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O falhanço da extrema-direita nas eleições da Irlanda

Nas recentes eleições legislativas irlandesas, a extrema-direita não conseguiu capitalizar o voto de protesto. John Molyneux analisa as causas desse falhanço e aponta os problemas com que a luta anti-fascista se deparará no futuro.
Pintura anti-racista em Belfast. Agosto de 2010.
Pintura anti-racista em Belfast. Agosto de 2010. Foto de Machine Made/Flickr.

“O crescimento da extrema-direita” tem sido um cabeçalho familiar nos últimos anos em lugares que vão desde o Brasil à Índia, Itália ou Espanha. Ao longo do último ano, mais ou menos, tem havido fundamento para preocupações de que algo similar possa estar prestes a acontecer na Irlanda – o ataque incendiário no Centro de Acolhimento de Refugiados em Roosky, o fenómeno Peter Casey nas eleições presidenciais, uma marcha fascista concorrida em Belfast, a agitação em Oughterard, as mensagens racistas subliminaresi Noel Grealish e Verona Murphy, as diatribes de Gemma O’Doherty e por aí adiante.

Felizmente, uma das características mais notáveis das históricas eleições gerais recentes foi o falhanço completo da extrema-direita em conseguir qualquer tração séria.

Os factos são duros. O Partido Nacional fascista – são na realidade fascistas – liderado por Justin Barrett (anteriormente da Youth Defence) obteve 0,2% do conjunto dos votos, 4773 em todo o país. O seu melhor resultado foi em Longford-West Meath onde obtiveram 1,75%. O Irish Freedom Party, liderado pelo convenientemente chamado Hermann Kelly, e por Ben Gilroy, anteriormente da Democracia Direta e dos Coletes Amarelos Irlandeses teve 0,3% dos votos nacionais. O seu melhor resultado foi 2% no noroeste de Cork – uma área altamente conservadora e um dos poucos lugares não ameaçados pelo crescimento do Sinn Féin; o seu pior resultado foi um total de 119 votos em Dún Laoghaire.

De forma não surpreendente, a famosa Gemma O’Doherty, apresentando-se como independente em Dublin Fingal, esteve entre os candidatos mais bem sucedidos da extrema-direita mas ainda assim obteve apenas 1,97% (1252 dos votos de primeira preferência)ii. Presumivelmente escolheu Dublin Fingal devido à população migrante em Balbriggan. John Waters em Dún Laoghaire obteve apenas 1,5%.

Foi particularmente agradável ver o desempenho patético de Peter Caseyiii. Sem problemas de dinheiro, Casey que tinha obtido mais de 20% nas eleições presidenciais com base no seu racismo anti-Traveller,iv apresentou-se arrogantemente em dois círculos eleitorais – o seu círculo de residência em Donegal e Dublin Oeste (escolhido mais uma vez pela sua população migrante). O resultado – apenas 1143 primeiras preferências em Donegal e umas miseráveis 495 em Dublin Oeste.

Igualmente notável é o facto de que em Sligo-Leitrim, Martin Kenny do Sinn Féin, cujo carro foi incendiado depois de ter dado as boas-vindas aos refugiados em Roosky, facilmente ganhou a votação com 15035 primeiras preferências, enquanto o candidato do Partido Nacional apenas teve 451 e Renua, que também tem chafurdado numa retórica racista recentemente, conseguiu uns verdadeiramente tristes 75.

A única verdadeira exceção significativa a este padrão de falhanço foi a eleição de Noel Grealish em Dublin Oeste com 13,3% das primeiras preferências e de Verona Murphy em Wexford, com 7,8 % (5825) de primeiras preferências na 11ª contagem.

Aqui deve notar-se que tanto Grealish como Murphy tinham estabelecido nichos eleitorais substanciais numa base não racista antes de fazer os seus comentários racistas. Por outras palavras, ao contrário de Casey ou O’Doherty, o racismo não era a sua principal ou única estratégia de marketing.

Outro indicador significativo da marginalização da extrema-direita foi a sondagem à boca das urnas da RTE/The Irish Times que inquiriu qual o tema mais importante na sua tomada de decisão eleitoral. A imigração ficou no fundo da lista apenas com 1%.

