ONU alerta para “desumanização” de palestinianos e escalada de violência na Cisjordânia

28 de dezembro 2023 - 19:56

Escavadoras em campos de refugiados, aumento das detenções arbitrárias e detidos a sofrerem todo o tipo de abusos, ataques cada vez mais frequentes dos colonos são algumas das situações denunciadas pelas Nações Unidas. Ao mesmo tempo, crise de saúde e fome em Gaza aprofunda-se.

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Foto de Guillaume Paumier, Flickr.

O Escritório do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) divulgou um novo relatório sobre a Cisjordânia no qual são denunciados, nomeadamente, a utilização de meios militares e armas pelas autoridades policiais, as restrições de movimento que afetam os palestinianos e um aumento acentuado da violência dos colonos, que resultando na deslocação forçada de pastores e comunidades.

“A desumanização dos palestinianos que caracteriza muitas das ações dos colonos é muito perturbadora e deve cessar imediatamente”, afirmou Volker Türk, apelando a Israel para investigar os abusos, processar os responsáveis e proteger as comunidades palestinianas contra qualquer forma de transferência forçada.

Nem os cemitérios escapam

27 de dezembro 2023

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos apontou que os novos relatos de violações repetem padrões documentados no passado, mas com uma intensidade reforçada.

No relatório do ACNUDH é assinalado que se verificou um “aumento acentuado de ataques aéreos, bem como de incursões de veículos blindados de transporte de pessoal e de escavadoras enviadas para campos de refugiados e outras áreas densamente povoadas na Cisjordânia” desde 7 de outubro.

2023 é “o ano mais mortal para os palestinianos na Cisjordânia”

Desde 7 de outubro, o ACNUDH registou a morte de 300 palestinianos, incluindo 79 crianças, a grande maioria morta pelas Forças de Segurança Israelitas (ISF), enquanto oito foram morto por colonos. Antes dessa data, já tinha sido contabilizado um número recorde de 200 palestinianos mortos este ano na Cisjordânia. O escritório de coordenação de assuntos humanitários da ONU, OCHA, sublinhou que 2023 é “o ano mais mortal para os palestinianos na Cisjordânia” desde que a ONU começou a registar vítimas, em 2005.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) publicou um relatório esta quinta-feira em que alerta que o número de crianças mortas na Cisjordânia ocupada durante este ano atingiu “níveis sem precedentes”, tendo sido o mais mortífero para as crianças da região. Segundo os dados apresentados, nas últimas doze semanas morreram 83 crianças, mais do dobro do que as vítimas de todo o ano passado. E mais de 576 ficaram feridas.

“O sofrimento das crianças na Cisjordânia não deve passar ao lado do actual conflito, faz parte dele”, afirmou Adele Khodr, diretora regional da Unicef para o Médio Oriente e Norte de África.

Detidos sujeitos a todo o tipo de abusos

No relatório do ACNUDH é dado destaque à detenção de mais de 4.700 palestinianos, incluindo cerca de 40 jornalistas, pelas ISF, “na maioria dos casos não relacionados com a prática de um crime”. De acordo com as Nações Unidas, alguns dos detidos foram sujeitos a maus-tratos: “despidos, vendados e contidos durante longas horas com algemas e com as pernas amarradas, enquanto os soldados israelitas pisavam-lhes as cabeças e as costas… cuspiam, os atiravam contra as paredes”. A ACNUDH recorda que, a 31 de outubro, os meios de comunicação israelitas relataram que “dezenas de fotografias e videoclips foram publicados por soldados israelitas retratando-se a abusar, degradar e humilhar palestinianos detidos na Cisjordânia”.

O relatório também documenta casos de violência sexual e de género “incluindo um detido que foi espancado nos órgãos genitais, nudez forçada de vários detidos, conforme mostrado em vídeos, insultos sexuais contra uma mulher,… duas mulheres grávidas ameaçadas de violação durante a detenção, 'Como Al-Qassam [o braço armado do Hamas que executou os ataques terroristas de 7 de Outubro] fez com as mulheres israelitas'”.

Ataques de colonos duplicam

Por sua vez, os ataques de colonos duplicaram. Entre 7 de outubro e 20 de novembro, o OCHA registou 254 ataques de colonos, numa média de seis incidentes por dia, em comparação com três desde o início do ano.

