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O confinamento de mulheres e homens que ousaram sonhar Abril

Uma jovem guarda recém-chegada consolava-me: “Eu tenho uma bebé da idade da sua. Percebo bem que chore mas, vai ver, qualquer dia sai”. Uma noite, depois do “recolher”, luzes apagada, eu já deitada, a porta abriu-se, a luz acendeu-se e esta guarda entrou de mansinho, e disse “Venho mostrar-lhe fotografias da minha bebé”. Por Helena Neves.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


O confinamento de mulheres e homens que ousaram sonhar Abril

Sucedeu no início de Outubro de 1969. Era quase Outono, amanhecendo um dia luminoso como se primavera fosse.

O meu marido Gorjão Duarte saiu cedo. O meu pai fora buscá-lo para ele entregar livros que eu requisitara à biblioteca da Gulbenkian na linha do Estoril; depois seguiriam cada um para o emprego.

Eu tinha de ir à Faculdade. Por isso, a nossa primeira filha, a Vanda, de três meses, estava em casa de meus pais. Mas fiquei ainda preguiçando. E a porta abriu-se, um ruído de vozes de homens e o meu pai alterado dizendo “Os senhores não entram no quarto da minha filha sem ela se vestir”. Soube logo de quem se tratava. Não tive medo no momento. Dir-se-ia que era espectadora de um filme. Uma sensação de irrealidade na respiração da manhã. A impossibilidade de denúncia tal a confiança que depositávamos no funcionário controleiro. 

Eram cinco os agentes. Logo que me vesti, levaram-me. Entretanto, haviam fechado o meu pai no escritório e nem o vi. Ficaram três na minha casa, aos quais o que chefiava disse “Quando acabarem vão à Morais Soares, nós vamos lá ter”. E então “acordei” para um pesadelo.

Em casa de meus pais, eu deixara o meu piano. Cerca de um mês antes escondera junto às teclas vários passaportes, cobertos com uma faixa bordada que a minha professora me oferecera era eu ainda menina. Acontecia que simpatizantes do Partido davam passaportes que diziam ter perdido quando iam requisitar outros. Ora naquela manhã, a minha mãe ao limpar o pó, ao contrário do habitual, abriu a tampa do teclado e viu-os. Pensou que eram de um seu primo contabilista, que também tratava de renovação de passaportes dos clientes e nos visitava frequentemente trabalhando com o meu pai lá em casa. Irritada, levantou a tampa superior que dá para o interior do piano e lançou-os para dentro. Mais tarde dir-me-ia a mim, filha ateia, “foi Deus”.

Mas eu ignorava o sucedido. Angustiadamente, na primeira semana de detenção, esperava em cada interrogatório que o inspector Tinoco abordasse a questão dos passaportes. Presos já nós estávamos, o meu temor e angústia era pelos simpatizantes que os haviam oferecido. Não suspeitava que algo mais terrível poderia ter acontecido. Logo que se entrava em casa de meus pais, via-se um busto icterício de Salazar que meu pai admirava, argumentando que “não fazia mais porque o não deixavam”. Quando os agentes chegaram lá, consideraram que a filha não merecia tal pai, mas nem por isso deixaram de vasculhar freneticamente todos os cantos e recantos. Sucedeu que nessa altura a minha avó paterna bateu à porta. Não a deixaram entrar e disseram-lhe que fosse para casa que eles lá apareceriam. A minha avó apanhou “um susto de morte” e refugiou-se em casa de uma amiga onde passou a noite. Na realidade eles não foram, porque o que tinham já lhes bastava.

A minha avó ao regressar contou ao meu pai que eu e o meu marido tínhamos guardado em sua casa uma mala de madeira fechada, pedindo-lhe segredo. Não sabia o que continha a mala mas não seria “coisa boa”. O meu pai arrombou a mala e, como me diria mais tarde, ficou “petrificado” perante o “arsenal”.

O meu avô, pai de meu pai, desde menino, fugindo da violência paterna, trabalhara desde os onze anos no cemitério do Alto S. João, evoluíra e, até falecer, tivera uma oficina de canteiro. Houve uma família que lhe encomendara a renovação de um jazigo mas nunca mais aparecera. Daí que o meu avô tivesse guardado a chave do jazigo. Como o meu avô fizera muitos amigos entre os trabalhadores do cemitério, o meu pai concluiu que o referido jazigo era ideal para guardar as munições. Assim, com a cumplicidade de guardas do turno da noite, a mala ficou “jazendo” numa urna desse jazigo, bem até depois do meu marido ser liberto da prisão no Forte de Peniche. Escolhemos a hora de almoço, menos movimentada, entrando ele no jazigo onde ficou fechado à procura nos caixões (o meu pai não se recordava bem em que caixão do lado direito escondera a mala). Eu ficara cá fora e se se aproximava alguém, tossia.

