Gaza passa o Natal sob bombas, Israel rejeita apelos ao cessar-fogo

24 de dezembro 2023 - 12:19

Bombardeamentos prosseguem este domingo, com as tropas israelitas a anunciarem o controlo quase completo do norte da Faixa de Gaza. Vários responsáveis da ONU insistem no cessar-fogo para fazer chegar a ajuda humanitária. Na noite de sábado, milhares exigiram saída de Netanyahu em Telavive.

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Funeral este domingo em Khan Younis
Funeral este domingo em Khan Younis. Foto Haitham Imad/EPA

Este ano a cidade de Belém não terá festas natalícias nem a tradicional árvore de natal ou iluminações festivas. Os líderes religiosos da histórica cidade cristã na Cisjordânia cancelaram as festas em solidariedade com a população de Gaza. E o domingo amanheceu no norte de Gaza com mais bombardeamentos aéreos e de tanques israelitas em Jabalia, numa altura em que a ONU estima que 80% da população de Gaza, com 2,4 milhões de habitantes, tenha sido obrigada a deixar as suas casas para fugir às bombas.

Na sexta-feira, as tropas israelitas mandaram evacuar milhares de civis no campo de refugiados de Bureij, no centro de Gaza, para a cidade de Deir al-Balah. Segundo o diretor da agência da ONU para os Refugiados Palestinianos, a ordem afetará cerca de 150 mil pessoas. "O exército israelita está a dar ordens às pessoas para irem para zonas que estão sob bombardeamento. Nenhum lugar é seguro, não há para onde ir", afirmou Thomas White, acrescentando que "as pessoas não são peças num tabuleiro de xadrez.

Apesar de se sucederem os apelos ao cessar-fogo, o primeiro-ministro israelita mantém que os ataques continuarão até que o Hamas seja "destruído". Um porta-voz militar afirmou este domingo que o exército de Israel está perto de alcançar o controlo operacional do norte da Faixa de Gaza, o que significa que os ataques se irão concentrar a sul, sobretudo no que resta da cidade de Khan Younis.

Quanto ao número de baixas no exército desde o início da invasão terrestre, os militares israelitas apontam para 153 soldados mortos, 14 dos quais este fim de semana no centro e sul da Faixa de Gaza. Também este domingo, o Ministério da Saúde de Gaza disse que morreram mais 166 pessoas nas últimas 24 horas, o que faz elevar a fasquia de vítimas desde 7 de outubro para 20.424 mortes e mais de 54 mil feridos.

Por seu lado, Balakrishnan Rajagopal, o relator especial da ONU para o direito à habitação, afirmou que o que está a acontecer em Gaza é o resultado do que chama de "impunidade institucionalizada" para "uma guerra de extermínio". O responsável da ONU fala de "genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade" e diz que se o "Tribunal Penal Internacional não agir muito em breve, vamos precisar de um tribunal especial para Gaza e ação por parte dos Estados".

O Alto Comissário para os Refugiados da ONU, Fillipo Grandi, insistiu este domingo que um cessar-fogo humanitário "é o único caminho" para que a ajuda chegue às pessoas necessitadas, para que os reféns sejam libertados e para evitar mais perdas de vidas. O apelo segue-se a aprovação da resolução no Conselho de Segurança que pede que sejam criadas condições para a entrada de ajuda humanitária em Gaza, mas para garantir a ausência de veto dos EUA não faz referência à necessidade de um cessar-fogo. Em vez disso, apela à "criação de condições para uma cessação de hostilidades sustentável".

Após a aprovação da resolução, com 13 votos a favor e as abstenções da Rússia e dos Estados Unidos, António Guterres afirmou esperar que ela ajude a melhorar a entrega da tão necessária ajuda, mas insiste que "o cessar-fogo humanitário é o único caminho para começar a ir ao encontro das necessidades desesperadas e acabar com o seu contínuo pesadelo".

No sábado, Guterres prestou homenagem aos funcionários e colaboradores das agências da ONU em Gaza, lembrando que morreram nos últimos 75 dias 136 funcionários da ONU em Gaza, "algo que nunca tínhamos visto na história das Nações Unidas", e que a maioria do staff da ONU foi obrigada a fugir de suas casas. E voltou a criticar a forma como Israel conduz os ataques por criar obstáculos enormes ao trabalho de distribuição da ajuda dentro de Gaza. No domingo, chamou a atenção para um relatório do Programa Alimentar Mundial que indica que mais de quatro em cada cinco famílias em Gaza está em situação de fome extrema.

Dois mil em protesto contra o Governo em Telavive

Na noite de sábado, cerca de duas mil pessoas manifestaram-se em Telavive num dos raros protestos abertamente contra o governo de Netanyahu desde o início da invasão, antes de se juntarem à concentração pela libertação dos reféns na posse do Hamas. Até agora, as críticas nas manifestações públicas têm-se mantido contidas nas manifestações que apelam ao regresso dos reféns e onde a impaciência aumenta a cada dia face à ausência de iniciativas do governo para retomar essas negociações. Presente na concentração de sábado, uma das reféns libertadas, Sharon Alony Cunio, acusou o governo por não fazer o suficiente para trazer de volta os restantes, incluindo o seu marido David.

A morte de três reféns por soldados israelitas veio aumentar essa tensão, embora muitos destes manifestantes continuem a achar que politizar a questão dos reféns não é o caminho. "Num mundo paralelo, eu estaria noutra manifestação", disse Dina Walker ao New York Times durante a concentração pela libertação dos reféns. "Acho mais importante agora mostrar apoio para nos assegurarmos que eles regressam a casa. Depois podemos tratar do resto", concluiu.

Segundo o diário israelita Haaretz, as manifestações ocorreram em vários pontos do país e foram lideradas por habitantes das comunidades perto da fronteira com Gaza e com o Líbano, obrigadas a evacuarem de suas casas. Um dos oradores no protesto junto à residência do primeiro-ministro foi Yair Golan, o antigo deputado do Meretz que no dia 7 de outubro foi no seu carro salvar pessoas dos ataques do Hamas. Golan acusou Netanyahu de querer "uma guerra interminável, sem calendários nem objetivos precisos", pois essa é a única forma de evitar a sua saída do poder. E apelou ao general Benny Gant para deixar o gabinete de crise, pois Netanyahu irá impedir qualquer proposta válida que apresente.

"A grande maioria acha que este homem desprezível que manda os soldados para a guerra mas tem medo de ir aos seus funerais deve ir para casa", defendeu por seu lado Rotem Neumann, tio de uma jovem assassinada pelo Hamas durante o festival de música Nova. E acrescentou que se a libertação do assassino da sua sobrinha ajudar a trazer os reféns de volta a Israel, ele seria o primeiro a apoiar a sua libertação imediata.