Este catálogo de falhanços levanta a questão do porquê. Porque é que a Irlanda mostrou tanta diferença de tantos outros países a este respeito? Acredito que podemos identificar três causas principais.

O primeiro está enraizado na história da Irlanda. O nacionalismo irlandês cresceu e desenvolveu-se em oposição ao Império Britânico e ao colonialismo britânico. Era um nacionalismo dos oprimidos e não dos opressores. Isto deu um caráter fundamental diferente em termos políticos relativamente aos nacionalismo britânico, alemão, francês ou americano. O primeiro destes, ligado inextricavelmente ao imperialismo era profundamente reacionário e racista e, quando puxado um pouco mais adiante, conduzia e conduz na direção do fascismo. A Union Jack era a bandeira não apenas da Grẽ-Bretanha mas do Partido Conservador e do British Nationalist Party. Houve sempre um cruzamento entre a direita do Partido Conservador e o fascismo britânico, tal como sempre houve ligações entre os Legalistasv e os Nazis.

Em contraste, o nacionalismo irlandês esteve sempre associado ao lado progressista da história. Este pode ser rastreado até ao United Irishmenvi e às ligações com a Revolução Francesa. O próprio rótulo “republicanismo” é uma expressão disto e à medida em que a luta pela liberdade irlandesa se radicalizava, também se tornava mais predominantemente de esquerda, até chegar a Larkin e a Connolly, ao soviete de Limerick e à revolução irlandesa. Junto com isto veio uma identificação ao anti-racismo. O que remonta a Daniel O’Connell dar as boas-vindas ao ativista norte-americano anti-escravatura Frederick Douglas e a Roger Casement condenar as atrocidades belgas no Congo. O que se pode ouvir na letra de ‘Come Out ye Black ‘n Tans’vii:

Venham dizer-nos como matavam os pobres árabes aos pares

Como os Zulus tinham lanças e arcos

Como de forma destemida os enfrentaram com os vossos canhões de 16 libras

E assustaram os nativos até à medula.”

Também estava presente na luta pelos Direitos Civis no final dos anos 60 que foi inspirada na luta pelos Direitos Civis nos EUA e pode ser vista ainda nos murais de Belfast Ocidental e nas ligações à luta anti-apartheid. É um fator muito importante da força do apoio à causa da Palestina que é evidente na Irlanda.

Isto não quer dizer que não tenha havido uma tradição de racismo na Irlanda. Tem existido desde há muito um racismo profundamente enraizado contra os Traveller, houve o racismo dos Blueshirtsviii e houve um racismo “popular” espalhado de que “devemos cuidar dos nossos”. Mas esta diferença histórica privou o racismo e o fascismo irlandeses da base organizativa pronta – especialmente apoiada na pequena-burguesia – providenciada pelo nacionalismo francês e pela Frente Nacional ou pelo nacionalismo americano de Trump e pela alt-right.

Em segundo lugar, há o facto de que quando ocorreu o colapso e nos tempos a seguir, quando o duopólio estável do Fianna Fáil e Fine Gael começou a romper, foi a esquerda e particularmente a extrema-esquerda, o People Before Profit e a Aliança Anti-Austeridade etc., junto com o Right 2 Water, que melhor conseguiram articular e focar a raiva da classe trabalhadora contra a austeridade e conseguiram organizar e dirigir a resistência nas comunidades na luta contra os cortes as taxas de habitação e da água. Este papel dirigente da esquerda e o facto desta esquerda ser geralmente fortemente anti-racista foi muito importante para bloquear o caminho da ideias e organização racistas que estiveram presentes, por exemplo, no movimento das taxas sobre a água.

