Socialistas ucranianos e russos juntos contra o imperialismo russo

Numa declaração conjunta, o Movimento Socialista Russo e o Movimento Social ucraniano defendem que a derrota de Putin deve ser o primeiro passo para uma democratização da ordem global e para a formação de um sistema de segurança internacional que passe pelo desarmamento nuclear.

12 de abril 2022 - 16:27
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Imperialismo russo. Ilustração de Kamshat Nurlanova publicada no LeftEast.

Apesar da maioria da esquerda condenar a invasão russa da Ucrânia, ainda falta unidade a este campo político. Gostaríamos de nos dirigir àqueles na esquerda que ainda mantêm a posição “uma praga em ambas as vossas casas”1 que olha para a guerra como uma guerra inter-imperialista. Já é tempo da esquerda acordar e fazer “uma análise concreta da situação concreta” em vez de reproduzir desgastados quadros de análise da Guerra Fria.

Negligenciar o imperialismo russo é um erro terrível para a esquerda. É Putin, não a Nato, que está a travar uma guerra contra a Ucrânia. É por isso que é essencial mudar o nosso foco do imperialismo ocidental para o imperialismo agressivo de Putin que tem uma base ideológica e política para além da económica.

O imperialismo russo consiste em dois elementos. Primeiro, envolve um revisionismo do nacionalismo russo. Depois de 2012, Putin e o seu establishment mudaram de um conceito cívico de nação (rossiysky, “relacionada à Rússia”) para um conceito baseado na etnicidade (as russkiy, “etnicamente/culturalmente russo”). A sua agressão de 2014 e de 2022 foi legitimada pela devolução de terras “originalmente” russas. Para além disto, este conceito de “russianidade” (étnica) faz reviver o conceito imperial do século XIX de nação russa que reduz a identidade ucraniana e bielorrussa a identidades regionais.

De acordo com este ponto de vista, russos, bielorrussos e ucranianos são apenas um povo. Empregar este conceito na retórica oficial implica a negação de um Estado independente ucraniano. É por isto que não pode ser afirmado com nenhum grau de certeza que Putin só queira o reconhecimento da soberania russa sobre a Crimeia e o Donbass. Putin pode desejar anexar ou subjugar toda a Ucrânia, ameaças que aparecem no seu artigo “Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos” e no seu discurso em 21 de fevereiro de 2022. Finalmente, a perspetiva das negociações de paz entre Ucrânia e Rússia parece bastante sombria, já que a equipa de negociação da Rússia é chefiada pelo ex-ministro da Cultura, Vladimir Medinsky, um dos mais dedicados crentes na ideologia do russkiy mir (o mundo étnico russo) – um mundo onde, acreditem em nós, ninguém será feliz.

Segundo, apesar da agressão de Putin ser difícil de explicar racionalmente, os atuais acontecimentos demonstraram que pode ser suficientemente razoável, contudo, olhar para a retórica imperialista russa literalmente. O imperialismo russo é alimentado pelo desejo de mudar a chamada “ordem mundial”. Assim, a exigência de Putin de retirada da Nato da Europa de Lista pode sinalizar que a Rússia pode não acabar na Ucrânia e que Polónia, Letónia, Lituânia ou Estónia podem ser os próximos alvos da agressão de Putin. É muito ingénuo exigir a desmilitarização da Europa de Leste porque, à luz das correntes circunstâncias, isso apenas tranquilizaria Putin e tornaria os países da Europa de Leste vulneráveis à sua agressão. O discurso sobre a expansão da Nato obscurece o desejo de Putin de dividir as esferas de influência na Europa entre os EUA e a Rússia. Pertencer à esfera de influência russa significa a subordinação de um país à Rússia e a sua sujeição à expansão do capital russo. Os casos da Georgia e da Ucrânia demonstraram que Putin está pronto para usar a força para influenciar os assuntos políticos dos países que ele acredita pertencerem à esfera russa de influência. É importante compreender que a leitura de Putin sobre os agentes chave da ordem mundial está basicamente limitada aos EUA e à China. Não reconhece a soberania de outros países, olhando para eles apenas como satélites de um destes agentes da ordem internacional.

Putin e o seu establishment são muito cínicos. Usam o bombardeamento da Nato na Jugoslávia, a intervenção americana no Afeganistão e a invasão do Iraque como um escudo para bombardear a Ucrânia. Neste contexto, a esquerda deve demonstrar consistência e manifestar-se contra todas as agressões imperialistas no mundo. Hoje, o agressor imperialista é a Rússia, não a Nato, e se a Rússia não for travada na Ucrânia definitivamente irá continuar a sua agressão.

Para além disto, não devemos ter quaisquer ilusões sobre o regime de Putin. Não oferece nenhuma alternativa ao capitalismo ocidental. É um capitalismo autoritário, oligárquico. O nível de desigualdade na Rússia cresceu significativamente durante os vinte anos da sua liderança. Putin não é apenas um inimigo da classe trabalhadora mas também um inimigo de todas as formas de democracia. A participação popular na política e as associações voluntárias são tratadas com suspeição na Rússia. Putin é essencialmente um anti-comunista e um inimigo de tudo aquilo pelo qual a esquerda tem lutado neste século. Na sua visão do mundo, os fortes têm o direito de esmagar os fracos, os ricos têm o direito de explorar os pobres, os homens fortes do poder têm o direito de tomar decisões em nome da população impotente. Esta visão do mundo tem de sofrer um golpe forte na Ucrânia. De forma a que uma mudança política possa acontecer no interior da Rússia, o exército russo deve ser derrotado na Ucrânia.