Quando éramos detidos, o primeiro “passo” era a consulta nos Serviços Clínicos da Cadeia de Caxias, cujo clínico averiguava as condições de saúde através de análises e RX cardíaca e pulmonar, para a tortura do sono e eventualmente outras. Eu estivera mais de sete meses na cama por ameaça de aborto que já se verificara na primeira gravidez precocemente anulada. Encontrava-me ainda frágil. Quando estava no curso de Filosofia na Faculdade de Letras era leccionada uma cadeira de Introdução à Psicologia, com as aulas teóricas a cargo de Moreira de Sá versando sobretudo o livro que escrevera sobre o Q.I. “demonstrando” a menor inteligência inata dos negros, e com as aulas práticas dadas por um também medíocre professor, em cuja bibliografia surgia uma edição francesa sobre psicofarmacologia, que eu tinha conseguido encomendar. Ele nunca focou o tema nas insípidas aulas. Mas o livro, creio que da Que sais-je, era fascinante. Decidi na consulta referir sintomas que constavam desta minha leitura. O clínico receitou-me um “arsenal” de comprimidos que uma das guardas trazia à cela e cuja toma vigiava. Tornei-me perita em não ingeri todos. Depois do 25 de Abril, na Torre do Tombo, no documento clínico do meu ficheiro prisional, vi que escrevera: “Por ora não se aconselha a privação do sono”. O problema é que, a determinada altura, os sintomas simulados começaram a parecer reais. Ao fim da tarde, antes de acenderem as luzes da cela, comecei a ver as manchas do chão a saltar. Sabia que tal era impossível mas parecia que as sentia abaixo do joelho. 

A Cadeia de Caxias situava-se no alto. Da minha cela via a estrada, os carros, a circulação mais intensa durante a semana. Não vislumbrava uma réstia de mar. Eu era a única recém-prisioneira. Na cela ao lado, outras companheiras desconhecidas cumpriam pena. Comunicávamos na casa de banho, batendo com a ponta de escova de dentes e mais tarde com a caneta ou lápis. Cada toque correspondia a uma letra do alfabeto. Para o H eram seis toques, imaginem o resto. Era muito complicado. E havia sempre a vigilância feroz da maior parte das guardas que, subitamente, abriam o postigo, um ruído metálico sobressaltando-nos. As piores eram a chefe das guardas, Maria José, de meia-idade ou parecendo-o, e uma jovem que implicava com o facto de eu fazer ginástica na cela e quis proibir-me, embora eu exigisse o regulamento, que nunca me foi cedido.

Todos os dias, exceptuando ao fim de semana e à quarta feira, dia de visita de familiares, havia um momento de inquietação particular. Depois do almoço, cerca das duas horas, se o som do telefone chegava à cela, eu que era a única detida sem julgamento, sabia que a guarda abriria a porta e diria “Vai a Lisboa”.

Fui muitas vezes a Lisboa nos primeiros dois meses. A equipa de agentes era chefiada pelo inspector Tinoco. Recordo tardes passadas exaustivamente com o mesmo diálogo. Ele: “Então a senhora é militante do Partido Comunista?”, eu negando. Ele: “Mas gostava de ser?” Eu: “O senhor está a convidar-me? ”. Ele: “ A polícia não faz esses convites". O chefe de brigada, Capela, era brutal. Interrogavam. Insistiam. Saíam e regressavam. Permanecia na sala uma agente, inicialmente muito “compassiva”, aconselhando-me a falar para ir para junto da minha filha tão bebé, a precisar da mãe, que eu não tinha culpa, fora “influenciada”, afinal os maridos é que mandam. Eu nem respondia, nem a olhava. Notando o fracasso dos seus “conselhos”, começou a ser extremamente ordinária quando me acompanhava à casa de banho situada no interior da sala, apenas separada por um corredor e sem porta. Decidi não ir à casa de banho durante estas longas tardes na António Maria Cardoso. Daí resultou ter contraído uma atonia das paredes da bexiga, um aperto na uretra distal, outro na proximal, dois divertículos. Mais tarde fui sujeita a várias intervenções cirúrgicas, mas periodicamente subsistem crises. Algo que pouco se menciona são as marcas físicas e psicológicas que as prisões deixaram, particularmente nas camponesas do Couço e em militantes clandestinas.