Em terceiro lugar, há um historial da esquerda irlandesa e dos anti-racistas irlandeses de combaterem e confrontarem de facto os racistas e os fascista onde quer que tenham tentado manifestar-se, marchar e assediar mesquitas. Isto remonta pelo menos à mobilização contra o fascista negacionista do Holocausto, David Irving, quando foi convidado para o Trinity College de Dublin em 1989 e outra vez em 2002 e foi visto no seu melhor quando 12000 anti-racistas com a ajuda dos adeptos do Bohemian FC, esmagaram a tentativa do Pegida da Irlanda de marchar na O’Connell St em fevereiro de 2016. O mesmo aconteceu em Belfast em junho de 2018. Confrontando-os e de forma crucial repetidamente suplantando os seus números, os anti-racistas e a esquerda humilharam e desmoralizaram a extrema-direita e, até agora, conseguiram prevenir que ganhassem o impulso inicial que serviria para se lançarem como alternativa credível.

Contudo, cada uma destas explicações traz consigo um aviso. Em primeiro lugar, o legado histórico permanece importante mas a Irlanda já não é uma colónia oprimida.

Felizmente, a Irlanda não teve colónias ou império mas a nossa classe dominante e sistema político identifica-se fortemente com o imperialismo dos EUA (veja-se o uso do aeroporto de Shannon pelos militares dos EUA) e o crescente imperialismo da União Europeia que pode ser visto na “Fortaleza Europa” e no número de mortos dos refugiados no Mediterrâneo (que os eurodeputados do Fine Gael votaram para que continue). Isto cria uma certa base material para a identificação com noções de supremacia branca e hostilidade com os imigrantes.

Em segundo lugar, a capacidade da esquerda de liderar a articulação da raiva da classe trabalhadora não pode ser tomada como certa ou olhada como segura. Tal como temos vindo a dizer, havia uma corrente racista submersa em certos grupos do movimento das taxas de água e vimos o potencial para o racismo ganhar tração popular em acontecimentos como a mobilização contra o Centro de Acolhimento de Refugiados em Oughterard.

Em terceiro lugar, a tática de confrontar a extrema-direita nas ruas é necessária mas tem os seus limites. Deve ser usada de forma judiciosa, não obsessivamente e acarreta o risco de se tornar numa perseguição infinita de bandos minúsculos e irrelevantes de fascistas por pequenos grupos anti-fascistas à custa da construção de um desafio sério de esquerda ao sistema que cria o racismo.

Resumidamente, a esmagadora derrota infligida à extrema-direita nas eleições recentes é excelente. Mas não há espaço para complacências e a campanha anti-racista tem de continuar, combinada com a construção de uma alternativa de esquerda.

 

John Molyneux é editor da Irish Marxist Review e professor reformado da Escola de Arte, Design e Media da Universidade de Portsmouth.

Artigo publicado originalmente em Rebel News.

Tradução de Carlos Carujo.

Notas:

i O autor utiliza a expressão “dog-whistle” que não tem tradução direta em português. Refere-se ao uso de uma linguagem codificada que parece ter um sentido para o público em geral e outro para um subgrupo específico.

iiPara pormenores sobre o sistema eleitoral irlandês leia este artigo de Jorge Martins.

iiiPeter Casey é um empresário que se tornou famoso no Dragon's Den irlandês, um programa de televisão em que empresário investem em ideias de negócio que lhe são apresentadas por candidatos, um formato que em vários países, incluindo Portugal, se chamou também Shark Tank. Nas eleições presidenciais de 2018 tinha surpreendido, sendo o segundo candidato mais votado no país.

ivOs Travellers da Irlanda, conhecidos também como minkiers ou pavees, são um grupo étnico autóctone, tradicionalmente nómada que, por vezes é confundido com os ciganos.

vOs legalistas são os defensores de que a Irlanda do Norte é parte da Grã-Bretanha.

viA Sociedade dos Irlandeses Unidos foi uma organização do século XVIII, inspirada nas revoluções francesa e americano com o objetivo de construir uma República independente na Irlanda que organizou uma revolta em 1798.

viiBlack and Tans foram uma força de elite recrutada pela polícia britânica entre os veteranos de Primeira Guerra Mundial para combater os independentistas. Ficaram conhecidos pela brutalidade da sua atuação contra civis.

viiiBlueshirts é o nome pelo qual ficaram conhecidos os grupos paramilitares que protegiam alguns dos movimentos políticos que apoiaram, nos anos 1920 e 1930, o acordo com os britânicos que resultou na criação da República da Irlanda.

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