O que diz a nova estratégia da política internacional dos EUA

09 de janeiro 2026 - 16:05

Se não for possível reverter a política enunciada por Trump, a humanidade só tem duas opções: ou morrer na próxima Terceira Guerra Mundial ou morrer num mundo apocalíptico de autodestruição das bases físicas da existência humana.

porMatthias Schindler

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Assinatura de Trump sobre mapa do mundo
Assinatura de Trump sobre mapa do mundo

Em novembro de 2025, a administração Trump publicou a nova Estratégia Nacional de Segurança dos EUA (National Security Strategy of the United States of America). Este documento explica muito claramente a atual orientação da política externa dos EUA. No seu prefácio, o presidente Trump declara que quer “restaurar a força Americana em casa e no mundo” e promete que vai “fazer América mais segura, mais rica, mais livre, maior e mais poderosa de sempre”.

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Concretamente menciona quatro assuntos centrais, que já foram postos em marcha, para mostrar as suas atuações futuras: 1. recorrer às forças armadas contra os imigrantes (chamando-lhes de “invasores”); 2. investir mais que um bilião de dólares no armamento; 3. ter convencido os seus aliados a gastar 5 por cento do PIB no seu próprio armamento; e 4. impor taxas de importação de uma dimensão histórica.

Os propósitos principais da nova estratégia dos Estados Unidos são “continuar como a economia mais forte do mundo, desenvolver as tecnologias mais avançadas, reforçar a saúde cultural da nossa sociedade e mobilizar as forças armadas mais potentes do mundo.” Essas metas devem ser alcançadas, se for possível, através de acordos económicos vantajosos para os EUA com “aliados e parceiros” ou, se for necessário, “aplicando força letal”.

O documento manifesta que em todos os aspetos dos princípios políticos e das atuações do governo estadunidense “América e os Americanos sempre vêm em primeiro lugar”. O que está denominado “paz através da força” revela-se como reivindicação dos Estados Unidos da dominação do mundo inteiro, seja através de relações económicas, de ameaças militares ou de guerras que querem “ganhar de maneira determinante e rápida”.

A nova linguagem da administração pretende reconhecer que os EUA não podem nem querem impor o seu sistema político-social-económico em todos os outros países do mundo. Mas isto significa na realidade, que as mudanças democráticas já não pertencem à retórica dos EUA e que aliados político-económicos como as ditaduras feudalistas árabes ou o Estado sionista israelita são parceiros bem-vindos.

O eixo central da nova orientação estratégica consiste na recuperação e no reforço do poder económico mundial dos Estados Unidos. Para conseguir isto precisam duma política capaz de limitar o aumento económico e militar da China. E para isto não só precisam da própria força militar, mas também de aliados que investem muito mais recursos no seu armamento do que tinham feito até agora.

A nova estratégia não está dirigida contra a Europa, mas numa maneira de repartição de tarefas, os EUA querem concentrar os seus esforços no controlo económico e político absoluto do continente americano, enquanto os seus aliados europeus e no Pacífico – principalmente Japão, Taiwan, Coreia do Sul e Austrália – têm que fazer o seu próprio esforço para cercar a China.

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Neste contexto também querem um entendimento com a Rússia porque os valores como a democracia ou o direito internacional expressamente já não pertencem ao vocabulário da política de Washington. A soberania da Ucrânia é subordinada aos interesses geoestratégicos dos EUA. Por isto é “de suma importância para os Estados Unidos negociar e alcançar o fim das hostilidades na Ucrânia.”

O documento alega que “os assuntos de outros países nos preocupam somente enquanto as suas atividades são uma ameaça direta contra os nossos interesses”. Não obstante, afirma claramente que os EUA vão continuar o apoio militar a Israel e que não vão aceitar qualquer tentativa de bloquear o trânsito marítimo em qualquer parte do mundo nem de impedir o acesso dos EUA a terras raras ou minerais críticos para a sua economia.

A primeira prioridade da nova estratégia é restabelecer o domínio político e económico dos Estados Unidos sob o que denominam o “Hemisfério Ocidental” e que percebem como todos os países do continente americano, incluindo a Gronelândia que não está mencionada explicitamente. O documento proclama o “Corolário Trump à Doutrina Monroe” que os Estados Unidos vão “restaurar a supremacia americana no Hemisfério Ocidental […] e o nosso acesso aos lugares essenciais desta região. Vamos impedir que concorrentes não-hemisféricos consigam introduzir forças [armadas] ou outras capacidades ameaçadoras ou que possuam ou controlem recursos estrategicamente vitais no nosso Hemisfério”.

A segunda prioridade menciona o Indo-Pacífico como o “principal campo de batalha económico e geopolítico”. No fundo trata-se de limitar a ascensão económica, política e militar de China através de novas alianças com países no Sudeste da Ásia e do reforço das relações económico-militares com os históricos parceiros norte-americanos naquela região. A meta principal é “manter a nossa condição como economia mais forte do mundo”. Isto não só inclui várias formas de colaboração económica, mas também de um aumento significativo militar, em especial no contexto das bases militares estadunidenses nas ilhas da região que representam uma ameaça permanente contra a China.

A Europa deve, de acordo com a nova estratégia de Washington, procurar uma estabilidade estratégica com a Rússia, aumentar consideravelmente as suas despesas para o seu armamento, abrir os seus mercados para produtos norte-americanos e abandonar o conceito da NATO como órgão que está a crescer permanentemente.

Os aspetos mais significativos da nova estratégia dos Estados Unidos são três elementos:

Primeiro, a rejeição – expressamente admitida – da ONU, da Carta das Nações Unidas, do Direito Internacional e também dos Direitos Humanos. Essas instituições, que já não satisfazem muitas das tarefas que supostamente devem cumprir, agora devem ser substituídas por regras políticas, económicas e militares completamente subordinadas aos interesses das classes dominantes dos EUA.

Segundo, a negação da existência de uma crise ecológica mundial, declarando que “rejeitamos a ideologia desastrosa das ‘alterações climáticas’ que tinha causado tantos danos à Europa, está a ameaçar os EUA e ajuda os nossos adversários”. Orienta à produção energética na base de “petróleo, gás, carvão e energia nuclear”.

Terceiro, a orientação para um armamento colossal, o anúncio de usar o armamento e as forças militares dos EUA para ameaçar poderes que são considerados adversários económicos ou políticos, bem como a declarada disposição de aplicar a força letal militar fora de qualquer regulamento ou contrato internacional.

Se não for possível reverter esta política, a humanidade só tem duas opções: ou morrer na próxima Terceira Guerra Mundial ou morrer num mundo apocalíptico de autodestruição das bases físicas da existência humana.

Matthias Schindler
Sobre o/a autor(a)

Matthias Schindler

Ativista da solidariedade internacional. Politólogo.