Era penoso desconhecer o que estava a acontecer com o meu marido. O que lhe fariam? Porém, a grande dor, psicológica e mesmo física, era a saudade da minha filha. Eu queria embalá-la, cantar-lhe com a minha voz (classificada quarta voz desafinada nas aulas de Canto Coral do Liceu Filipa), amamentá-la, brincar com ela, fazendo soar rocas musicais, contar-lhe histórias infantis que ela não percebia, tão bebé que era, olhá-la nos olhos azuis que herdara do pai, ouvirmos música e embalá-la, embalá-la. Esta é a marca mais agreste do meu “confinamento” na prisão. Recordar nesta escrita traz réstias dessa dor, as palavras incapazes de expressar.

A meio da semana, eu via a milha filha durante a tão breve visita dos meus pais. Através do vidro e sob a vigilância de um agente. Doía-me a dor do rosto dos meus pais. E ainda mais não poder tocar, cheirar, beijar com sonoros beijos a minha filha. Quando apareci ferida na cara pelo anel da agente Madalena Oliveira, a única mulher promovida a chefe de brigada, que “apostara“ que “ao fim de meia hora de bofetadas” eu me lembraria daquilo que eu nunca haveria de me “lembrar” para a polícia, o meu pai  angustiadíssimo olhando-me, a minha mãe em fúria exclamou “Bateram-te !!!”. Os meus pais jamais o haviam feito (exceptuando uns açoites da minha mãe numa quinta-feira de espigas em que eu e uma colega da escola, em vez de irmos para casa, ficámos a apanhar espigas sem noção das horas). O agente exclamou “Aqui ninguém” bate a ninguém” e eu ironicamente repeti: “Mas é claro, nesta polícia nunca ninguém bate a ninguém”.

Embranqueceram subitamente os cabelos do meu pai, a minha mãe “respirava revolta”. Contou-me, mais tarde, que, numa das quartas-feiras em que subiam as escadas para a visita, ela disse algo a meu pai, o agente asperamente censurou-a. “Não pode aqui falar porque o gabinete do senhor director é neste piso” e ela respondeu “Ah mas se o senhor director está com dores de cabeça, eu tenho aqui aspirinas.” Herdei da minha mãe esta rebeldia, o desafio a uma ordem vinda da “desordem” da ditadura.

Eu nunca chorava durante as visitas, mas ao voltar para a cela, no corredor, não continha as lágrimas. Uma jovem guarda recém-chegada consolava-me “Eu tenho uma bebé da idade da sua. Percebo bem que chore, mas vai ver qualquer dia sai”. Uma noite, depois do “recolher”, luz apagada, eu já deitada, a porta abriu-se, a luz acendeu-se, esta guarda entrou de mansinho, e disse “Venho mostrar-lhe fotografias da minha bebé”. Feliz com a maternidade, partilhando comigo, uma desconhecida, uma prisioneira. Ambas sentadas na cama, sussurrando, rindo baixinho, falando das filhas. Um longo, inesperado, mesmo feliz momento, um consolo. Quando saiu, ouvi a voz da chefe das guardas e o som das fotografias caindo no chão. Nunca mais vi a jovem guarda. Gostaria de a ter contactado após 25 de Abril – dela nem sei o nome.

A chefe das guardas não disfarçava a raiva que me tinha. Creio que foi por causa deste acontecimento que na minha breve prisão com outros candidatos do MDP/ CDE às eleições, em 1973, chegando eu, pela madrugada, a Caxias, ela me mandou despir totalmente e meteu brutalmente os dedos dentro de mim, “porque nunca se sabe onde podem esconder coisas”, provocando-me uma ferida, da qual só falei com a minha mãe que me levou ao Doutor Rosa que a queimou.

Os meus pais e a minha tia Gertrudes enviavam-me fruta, bolachas, chocolates com desenhos. A minha mãe tinha-me feito chegar blocos e lápis de cor. Tendo como “modelo” as imagens das capas dos chocolates, eu desenhava e coloria folhas que dispus no armário. Passava o tempo, o “confinamento” não doía tanto e a cela não parecia tão inóspita. O director de Caxias, nas manhãs de sábado, fazia a “visita” às celas. Tínhamos de estar de pé. Ele nem bom dia dizia e, de qualquer modo, eu não responderia. De braços meio cruzados, olhava-o de frente quando entrava e depois fixava o meu olhar na janela do lado esquerdo. Vendo os meus desenhos, ordenou que fossem retirados, ordem que a chefe das guardas cumpriu com ar abertamente satisfeito. Mas como não me retiraram nem papel nem lápis, todas as semanas, se repetia o episódio.

