As pessoas não apoiam a guerra, submetem-se à força do poder

24 de maio 2023 - 13:30

A convite da França Insubmissa, seis militantes de esquerda russos foram a Paris falar sobre a resistência à guerra no seu país e sobre as desigualdades sociais que esta acentuou.

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Socialistas russos com o deputado da França Insubmissa. Foto de Arnaud Le Gall/Facebook.
Socialistas russos com o deputado da França Insubmissa. Foto de Arnaud Le Gall/Facebook.

Na passada quarta-feira, seis representantes da esquerda russa que se opõe à invasão da Ucrânia pelo regime de Vladimir Putin foram ouvidos na Assembleia Nacional francesa a convite do deputado Arnaud Le Gall da França Insubmissa. O Mediapart dá-nos conta este domingo destas que são algumas das vozes esquecidas do conflito que continua a abalar a Europa.

Um dos grupos que à esquerda milita contra Putin e contra a invasão é a coligação “Socialistas contra a guerra”. Alexey Sakhnin, um dos seus dinamizadores, acredita que a ideia de um apoio esmagador da sociedade russa à invasão está a ser empolada. Nota que, nas sondagens que existem, o número de respostas é menor de 10% e que as respostas dão “uma imagem ambivalente do estado de espírito geral porque há um apoio à guerra de pouco mais de 50%, ao mesmo tempo que um desejo que ela acabe…”. Refere ainda que há estudos sociológicos que indicam que os apoiantes da guerra são mais ricos e mais velhos, os defensores da paz mais precários e mais jovens.

Este militante de esquerda acrescenta que “o medo agora domina a sociedade russa” e que “numa ditadura, sentimo-nos impotentes. As pessoas não apoiam a guerra, submetem-se à força do poder. Mas isso não pode durar eternamente”.

Ainda assim, e apesar da repressão ter caído fortemente sobre os atos de resistência coletiva contra a guerra, continuam a existir atos de resistência individual como a deserção, os motins na linha da frente (que, os conhecidos, terão sido duas dezenas, esclarece o jornal online) ou os atos de sabotagem (com perto de uma centena de centros de recrutamento incendiados, três centenas de troços de via férrea danificados, etc.).

Outra das militantes dos “Socialistas contra a guerra”, Liza Smirnova, corrobora o quadro de uma resistência ampla e da forte repressão que lhe respondeu. Explica que houve 20.000 pessoas do movimento anti-guerra presas, dezenas de casos conhecidos de tortura, 500 processos penais e 6.500 administrativos e todo um conjunto de novas leis que permitem qualificar como “traição contra o Estado” qualquer reunião do tipo daquela realizada no parlamento francês. Mas a ativista coloca também em cima da mesa os sucessos de candidatos “progressistas” quer nas eleições municipais de 2019 quer nas legislativas de 2021. Isto apesar de todas as dificuldades que tiveram de enfrentar como a exclusão em massa de listas em que se apresentavam.

Um destes candidatos foi Sergei Tsukasov pelo distrito de Ostankino, em Moscovo. Depois de ter vencido as primárias organizadas por um grupo de cidadãos, de reunir assinaturas, a sua candidatura acabou por ser excluída à última da hora. Apesar do Tribunal Constitucional ter considerado a medida ilegal, “era demasiado tarde para me reintegrar”, lamenta. Em fevereiro, na iminência da guerra manifestou-se contra ela em frente ao edifício da administração presidencial e acabou preso. Foi aí, dois dias depois, que viu “chegarem todas aquelas pessoas algemadas por terem protestado contra a invasão. E foi assim que ficou com a certeza que “esta minoria ativa não pode deixar de se ir alargando”.

Elmar Kustamov, que pertence a um outro grupo, chamado Russa Operária, também deixou uma nota de otimismo acerca do futuro da esquerda russa. Para ele, “o consenso putinista já não existe” e há condições de diálogo com as forças de esquerda ucranianas. E mesmo no partido comunista russo, que apoia oficialmente a invasão, há “uma oposição interna muito viva”.

Maria Menshikova, do grupo de apoio a Azat Miftakhov, um matemático preso e acusado de pertencer a uma rede anarquista, sublinhou por seu turno as ações radicais anti-guerra, “as únicas agora possíveis em uma Rússia totalmente bloqueada”.

E Irina Shumilova, uma marxista de 22 anos que organizou desde o início da guerra uma “micromanifestação”, contou como teve de fugir quando a polícia de Kostroma publicou online a sua localização, o que permitiria aos ultra-nacionalistas atacá-la. Ela traça algumas das consequências sociais do conflito na Rússia: “os rendimentos da população russa baixaram enquanto que o capital acumulado pelos oligarcas aumentou 150 mil milhões de dólares. A Rússia tem mais vinte e dois bilionários do que antes da guerra”, destaca.

E exemplifica: “Os lucros do patrão do grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, sextuplicaram: vende as suas tropas e vende as rações que alimentam todo o exército. Alexei Repik, que já ganhou milhões com a indústria farmacêutica, acaba de ganhar o contrato para a reconstrução de Marioupol. São as classes trabalhadoras que suportam o fardo desta guerra que enriquece os capitalistas russos”, afirma.

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