A 22.ª conferência mundial da União Internacional de Inquilinos decorre em Lisboa até esta sexta-feira. À margem desta reunião, a presidente da organização sublinha que vivemos num momento em que “podemos voar até à Lua, mas não conseguimos garantir uma casa segura para todos”, vincando ainda que “é isso de que as pessoas precisam, uma casa segura”, o que não tem sido uma prioridade.
Em entrevista à Lusa, a também dirigente da União de Inquilinos da Suécia considera que a crise de habitação atravessa a Europa, “especialmente nas grandes cidades”. Por todo o continente, “os jovens não conseguem sair de casa dos pais, porque não há casas acessíveis para eles, há sobrelotação, muitas famílias estão a viver em apartamentos pequenos, não têm quartos para todos, têm de partilhar, e a construção de novas casas está a descer, em toda a Europa”.
A responsável associativa lembra que a meta da ONU era que toda a gente tivesse uma casa segura e acessível até 2030. Como “faltam seis anos”, “não me parece que vamos atingir esse objetivo, quando olho para a Europa e para o resto do mundo”. Ainda assim, defende que para caminhar nesse sentido é preciso reforçar a habitação pública: “todos os países, todos os municípios têm de começar a construir e cada país tem de apoiar o processo de construção, para que as casas sejam acessíveis”. E há que “mudar a mentalidade” porque “não podemos aceitar que as pessoas não tenham abrigo, não podemos aceitar que as crianças cresçam em apartamentos sobrelotados”.
Linder ilustra a importância do papel das associações de inquilinos com o caso da intervenção da sua organização nacional: quando o governo da Suécia quis impor rendas de mercado para as novas construções, um abaixo-assinado com meio milhão de assinaturas conseguiu impedir a medida. Trata-se de um país em que, diz, “o Estado não tem assumido a responsabilidade de garantir casas acessíveis para as pessoas”. Ainda assim, contrasta fortemente com Portugal: na Suécia há 60% de habitação pública, o que faz com que os inquilinos tenham “bastante segurança”, ao contrário de Portugal onde só existe 2%.
Isso mesmo reforça António Machado, da Associação dos Inquilinos Lisbonenses. Se a crise é geral, há “diferentes gradações” entre Norte e Sul. Ou seja, “os países nórdicos também se queixam de alguma insuficiência de habitação, designadamente para os jovens” mas é no Sul que “a situação é mais complicada, porque as políticas públicas são praticamente ausentes”. Assim: “incentivou-se a compra de casa, abandonando ao seu destino aquela população que tem menos recursos, designadamente os jovens, que, neste momento, no Sul da Europa, são os que saem mais tarde da casa dos pais, quando o conseguem fazer”.
A nota de imprensa da União Internacional de Inquilinos defende que “a crise global na habitação piorou com o aumento do custo de vida, a guerra e as catástrofes naturais” e, desta forma, “as políticas de habitação têm de assumir um lugar central nas agendas políticas nacionais em todo o mundo”.