Economia

O segundo choque comercial chinês

14 de maio 2026 - 12:51

A afirmação da China como uma potência industrial de ponta ameaça fragilizar uma economia europeia já pouco dinâmica. A questão é o que fará a UE

porDiogo Machado

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Foto Jaxport/Flickr

Uma reportagem recente do prestigiado Financial Times, de 13 de abril de 2026, fez soar alarmes, afirmando que o mundo está perante um segundo “choque comercial chinês” (“China Shock 2.0»), após o primeiro, nos anos em torno da entrada da China na OMC em 2001, em que se afirmou como grande exportador de produtos manufaturados baratos de baixa valor acrescentado e alta intensidade em trabalho (têxtil, eletrónica para consumo, brinquedos, mobília, etc.), causando desemprego e falências em massa nestes setores nas economias ditas avançadas.

O segundo choque comercial chinês é qualitativamente diferente, mas pode ter efeitos ainda mais violentos. Segundo o Financial Times, a China está a “inundar os mercados internacionais de produtos manufaturados de alta tecnologia”, ameaçando diretamente alguns dos setores mais críticos dos EUA e das maiores economias europeias.

A China não é mais a “fábrica do mundo”, especializada em produtos baratos para consumo. Nas últimas duas décadas, a China operou uma transformação estrutural da sua economia com sucesso notável, tendo subindo na cadeia de valor em direção a produtos de elevada sofisticação tecnológica. Avaliando o programa «Made in China 2025», a Bloomberg concluiu que a China atingiu quase todos os objetivos a que se propôs num horizonte de 10 anos, sendo líder mundial em indústrias como a produção de painéis solares, carros elétricos, baterias de lítio, ferrovia de alta velocidade e veículos aéreos não tripulados. Tornou-se também bastante competitiva em indústrias mais clássicas como os medicamentos, produtos químicos, robôs e máquinas.

Isto não aconteceu por acaso, mas como resultado de políticas públicas persistentes e deliberadas. Sendo uma economia capitalista com propriedade privada e mecanismos de mercado, as prioridades de desenvolvimento nacional são definidas pelo Partido-Estado e a acumulação de capital é-lhes subordinada, o que é auxiliado por um forte setor empresarial do Estado e por um sistema financeiro público, em grande medida insulado de interferência estrangeira. O planeamento económico central, que sistematicamente define setores prioritários de investimento, alocando-lhes recursos generosos para se desenvolverem, convive com uma competição feroz entre empresas privadas no mercado interno, resultando em empresas altamente competitivas nos mercados internacionais. “As empresas que conseguem sobreviver na China são imbatíveis em qualquer lugar do mundo”, afirma um industrialista entrevistado pelo Financial Times na peça mencionada.

Estes desenvolvimentos configuram-se como uma ameaça existencial para a indústria europeia. O primeiro choque chinês teve resultados mistos: se o impacto foi devastador para economias menos avançadas, por exemplo, como a portuguesa, cujos setores mais dinâmicos competiam diretamente com os produtos manufaturados baratos com que a China inundou os mercados, os efeitos foram até positivos para economias mais avançadas como a alemã, que tinham grande complementaridade com a estrutura produtiva chinesa – importavam produtos baratos para o consumidor alemão e exportavam máquinas e equipamentos sofisticados para o desenvolvimento industrial chinês.

Agora, a China tornou-se no líder mundial de exportação de automóveis e consegue fabricar máquinas e equipamentos até 30% mais baratos que os alemães, com uma qualidade semelhante. Uma investigação recente estima que, entre 2013 e 2021, o Índice de Semelhança de Exportações da China com a Alemanha aumentou de 65% para 80%, mostrando que se tornou numa concorrente direta da Alemanha, nomeadamente em segmentos de alta tecnologia, o que torna muito vulnerável ao segundo choque comercial chinês.

A China é líder, de longe, no fabrico de tecnologias para a transição climática, como baterias de lítio, painéis solares, turbinas eólicas e veículos elétricos, assim como na sua exportação, com quotas de mercado sem paralelo com outras economias avançadas. A transição energética mundial, com todas as suas limitações, está a ser feita em grande medida com produtos chineses. Os avanços recentes da China em tecnologias de computação avançadas, chips e semicondutores, e Inteligência Artificial estão a deixar os EUA alarmados, tendo intensificado a guerra comercial e imposto restrições à exportação de componentes críticos por parte de empresas norte-americanas a empresas chinesas, nomeadamente à Huawei.

O jornalista da Mediapart Romaric Godin relata que as exportações de bens da China nos primeiros três meses de 2026 aumentaram 21,8% em relação ao período homólogo, impulsionadas em primeiro lugar pelos produtos de alta tecnologia (+26,9%), mas também pelos automóveis e barcos. As importações por parte da União Europeia aumentaram significativamente enquanto as exportações para a China estão estagnadas. A China está a ganhar quota de mercado à UE e pode devastar setores importantes como o automóvel e as máquinas e equipamentos.

A afirmação da China como uma potência industrial de ponta ameaça fragilizar uma economia europeia já pouco dinâmica. A questão é o que fará a UE: continuar a insistir no neoliberalismo e aceitar o seu declínio, ou renunciar a estes dogmas e investir numa política industrial séria para desenvolver setores úteis à sociedade que fomentem um crescimento justo e sustentável.

Diogo Machado
Sobre o/a autor(a)

Diogo Machado

Mestre em Relações Internacionais e trabalhador do setor financeiro