Os ataques incluem disparos, incêndios de casas e veículos e destruição de árvores: “Em muitos incidentes, os colonos foram acompanhados pelas ISF ou usavam uniformes da ISF e carregavam armas do exército”, aponta o ACNUDH. As Nações Unidas relatam os ataques de colonos armados contra palestinianos que colhem as suas azeitonas, “forçando-os a abandonar as suas terras, roubando a sua colheita e envenenando ou vandalizando as suas oliveiras, privando muitos palestinianos de uma fonte vital de rendimento”.

O relatório do ACNUDH observa que, desde 7 de outubro, “as ISF… alegadamente distribuíram 8.000 espingardas do exército a ‘esquadrões de defesa de colonatos’ civis e a ‘batalhões de defesa regional’ estabelecidos para proteger colonatos na Cisjordânia”.

Türk lamentou a “continuação da falta de responsabilização pela violência dos colonos e da ISF” e instou Israel a conceder ao seu Gabinete acesso ao país.

Enquanto isso, o Haaretz escreve que o ministro das Finanças israelita de extrema direita, Bezalel Smotrich, transferiu fundos equivalentes a 20 milhões de dólares para postos avançados ilegais na Cisjordânia pela segunda vez numa semana. Há cinco dias atrás, outros 20 milhões de dólares tinham sido desviados do Ministério do Interior para o Ministério das Missões Nacionais, chefiado por Orit Strock, também este de extrema-direita, e, há dez dias, foi aprovado o Orçamento do Estado revisto para 2023. As alterações solicitadas foram ocultadas do público e não apareceram na agenda governamental, até porque alguns ministros criticam o aumento de despesas não diretamente relacionadas com a guerra.

Número de mortos em Gaza aumenta

Esta quinta-feira foi atualizado o número de mortos em Gaza, num total de 21.110. Contabilizam-se ainda mais de 55.243 palestinianos feridos no enclave.

De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (UNRWA), estima-se que 1,9 milhões de pessoas em Gaza, ou quase 85 por cento da população, estejam deslocadas internamente. Esta quinta-feira, a agência alertou que as novas ordens de evacuação israelitas no centro de Gaza estão a exacerbar o número de deslocados, uma vez que “mais de 150.000 pessoas – crianças pequenas, mulheres e carregando bebés, pessoas com deficiência e idosos – não têm para onde ir”.

“Desastre de saúde pública”

O OCHA assinala que a falta de alimentos e bens essenciais, assim como a falta de higiene, estão a exacerbar as “já terríveis condições de vida” das pessoas deslocadas e a multiplicar doenças. O coordenador de ajuda de emergência da ONU, Martin Griffiths, escreveu na plataforma social X que, ainda que as doenças infecciosas se estejam a espalhar rapidamente em abrigos sobrelotados, “os hospitais mal funcionam” e centenas de pessoas com ferimentos de guerra estão privadas de cuidados. “Gaza é um desastre de saúde pública em formação”, vincou.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) observou que quatro hospitais no norte enfrentam escassez de pessoal médico e mantimentos, incluindo anestesia e antibióticos, bem como combustível, alimentos e água potável, enquanto os do sul estão com três vezes a sua capacidade.

A OMS reiterou que a fome é desesperante em Gaza, com pessoas famintas a pararam os comboios da organização “na esperança de encontrar comida”. Embora a resolução 2070 do Conselho de Segurança da ONU, adotada na semana passada, apelasse à prestação imediata, segura e sem entraves de assistência humanitária em grande escala, diretamente aos civis palestinianos em toda a Faixa de Gaza, o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que “com base nos relatos de testemunhas oculares da OMS no terreno, a resolução tragicamente ainda não teve impacto”.

“O que precisamos urgentemente neste momento é de um cessar-fogo para poupar os civis de mais violência e iniciar o longo caminho rumo à reconstrução e à paz”, afirmou Tedros.

Em vez disso, a mortandade continua. Pelo menos 195 pessoas morreram e 325 ficaram feridas nas últimas 24 horas em ataques do exército israelita em Gaza, nomeadamente em Deir al-Balah, nos campos de refugiados de Maghazia e Nuseirat, e em Khan Yunis. A maioria das vítimas são crianças e mulheres.