeira do BES.

Até 22 de janeiro de 2014 as emissões de obrigações do BES eram colocadas no BES Vida, como explicado no post anterior. A partir do dia 29 de Janeiro, por desconforto do BES Vida, as obrigações passam a ser colocadas num fundo, gerido pela ESAF, chamado ES Fixed Income.

O esquema circular era em tudo parecido aquele já explicado. O BES, através das suas sucursais no Luxemburgo, em Londres ou nas ilhas Caimão, emitia obrigações que vendia à ES Fixed Income (muitas vezes acima do valor de mercado). Para facilitar o exemplo, assumimos que essa venda é feita por 100€.

Depois, a ES Fixed Income vendia, pelo mesmo preço, essas obrigações à Eurofin.

Esta Eurofin vendia as mesmas obrigações por 170€ (um diferencial de 70%) a clientes do BES, através de três sociedades offshore, geridas pelo Crédit Suisse, chamadas: Top Renda, Poupança Plus e Euro Aforro. Com o lucro da operação, 70€ neste caso, a Eurofin comprava a esses mesmos veículos dívida da parte não financeira (ESI, ESCOM, ES Tourism, EG premium). Na realidade o lucro foi de 800 milhões de euros. No fundo, a Eurofin usava o lucro da venda de dívida BES para comprar dívida da área não financeira aos clientes. Porquê?

Há muitas explicações, poucas certezas. A mais plausível é que se tenha utilizado esse lucro para diminuir a dívida da parte não financeira, transferindo o risco dos clientes para a parte financeira (BES).

Segundo sabemos este esquema decorreu durante todo o ano de 2014, tendo sido descoberto em julho de 2014.

Nota: numa obrigação, a taxa de juro é inversa ao seu preço. Ou seja, quando mais alta a taxa de juro, menos vale a obrigação. É por isso que a Eurofin tinha lucro – comprava a 7% (a obrigação valia menos) e revendia a 4% (a obrigação valia mais). É por isso que o BES enfrentou perdas quando foi obrigado a recomprar estes títulos (já foi explicado no post anterior). Recomprou a 4%, o que representa um valor muito superior ao valor que tinha emitido, que era de 7%, ou ao valor de mercado, que na altura não parava de se degradar).

Artigo publicado no blogue Disto Tudo.

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Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
Termos relacionados Crise do BES, Política
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