Nunca desenhei tanto na vida. Nunca fiz tantas flores com miolo de pão. E escrevi umas peças medíocres de tonalidade existencialista.

Os blocos de desenho recuperei-os pós 25 de Abril quando estive um período na sede e na ex-prisão de Caxias a convite de militares das Forças Armadas, MFA, consultando processos, particularmente de informadores. Quando deste trabalho publiquei dois ou três textos no jornal República, no qual já antes colaborava tendo a cargo o Suplemento Feminino, em cuja realização sucedia Antónia de Sousa que o fundara. Tive pena de abandonar este levantamento, mas encontrar-me na redacção do Avante, desde o primeiro número legal, constituiu uma longa vivência inesquecível.

Vivi ainda um outro confinamento. Sem paredes mas amargo, deprimente. O meu marido fora condenado a 13 meses de prisão fundamentalmente com base numa “prova grafológica” a partir de um texto escrito descuidadamente em letra minúscula encontrado com o funcionário que falara, embora muito calasse. Os advogados de presos políticos trabalhavam solidariamente pro bono. Para o apoiar fui para o Instituto de Grafologia no Campo Santana, acesso facilitado pelo meu curso de Filosofia. Foram muitos os textos recolhidos de diversos países atestando que a análise grafológica não constitui prova jurídica. Mas os juízes de prisioneiros políticos eram cúmplices da PIDE. Após julgamento, o meu marido foi transferido para o Forte de Peniche. Nos fins-de-semana, os meus pais levavam-me frequentemente. Existia uma natural cumplicidade entre as famílias dos detidos. Era consolador. Eu ia frequentemente a meio da semana e passei mesmo umas “férias” em Peniche, visitando o meu marido diariamente. Foi então que me senti transparente, as pessoas da vila procurando não me olhar, e se desprevenidamente me fitavam era como se não me vissem. No período de “férias” não podiam deixar de me “ver” diariamente. Como uma leprosa. Se alguém vinha no mesmo passeio, desviava-se para não se cruzar comigo. No café principal no largo, cheio ao fim da tarde, as mesas em redor da minha ficavam vazias. No espaço público, até nos ignoravam as mulheres de pescadores, em cuja casa, nós, mulheres e familiares dos prisioneiros pernoitávamos, as camas separadas por lençóis em suportes altos, o preço mais caro se incluía duche, “luxo” improvisado em apenas uma ou duas casas. Era deprimente. Nas geladas manhãs de inverno, eu sentava-me na areia e cantarolava para ouvir a minha voz. A visita durava apenas uma hora mas ao fim da tarde ia para uma rocha do lado esquerdo do Forte e lá ficava acenando. O meu marido via-me da cela. Eu não o via mas sabia estar a ser vista. Apenas neste momento e nas visitas, face a face com o meu marido, através do vidro, me sentia plenamente viva.

Voltei a ser detida a 22 de setembro de 1973, em vésperas da farsa eleitoral. Detenção brevíssima. Eramos vários os candidatos do MDP/CDE e o governo precisava de nos libertar para fazer passar a fraude de “eleições livres”, sobretudo face ao estrangeiro.

Nascera, entretanto, a minha filha Sónia, com os olhos mais azuis do que a Vanda, transparentes olhos como os do pai. E eu pude amamentá-la, cantar com a minha desafinada voz, e como diz o João Gilberto, “os desafinados também têm coração”.

A minha última prisão sucedeu a 18 de Abril de 1974. Nem deu para sentir confinamento. Sinto-me quase privilegiada porque vivi, assim, as portas que Abril abriu, quando o MFA a 26 de Abril, entrou em Caxias, nos libertou, tantos que éramos, eu e meu marido de braços abertos ao encontro um do outro. Saímos para a liberdade, na madrugada de dia 27, para a  multidão que nos aguardava, nos saudava tocando-nos, encontrando o esplendor da libertação nos braços de minha mãe e de meu  pai, e pouco mais tarde, tomando ao colo as nossas filhas, Vanda e Sónia. 

(...)