Num discurso esta quarta-feira, o primeiro-ministro israelita recusou a proposta de cessar-fogo do Hamas e anunciou que ordenou ao exército que “prepare” uma ofensiva sobre Rafah, a cidade mais a sul da Faixa de Gaza e que está neste momento repleta de pessoas que têm tentado fugir dos ataques. Estima-se que aí estejam 1,3 milhões de deslocados. A zona é contígua ao Egito e esta fronteira está encerrada, podendo um ataque que cause deslocações massivas de civis aumentar as tensões com o país vizinho.
Benjamin Netanyahu rambém ordenou atacar dois campos de refugiados que considerou serem “os últimos bastiões restantes do Hamas".
Por isso, o chefe do governo israelita diz que uma “vitória total” sobre o Hamas “está ao nosso alcance” e numa “questão de meses”. E reafirmou o seu compromisso guerreiro. Disse que “a continuação da pressão militar é uma condição essencial para a libertação dos reféns”, o que passa por não ceder “às exigências delirantes do Hamas”, uma vez que isso “não apenas não levaria à libertação dos reféns”, apesar dos que foram libertados no cessar-fogo anterior, mas conduziria a “um outro massacre” e “a um desastre para o Estado de Israel que nenhum dos seus cidadãos está preparado para aceitar”.
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Uma das respostas mais veementes à declaração política do governante israelita veio de cinco das mulheres libertadas durante a anterior pausa no conflito. Estas lembraram que a vida dos restantes reféns fica cada vez mais em perigo. Adina Moshe, uma delas, interpela Netanyahu: “tenho medo e estou muito inquieta. Porque se você continuar nesta via para derrubar o Hamas já não haverá mais reféns para libertar”.
Na sua quinta visita a Israel desde a nova fase deste conflito, Antony Blinken, o secretário de Estado dos EUA, também reagiu afirmando que “há lugar para que um acordo seja encontrado e trabalharemos para ele sem descanso”, vincando que do ponto de vista do governo norte-americano “Israel tem a obrigação de fazer tudo o que esteja ao seu alcance para assegurar que os civis sejam protegidos e obtenham a assistência de que precisam no decorrer do conflito”.
Os Estados Unidos, o Qatar e o Egito continuam os esforços de negociação e a diplomacia egípcia afirmou à France Presse que uma “nova ronda” de conversações iria começar esta quinta-feira no Cairo.
A proposta rejeitada por Netanyahu era a de um cessar-fogo de 135 dias em troca da libertação de reféns israelitas nas mãos do Hamas. O movimento queria a libertação de 1.500 palestinianos presos por Israel, que este país permitisse um aumento da ajuda, assegurasse o necessário para a reconstrução de Gaza e retirasse do território. Concretamente, numa primeira fase, que duraria 45 dias, todas as mulheres, homens civis com menos de 19 anos, idosos e doentes israelitas seriam libertados de um lado e, do outro, todas as mulheres e menores palestinianos detidos em Israel. Os restantes israelitas seriam libertados numa segunda fase que deveria coincidir com uma retirada israelita de Gaza e estava prevista ainda uma terceira na qual seriam trocados restos mortais. No final desta, estar-se-ia em condições para chegar a um acordo que acabasse com o conflito.
Entretanto, mais de 27.840 palestinianos morreram desde o início do ataque de Israel à Faixa de Gaza, pelo menos 67.317 ficaram feridos e um quarto da população vive numa situação de fome. De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, nas últimas 24 horas houve mais 130 pessoas mortas pelo exército sionista, 170 feridas e centenas estão desaparecidas nos destroços dos ataques.
Os palestinianos denunciam ainda que 3.000 casas foram “deliberadamente queimadas para infligir estragos e perdas aos cidadãos, especialmente àqueles forçados a deixá-las”.
Bombardeamentos a Rafah intensificam-se
Estão atualmente em curso ataques a Rafah que já vitimaram mais 14 civis, incluindo cinco crianças, avança a mesma fonte. Hani Mahmoud, repórter da Al Jazeera no local, dá conta da intensificação dos bombardeamentos e do medo que grassa na cidade com os habitantes a temerem ficar nela face ao anunciado ataque terrestre que pode estar iminente, mas também temorosos de sair para outras zonas que continuam a ser atacadas. Isto para além de o exército israelita não ter “providenciado qualquer plano de segurança ou corredores de segurança para as pessoas sair”, explicou.
O Crescente Vermelho denuncia que uma equipa sua que procedia esta quarta-feira ao transporte de pessoas feridas foi deliberadamente visada por um ataque israelita, o que resultou na morte do paramédico Mohammed al-Omari e no ferimento de mais dois dos seus colegas, aumentando assim para 12 o número de trabalhadores humanitários desta organização mortos desde que a guerra eclodiu.