O sultanato de Erdogan

03 de maio 2023 - 12:21
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As eleições marcadas para 14 de maio opoem o atual presidente Recep Tayyip Erdogan e Kemal Kilicdaroğlu, representando os seis principais partidos da oposição que se uniram na tentativa de romper com a hegemonia do "novo sultão". Por Antonio Ribeiro Tupinamba.

Erdogan acena à multidão
Erdogan na inauguração de um projeto de energia solar em Konya esta semana. Foto Presidência da Turquia.

Tudo aponta para que se conheça o fim da era Erdogan em 2023. O homem que venceu as eleições nacionais turcas de 2002 era então tido como uma esperança para a modernização e aproximação do país até a Europa. Hoje definha politicamente e parece ser lentamente soterrado pelos escombros do último terremoto que devastou o país.

Ainda que tenha o apoio da população mais pobre e rural, a reação demorada e os efeitos mal administrados do terremoto que custou a vida de mais de 50 mil pessoas, com 214 mil prédios desabados em cerca de 11 diferentes províncias abalou seu prestígio. A devastação atingiu em cheio seus planos para se reeleger. Eleições desafiadoras para o autocrata turco, que já se encontra desgastado pela inflação descontrolada que afeta a economia do país e agora, face ao terremoto, tem mais um ponto negativo que se soma ao seu já combalido mandato.

As críticas ao governo só aumentaram em sequência à incompetência das autoridades e instituições no enfrentamento desse grande desastre. A corrupção se escancara ao se constatar que pouco resultou do imposto criado e que deveria ser destinado a arrecadar milhões de euros para investimento na prevenção e ajuda às vítimas de desastres naturais. Um governo altamente centralizado impede que as cidades e organizações de ajuda possam atuar direta e localmente com mais eficiência, por exemplo, nas operações de resgate.

Erdogan é tido por muitos como um novo ditador, sobre quem pesa, juntamente com seus familiares e correligionários, escândalos vários de corrupção e desmandos. A política intervencionista de controle do judiciário e da imprensa comprometem a já fraca e questionável democracia turca, mais uma barreira para a viabilização da entrada do pais no seleto clube de nações que formam a União Europeia.

A tentativa de aproximação da Europa continua atual e objeto de desejo, principalmente, da população mais jovem. No entanto, parece cada vez mais remota, tendo em vista políticas antidemocráticas e com requintes de abuso de poder no modelo Erdogan de governar. Em 1963 havia sido assinado um acordo de associação com a recém-criada Organização de países europeus e somente em 1987 veio o pedido formal para adesão do país, que tenta construir uma nova identidade, mais próxima do velho mundo e mais distante da Ásia.

Essa viragem para a Europa também poderia “livrar" o país do estereótipo de atraso que é preconceituosamente atribuído a certas regiões de maioria curda sustentado por Erdogan e parte da população mais conservadora. Preferem deixar os curdos distantes dos centros de poder como Ancara e Istambul, cidades mais modernas e, portanto, tidas como mais próximas do padrão europeu.

Quando Mustafa Kemal Atatürk, o grande líder da Independência, pioneiro nas revoluções e reformas que fundaram a Turquia como se conhece hoje tornou seu país mais republicano, fê-lo também laico e com maior igualdade entre homens e mulheres, modernizando-o, chegando inclusive a trocar seu alfabeto árabe pelo latino. Já Erdogan, que surgiu como uma alavanca para a continuação desse progresso e modernização para levar a Turquia à Europa, enfrenta a amarga realidade de quem já não é mais a principal referência para a população jovem tampouco unanimidade no jogo político, como aconteceu na altura da sua primeira vitória em 2002.

Por conta da  incapacidade de fortalecer a frágil democracia turca, as promessas de levar o país ao "clube europeu" parece cada vez mais distante. Esse desejo, que é da maioria da população, não tem data para ser realizado. A vitória da aliança formada para derrotar Erdogan traria a possibilidade de transformar o regime da Turquia em parlamentarista, substituindo o atual regime presidencialista por ele estabelecido.

O receio da Turquia se tornar uma ditadura islâmica que cresceu não por acaso mas em consequência de muitas ações governamentais de repressão da oposição e das mudanças legais que conseguiu fazer na legislação para poder se perpetuar no poder. O certo é que ao fim dessas duas décadas no poder, Erdogan enfrenta seu maior desafio político. Uma coligação de seis partidos da oposição elegeu Kemal Kılıçdaroğlu como o candidato único para enfrentar e tentar vencer Erdogan nas próximas eleições marcadas para este maio. Líder do Partido Republicano do Povo (CHP), de centro esquerda, e agora uma "Aliança Nacional", coligação que aproveita-se da maior fragilidade de Erdogan, em consequência da insatisfação da população com os acontecimento pós-terremoto.

Nas suas redes sociais Kemal Kılıçdaroğlu deixou claro seu otimismo para o difícil pleito que se aproxima: ”Gostaria de agradecer aos honoráveis presidentes da Aliança Nacional pela confiança. Agora temos um longo caminho a percorrer de mãos dadas, ombro a ombro. Coroaremos a nossa república com a democracia. Aqui vamos nós”. Em 14 de maio próximo a oposição pode conseguir, por meio de um candidato de consenso, desbancar esse "novo sultão" e dar outro rumo ao país que é considerado estratégico para o futuro das relações de nações da região e do mundo.


Antonio Ribeiro Tupinamba é Professor Titular de Psicologia Política na Universidade Federal do Ceará — Brasil