1 - A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirma que, se Trump ordenar um ataque militar à Gronelândia, é o fim da NATO. Apesar do óbvio da situação, saúda-se a frontalidade da governante. Note-se que o governo de Montenegro, e isto pode garantir-se por antecipação, não concluiria pelo fim da NATO como o faz a primeira-ministra da Dinamarca. Tal é a subserviência da elite económica e política de Portugal ao Império de Washington que tudo sai de joelhos. O óbvio cede perante os interesses, ainda para mais com chefes políticos educados na cobardia da subordinação. Olhem para Paulo Rangel, com uma vértebras de plasticina quando toca a Israel e aos Estados Unidos e as sucessivas e trágicas violações do Direito Internacional. De Gaza a Caracas, o óbvio não é o óculo do governo PSD/CDS. Sem estranheza, sempre com o aplauso da extrema direita fascista e da direita extrema liberal.
2 - Acontece que, quando Trump disse há já algum tempo que não cumpriria o artigo 5º do Tratado da NATO, matou essa organização que nunca foi defensiva. Disse-o antes e depois de impor um gasto de 5% do PIB em despesas militares a todos os membros da NATO, exceto a Espanha que não aceitou. Trump disse não acreditar que algum país europeu socorresse a América em caso de ataque ao seu território e não garantia reciprocidade. O artigo 5º prevê precisamente uma defesa coletiva: todos os membros da Aliança Atlântica se prestam a defender terceiros, no caso de um eventual ataque, a qualquer um. No caso da Gronelândia, é ainda mais patético, tratando-se de uma agressão de um membro contra outro da dita coisa.
3 - Se bem me lembro, a NATO já tinha morrido logo a seguir à posse de Trump como presidente dos EUA quando ameaçou a soberania do Canadá, outro membro da NATO. A surpresa do bullying levou a uma vitória eleitoral inesperada do candidato mais anti-Trump para o governo de Ottawa. Logo depois, a NATO foi morrendo várias vezes com a política hostil aos europeus em matéria de tarifas comerciais ou com a célebre cimeira do Alasca onde Trump e Putin se exibiram em dueto. O rumo do Alasca excluiu o resto da NATO de toda a negociação para um cessar-fogo na guerra russa de agressão à Ucrânia. A chamada Coligação de Vontades, que reúne seis países europeus, é uma espécie da Liga B a que Trump destina a reconstrução da Ucrânia, enquanto os Estados Unidos garantem a segurança militar e a extração de minérios.
4 - Há várias razões para que a União Europeia + Reino Unido não se aprontem para uma autópsia da NATO. Uma razão é a esperança que um qualquer Biden suceda a Trump e reconduza a NATO ao seu leito original. Essa expetativa não leva em conta que o futuro democrático dos EUA é bastante incerto, e mesmo que o Partido Democrata alcance a Casa Branca, as prioridades americanas já não incluem a Europa na competição com a China. Outra razão é a invocada compra de armamento aos Estados Unidos, alegando-se que a Europa não produz ainda essas armas, o que nem irá produzir enquanto não se libertar da tecnologia supervisionada pelo Pentágono.
5 - Estas e outras razões são expendidas por Paris, Berlim e Londres, tentando embalsamar a NATO para memória futura. Contudo, a principal razão para esse complexo de “não sei se fico, não sei se saio” estará nas bases militares que o Império tem por toda a Europa Ocidental (exceto a França). São 37 bases americanas de todos ramos militares, correspondendo a cem mil tropas estacionadas. A hegemonia americana torna-se tutela e condicionamento. Os analistas liberais têm interpretado a política de Trump como a expressão do unilateralismo no mundo, ou seja, a América age por si, dispensando os aliados da NATO. Escamotearam que o unilateralismo começa dentro da Europa, onde Trump quer decidir muito do que se passa dentro do Velho Continente. Isso mesmo é referido na novel Estratégia de Segurança dos Estados Unidos. Creio ser por isso que a NATO foi morta a golpes seguidos, mas solene e cobardemente instituída como “moribunda 5%”.
6- Insolitamente, uma organização em morte política torna-se ainda mais perigosa para a paz e para os direitos dos povos. A corrida aos armamentos intensifica-se e os Estados Unidos podem a qualquer momento trazer alguns dos ex-parceiros de arrasto em qualquer aventura, agora despromovidos de satélites a carne para canhão sob a batuta de Mark Rutte, um descarado avençado de Mar-a-Lago. Afinal, aprenderam com Putin o jeito que dá usar norte-coreanos na frente da batalha na Europa.