ONU quer que Israel abra inquérito sobre crime de guerra em Gaza

21 de dezembro 2023 - 11:28

Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU diz que os soldados israelitas entraram num prédio, separaram as mulheres e crianças e à sua frente mataram onze homens desarmados na terça à noite. Número de palestinianos presos sem acusação em Israel atingiu o máximo histórico.

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Famílias choram pelos seus mortos em Khan Younis, no sul de Gaza
Famílias choram pelos seus mortos nos ataques israelitas a Khan Younis, no sul de Gaza. Foto Haitham Imad/EPA

Em comunicado citado pela agência France Presse, o Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU exige a abertura de um inquérito por parte de Israel a um possível crime de guerra cometido na noite de terça-feira pelas suas tropas na cidade de Gaza. A agência das Nações Unidas diz ter recebido "informações inquietantes" e confirma a morte de onze palestinianos nessa ação.

Segundo os relatos recolhidos e que a agência quer ver investigados, os soldados israelitas terão entrado num prédio de habitação onde se refugiavam várias famílias. Em seguida "separaram os homens das  mulheres e crianças e depois dispararam e mataram pelo menos 11 homens (...) sob o olhar dos membros das suas famílias".

Os testemunhos foram recolhidos pelo Euro-Med Human Rights Monitor, que aponta para 13 mortes entre os membros da família Anan e das famílias Al-Ashi e Al-Sharafa, seus parentes deslocados, com outros membros gravemente feridos e um idoso levado pelos soldados e cujo paradeiro se desconhece.

Segundo o relato de um familiar das vítimas, além da execução dos jovens desarmados, as mulheres foram colocadas numa das divisões da casa, com os soldados israelitas a dispararem em seguida, ferindo várias delas com gravidade.

O Euro-Med Monitor diz que este não é o primeiro relato de ações semelhantes por parte dos soldados israelitas, incluindo execuções sem razão aparente. "De acordo com os testemunhos, quando os soldados israelitas invadem uma casa, rebentam com os portões e começam a disparar a torto e a direito, ignorando todos os pedidos de ajuda dos residentes", refere a organização.

Mais de oito mil palestinianos detidos em Israel

A vaga de detenções em Gaza e na Cisjordânia nas semanas após os ataques do Hamas de 7 de outubro fez elevar para o máximo histórico o número de palestinianos presos sem acusação nas cadeias israelitas. A denúncia citada pelo Guardian parte dos grupos de apoio aos presos e de defesa dos direitos humanos como o Addameer, que refere a existência de 123 mulheres detidas em Gaza. Tala Nasir, advogada que trabalha com esta organização, aponta que 80% dos detidos desde 7 de outubro está em regime de detenção administrativa. Ou seja, podem ficar detidos indefinidamente sem qualquer acusação.

No início de dezembro, o Palestinian Prisioners Club, um grupo que faz a contagem dos detidos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, dizia que havia cerca de 7.800 palestinianos presos nas cadeias de Israel, o maior número dos últimos 14 anos. A organização aponta ainda, baseada em dados dos serviços prisionais israelitas, que na troca de reféns que permitiu o regresso a casa de 80 pessoas raptadas pelo Hamas e de 240 menores e mulheres presos em Israel, a maioria destes estava nesse regime de detenção administrativa e não tinha sido condenada por qualquer crime. Mas na mesma semana, os soldados israelitas prenderam 260 palestinianos, aumentando assim o número de presos apesar daquelas libertações.

Ibrahim Dalalsha, do Horizon Centre de Ramallah, diz que normalmente os israelitas vão atrás de denúncias ou informações que recebem para deter suspeitos de terem praticado ou estarem a preparar crimes, mas "desta vez vão atrás de toda a gente: diversos tipos de ativistas, os seus familiares, trabalhadores do município. É uma espécie de detenção preventiva e muito alargada", refere o ativista citado pelo Guardian, concluindo que "isto é um castigo por sermos palestinianos, não por sermos uma ameaça".