Está aqui

O espaço e o tempo da coreografia: O duo clandestinidade e confinamento

Este foi o confinamento de mais de 40 anos que a ditadura fascista impôs aqui e nas colónias. E é neste palco que se lançou generosamente a clandestinidade, ágil e agindo, um passo aqui, agora quieta, outro para lá. Por Ana Rosenheim.
Ana Rosenheim a trabalhar na fábrica de lanifícios na Covilhã, 1973.
Ana Rosenheim a trabalhar na fábrica de lanifícios na Covilhã, 1973.

 

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


O espaço e o tempo da coreografia: O duo clandestinidade e confinamento

O confinamento não entra em cena. Ele já é cena, a cena. Ela é sombria, a atmosfera poeirenta, o silêncio pesado. Por todo o lado olhos a espreitar, as palavras ora silvando ora sussurradas, contrapõem-se a ordens gritadas e as fardas quadradas agitam-se em cada esquina. A violência espalha-se pelo chão do palco, óleo que alastra em surdina. Aqui neste cenário não entra a doçura, a amabilidade, a inteligência. O confinamento aqui representado, entre o neorrealismo e o expressionismo, tira-nos o alento. Este confinamento confina a vida mais autêntica a um estado vegetal sem água, sem terra, sem ar, os únicos suficientes para chegar ao dia seguinte. Nada mais.

Este foi o confinamento de mais de 40 anos que a ditadura fascista impôs aqui e nas colónias. E é neste palco que se lançou generosamente a clandestinidade, ágil e agindo, um passo aqui, agora quieta, outro para lá. Nesta dança das escondidas, a clandestinidade foi abrindo brechas, túneis, selando afectos com esperanças, construindo igualdades, apelando a solidariedades. Agora recolhida organiza resistências externas, e neste ofício vai deixando cair as resistências internas, construindo ignorantes desigualdades. A tela tecida era reconhecida. Os fios: generosidade/egoísmos, igualdades/aparências, solidariedades e traições.

Hoje o Palco é o mesmo, mas a cenografia bem diferente. Um grande mistério envolve “o novo” confinamento. Ele cerca-nos e, muitas vezes perdidos nos nossos medos, agimos cegos. Os fios desta tela são os mesmos, mas disfarçados de modernidade.

Uma das muitas histórias da clandestinidade – 1973

Para viver na clandestinidade foi-me necessário aprender a fazer teatro e a afinar a minha escuta do outro, dos outros.

Ao vir de uma cidade como Paris, eu, uma jovem cosmopolita e desenvolta em meio urbano, para uma vila (hoje cidade) operário-camponesa no interior do país tive, para não dar nas vistas, de operar uma metamorfose drástica. Tratava-se de uma questão de vida ou de prisão.

Transformei-me numa camponesa tímida, vinda de outra terra para juntar-me ao meu “marido”, com quem tinha casado recentemente. Ele encontrava-se a trabalhar numa tinturaria dessa vila que empoleirada na serra fervia de actividade, cardando lã, fiando fios, tecendo telas, dando-lhes vida com as cores fumegantes dos barris de tintura e por fim levadas dali para fora, para encher os armazéns de fazendas e para o estrangeiro. Vila ligada ao mundo pelos seus fios, e seus queijos.

Assim também eu participava deste isolamento. Tinha vindo para ficar, e aí trabalhar. Não havia retaguarda. Comecei a assistir à transformação do meu corpo mimetizado: engordei 10kg, pûs lenço na cabeça, adotei e adaptei-me à fala das gentes reproduzindo-a. Deixei o cigarro em casa para ele entrar também na clandestinidade. Organizei uma coreografia do dia-a-dia semelhante à coreografia destas mulheres valentes que habitavam e trabalhavam nas fábricas, nas quintas, na terra e em casa até a cerzir!

Os tempos já tinham vagamente evoluído quanto aos costumes, pois os emigrantes vindos da Europa traziam mudanças. Mas eu não podia arriscar e também estes costumes fingi desconhecê-los. Lavava a roupa na ribeira e punha-a a corar ao sol. Os emigrantes tinham máquina de lavar.

Assim, fui-me impregnando de “austeridade”, como a maioria das mulheres. Elas compunham um retrato bem conhecido de escassez, dureza e força reprimidas. Uma vez instalada numa casa que não tinha casa de banho (1 balde para tudo!), apresentei-me ao patrão de uma fábrica de fiação e tecelagem – “o Fiadeiro”, por indicação de um vizinho, para pedir-lhe trabalho.

Diz ele (o patrão): “Olhe, eu vou pô-la à prova e depois, se der conta do recado, fica”.

Aceitei o desafio e a nova experiência. Passado o período de experiência, e de ter andado de cá para lá, e de lá para cá, dezenas e dezenas de quilómetros atando fios com nós rápidos e firmes, dirigi-me ao patrão para então assinar o contrato.

Tinha-me esquecido que, durante este período, o patrão me empurrara com avanços dúbios e de sua corpulência contra um fardo de lãs ao qual sempre me esquivei. Fingi não perceber.

- Não posso empregá-la!
- Mas porquê se eu já consegui dominar o trabalho? – respondi.
- Não posso. Já disse. – repetiu o patrão irritado.
Pensei e respondi:
- O senhor patrão sai daqui e tem o almoço em cima da mesa à sua espera, mas eu saio daqui e não tenho nada (o que, aliás, era verdade!)
Ao que ele fez como se pensasse bastante e declarou:
- Então venha trabalhar amanhã!

A estratégia de assédio tinha falhado na primeira investida. Seria agora que iria tentar de outra maneira a sua sorte? Ou foi um relâmpago de humanidade? E foi assim que fiquei a trabalhar no Fiadeiro com identidade falsa (até 1976!), sempre vigilante.

Covilhã - Sessão de apoio aos movimentos de libertação do colonialismo português organizada pela OCMLP, 1974.

Veio o 25 de Abril como um tornado, abrindo portas e janelas, enchendo de algazarra a vila, cujo som se perdia no matraquear dos teares. Agora e agora soaram as canções e a alegria. Sucedem-se as ocupações de fábricas e de quintas. Grita-se: “O povo está com o M.F.A.”. Os soldados levantam o punho e ocupam quintas e terras em solidariedade com os assalariados agrícolas, os camponeses.

Manifestação na Covilhã, após o 25 de Abril, convocada pela célula do OCMLP e pelo sindicato dos Lanifícios.

O nosso Fiadeiro não escapa à onda revolucionária. Sequestra-se o patrão que não quer pagar às operárias, alegando não ter dinheiro. Em vez disso, quer dar alguns metros de fazenda ordinária roída pela traça! Nessa noite, a ocupação da fábrica liberta a raiva, a angústia, a ansiedade e a submissão sobre pressão da maior parte das mulheres que aí trabalhavam. Elas agora falam, sentem-se corajosas, falam abertamente num julgamento espontâneo e improvisado. Acusam o patrão. E de que o acusam? Do direito de pernada. E isto quer dizer o quê? O patrão exigia que elas passassem pela sua cama, ou no vão de uma escada, para que elas tivessem direito ao trabalho. Do “direito” ao abuso sexual ao direito do trabalho explorado!

Noite inesquecível – TUDO TINHA UMA CAUSA!

Esta foi uma imensa aprendizagem e libertação. Nunca me senti confinada, porque nunca saí da minha coreografia para a qual voluntariamente, e vencendo o medo, me dispus a bailar.

25 de Abril sempre! (em confinamento ou não)

Ana Rosenheim
Maio de 2020

(...)