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“O que custava mais era saber quem estava a poluir e ninguém se interessar. Isso mudou.”

No Fórum Socialismo 2018, João Camargo, investigador em alterações climáticas, entrevistou Arlindo Marques, ativista ambiental da ProTejo.

Quando é que começaste a envolver-te com o Tejo, a estar presente com tanta assiduidade, a estar tão envolvido?

Comecei há três anos, finais de 2014, início de 2015. Comecei a reparar, no rio Tejo, que as águas não iam boas, porque eu nasci à beira do Tejo, numa aldeia chamada Ortiga, no concelho de Mação. Sempre nadei, sempre pesquei, os meus avós eram pescadores, a minha mãe vendia peixe, e nunca vi nada de especial, vi um rio perfeitamente normal, com peixe, com vida. Finais de 2014, início de 2015, começo a aperceber-me de que a água estava castanha, com uma espuma que eu intitulei como “a espuma da morte”. Era a jusante da barragem de Belverde, exatamente ao pé da Ortiga, de margem a margem, todos os dias aquilo. Os pescadores foram falando comigo, e eu fui reparando, andei nos barcos, e cada vez pior. Faltava saber quem é que estava a poluir o Tejo, porque não aparecia a informação das autoridades.

Faltava saber quem é que estava a poluir o Tejo, porque não aparecia a informação das autoridades.

No dia 13 de maio de 2015, apareceram montes de peixes mortos na barragem de Belverde. Fui ao bairro dos pescadores, onde estavam a fazer um buraco grande com uma máquina e a enterrar peixe. Se o rio já ia cor de coca-cola, cor de vinho tinto, se morreu peixe, alguma coisa se estava a passar.

A partir daí, comecei a publicar sempre no Facebook, a ter alguma aceitação das pessoas e muitas visualizações. Estamos a falar do nosso maior rio, que estava poluído. Mas parece que as autoridades nunca se interessaram.

Estamos a falar do nosso maior rio, que estava poluído. Mas parece que as autoridades nunca se interessaram.

Conseguiu-se que, com as publicações, fossem lá os deputados, uma Comissão de Ambiente, e que se começasse a falar da sustentabilidade do rio Tejo. Poluição, água suja, peixe morto, alguma coisa se estava a passar no rio. Os deputados deslocaram-se exatamente à zona onde enterraram os peixes e ouviu-se falar em sustentabilidade. A partir desse momento, uma Comissão de Ambiente, aliás, da APA, foi ao terreno e tirou os diversos focos de poluição do rio, via GPS, principalmente desde a Vila Nova da Barquinha até Vila Velha de Ródão.

Fui ao bairro dos pescadores, onde estavam a fazer um buraco grande com uma máquina e a enterrar peixe. Se o rio já ia cor de coca-cola, cor de vinho tinto, se morreu peixe, alguma coisa se estava a passar.

Desses focos apareceram a Fossa 1 e Fossa 2 da Ortiga, que eram ETARs, de Abrantes, as queijarias do Pego e Vila Velha de Ródão. A Celtejo, uma empresa de celulose, seria uma das empresas que mais estava a poluir o rio.

Mas faltava ainda mostrar as imagens dessa fábrica, não era só o disse-que-disse, que eu até tinha contra mim o Presidente de Vila Velha de Ródão e o Presidente da Câmara de Castelo Branco, que a poluição vinha toda de Espanha.

Um pescador perguntou-me se podia lá ir num domingo à tarde. Chovia torrencialmente e eu lá fui a Vila Velha. No cais de Vila Velha, parecia estar a nascer um vulcão no fundo do rio. Era uam coisa castanha, que filmei.

 

Havia um tubo que saia diretamente no meio…

Exatamente no meio, e são uns tubos que estão a 20 metros de fundura, uns silos grandes, com quase um metro e meio de diâmetro. Publiquei isso, teve muitas visualizações e chamou a atenção. Ficou identificado o maior foco poluidor do Tejo.
 

Que impacto teve este envolvimento de três anos na tua vida?

É uma experiência com altos e baixos. Tive processos instaurados. Mas teve coisas boas, conhecia muita gente, notei que as pessoas estão mais atentas. Antes disto, nada se passava. O que custa mais ali era saberem quem estava ali a poluir e ninguém se interessava em mostrar, mesmo na comunicação social.

O que custa mais ali era saberem quem estava ali a poluir e ninguém se interessava em mostrar, mesmo na comunicação social.

A Centroliva foi obrigada a encerrar, com uma providência cautelar. A Fabrióleo de Torres Novas também. O resultado é que deixou de cheirar mal, o Tejo melhorou muito.
 

Como avalias os conflitos de interesses que existem em relação a esta questão?

As empresas faturam muito dinheiro. O próprio Primeiro Ministro disse em janeiro do ano passado que precisavam daquele dinheiro para a economia, para o nosso PIB. Mas não podemos estar a escolher o dinheiro e esquecer o ambiente. E o que se passa aqui passa-se noutros lados.

Acho que as pessoas têm de se mobilizar, tem de se denunciar, e é preciso resolver a legislação ao nível do ambiente. A que há é pouca e os prevaricadores conseguem nunca pagar nada, ou pagar coimas irrisórias de 500 euros.

Acho que as pessoas têm de se mobilizar, tem de se denunciar, e é preciso resolver a legislação ao nível do ambiente. A que há é pouca e os prevaricadores conseguem nunca pagar nada, ou pagar coimas irrisórias de 500 euros.

Aqui em Leiria, na Ribeira do Milagres, as empresas de suinicultura que lançam tudo aqui para esta ribeira, para este rio, para o rio Liz, foram condenados a 400 mil euros, sem direito a ir para tribunal, já não já hipótese de nada, portanto até aí eles recorriam, porque a legislação os facilitava, nem sabemos como é que eles levaram esta multa grande.

 

Temo que, quando deixar de haver pressão e o tema sair do foco mediático, haja uma tendência para voltar a haver vários problemas. Como estão a preparar a maré baixa na ProTejo? Até porque agora há a ideia de fazer uma nova barragem, naquele projeto Mais Tejo, de algum modo copiar o modelo do Alqueva ali para a zona do Ribatejo, e acho que há problemas nesta compatibilização. O que é que vocês estão a pensar fazer de futuro para manter a força que conseguiram criar nos últimos tempos?

Apesar se não termos a mesma atenção mediática que anteriormente, nunca desistimos. Ainda ontem tivemos uma reunião onde eu denunciei o que estão a fazer na Fabrióleo, para que seja a ProTejo a mandar as queixas, não uma pessoa sozinha, para serem nossos os processos.

Apesar se não termos a mesma atenção mediática que anteriormente, nunca desistimos. Ainda ontem tivemos uma reunião onde eu denunciei o que estão a fazer na Fabrióleo, para que seja a ProTejo a mandar as queixas, não uma pessoa sozinha, para serem nossos os processos.

De resto, continuamos atentos, eu continuo atento, a nossa rede, da ProTejo, continua atenta, nunca parámos. Mesmo por dentro, há muitas pessoas a ligarem-me e a perguntar o que têm de fazer. Queixam-se, por exemplo, do Rio Tinto, que também está a poluir o Tejo, e dou-lhes as informações que tenho. Ligam-me de diversos pontos do país para os ajudar, e eu às vezes digo que é difícil o crime ambiental, mas explico-lhes o que podem fazer. Há que continuar a denunciar e, se for preciso, mandem-me fotografias. Também posso ir ao local.

É bom que as pessoas de redes similares à ProTejo também denunciem. A linha ambiente está disponível 24 horas por dia.

 

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