Queremos ainda referir-nos a uma reivindicação altamente controversa, a da ajuda militar à Ucrânia. Compreendemos as repercussões da militarização para o movimento de esquerda progressista mundial e para a resistência da esquerda à expansão da Nato e à intervenção ocidental. Contudo, é preciso contextualizar a situação para ficarmos com um quadro mais alargado. Em primeiro lugar, os países da Nato forneceram armas à Rússia apesar do embargo de 2014 (França, Alemanha, Itália, Áustria, Bulgária, República Checa, Croácia, Eslováquia e Espanha). Por isso, a discussão sobre se as armas enviadas para a região acabam nas mãos certas ou erradas parece um pouco atrasada. Mais ainda, as garantias alternativas de segurança que o governo ucraniano propôs requerem o envolvimento de uma série de países e provavelmente só podem ser efetivadas também com o seu envolvimento.

Em segundo lugar, como numerosos artigos já enfatizaram, o regimento Azov é um problema. Contudo, ao contrário de em 2014, a extrema-direita não está a desempenhar um papel predominante na guerra hoje em dia. Esta tornou-se uma guerra popular e os nossos camaradas da esquerda da Ucrânia, da Rússia e da Bielorrússia estão a lutar juntos contra o imperialismo.

Como se tornou claro nos últimos dias, a Rússia está a tentar compensar os seus falhanços no terreno com ataques aéreos. A defesa anti-aérea não dará nenhum poder adicional ao Azov mas ajudará a Ucrânia a manter controlo do seu território e reduzir mortes civis ainda que as negociações falhem.

Na nossa opinião a esquerda deveria exigir:

  • a retirada imediata de todas as forças armadas russas da Ucrânia;

  • novas sanções dirigidas, pessoais, ao Putin e aos seus multimilionários. (É importante perceber que Putin e o seu establishment se preocupam apenas com os seus bens privados; são indiferentes ao estado geral da economia russa. A esquerda também pode usar esta exigência para expor a hipocrisia de quem financiou o regime e exército de Putin e que ainda agora continua a vender armas à Rússia);

  • sancionamento do petróleo e do gás russos;

  • aumento da ajuda militar à Ucrânia, em particular a disponibilização de sistemas de defesa anti-aéreos;

  • a introdução de forças de manutenção da paz das Nações Unidas, de países não pertencentes à Nato, para proteger civis, incluindo proteção de corredores verdes e a proteção das centrais nucleares (um veto da Rússia no Conselho de Segurança das Nações Unidoas poderia ser ultrapassado na Assembleia Geral).

A esquerda deve apoiar os ucranianos de esquerda que estão a resistir, dar-lhes visibilidade, dar centralidade às suas vozes e apoiá-los financeiramente. Reconhecemos que são os milhões de trabalhadores essenciais da Ucrânia e os voluntários na assistência humanitária que tornam a resistência possível. Uma série de outras exigências – apoio a todos os refugiados independentemente da sua nacionalidade, o cancelamento da dívida da Ucrânia, as sanções contra os oligarcas russos, etc. - são amplamente aceites e, por isso, não as discutimos aqui.

A invasão russa da Ucrânia introduz um precedente terrível para a resolução de conflitos que envolvem o risco de uma guerra nuclear. É por isso que a esquerda deve desenvolver a sua visão próprias das relações internacionais e da arquitetura da segurança internacional que deve incluir o desarmamento nuclear multilateral (que deveria ser obrigatório para todas as potências nucleares) e a institucionalização de respostas económicas internacionais a qualquer agressão imperialista no mundo. A derrota militar a da Rússia deve ser o primeiro passo para uma democratização da ordem global e para a formação de um sistema de segurança internacional e a esquerda internacional deve contribuir para esta causa.


O Movimento Socialista Russo é uma organização política cuja visão de um socialismo democrático se baseia na propriedade comunitária, na liberdade política e na auto-determinação. Acredita que apenas um movimento de massas – de ativistas socialistas, sindicalistas, antifascistas e ambientalistas – com base na solidariedade de classe e no igualitarismo pode acabar com a lei do capital na Rússia.

O Sotsialnyi Rukh (Movimento social) é uma organização de esquerda democrática socialista que luta contra o capitalismo e a xenofobia. Une ativistas dos movimentos sociais e sindicais na luta para construir um mundo melhor sem a ditadura do capital, o patriarcado e a discriminação.

 

Texto traduzido do russo pelo LeftEast. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

Nota da tradução:

1Esta é uma expressão utilizada pelo personagem Mercutio na peça de Shakespeare “Romeu e Julieta” quando estava a morrer, culpando ambas as casas nobres que dominavam Verona, os Capuleto e os Montague. A partir de então tem sido utilizada para culpar os dois lados de um conflito, não escolhendo nenhum deles. [Nota da tradução]

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