“Nesta luta de palácios, esqueceram-se do direito à Habitação”

06 de maio 2023 - 18:25

Catarina afirmou que “nem António Costa, nem Marcelo Rebelo de Sousa, e muito menos a direita, querem falar do que importa ao país”. “Ninguém teve uma palavra a dizer” sobre a decisão do BCE de aumentar os juros, a luta dos professores, o ataque ao SNS ou os lucros excessivos da banca e da energia.

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Fotografia de Paulo Novais, Lusa.

“Se é verdade que há problemas sérios na política portuguesa, se é verdade que há problemas sérios nas instituições portuguesas, aquilo a que assistimos nos últimos dias não teve nada a ver com os problemas do país. Foi mesmo uma luta de palácios”, afirmou a dirigente bloquista durante um almoço em Coimbra com a organização local do Bloco.

“Confesso que não queria acreditar quando vi um ministro dar uma conferência de imprensa para descrever pormenorizadamente um desacato que houve no seu ministério. Julgava eu que isso era um caso de polícia. E depois assistimos a um momento inédito, com o primeiro-ministro, à porta da residência oficial, com um ar grave, a falar de um incidente e de uma bicicleta que voou por uma janela”, continuou Catarina.

A coordenadora do Bloco assinalou que, por outro lado, “ninguém explicou como é que foi possível um ministro mentir ao país e ao Parlamento sobre a relação que tem com uma CEO de uma empresa pública que leva milhões de euros dos portugueses”. E que continuamos sem saber “como é que são tomadas decisões sobre setores estratégicos da nossa economia, que dizem respeito ao nosso país, ao orçamento do Estado, à nossa vida”.

“Falou-se de tudo menos do que interessava”, lamentou.

Catarina lembrou ainda que, “nesta guerra de palácios, tivemos outro palácio a falar, com voz grossa: O presidente da República veio dizer que estava tudo muito mal e que ia ficar tudo na mesma. Mas disse que ia ficar vigilante”.

“Isto é tudo caricato, mas é também grave. Porque se nós sairmos dos palácios e abordarmos as casas das pessoas percebemos que a luta de palácios tem pouca piada e diz muito pouco a quem não consegue comprar uma casa, a quem não consegue arrendar, a quem não sabe como há de chegar ao fim do mês”, frisou.

“Ninguém teve uma palavra a dizer sobre a subida dos juros”

A dirigente bloquista apontou também que, “enquanto havia uma luta de palácios, foi tomada uma decisão sobre as casas onde vive quem trabalha. O Banco Central Europeu (BCE) decidiu aumentar 25 pontos base as taxas de juro e, com isto, aumentar ainda mais as prestações para quem crédito à habitação”.

Para Catarina, os argumentos do BCE, que argumenta aumentar os juros para combater a inflação, são “extraordinários”, porque “é o mesmo BCE que tem notas e estudos técnicos que explicam que o que cria a inflação não é o poder de compra de quem trabalha, mas sim os lucros excessivos dos grandes grupos económicos”.

Lembrando que o próprio BCE “reconhece que Portugal é um dos países onde esta decisão terá um impacto mais negativo”, a dirigente bloquista questiona “onde está o peito feito do primeiro ministro para defender o povo português e dizer ao BCE que não pode continuar a subir assim os juros”. Ou para “dizer aos grupos económicos que não podem continuar a comer a nossa economia com os seus lucros”.

“Nesta luta de palácios entre São Bento e Belém, ninguém teve uma palavra a dizer sobre a subida dos juros e sobre a subida das prestações da habitação”, vincou Catarina.

“Nem São Bento, nem Belém, nem António Costa, nem Marcelo Rebelo de Sousa e muito menos a direita querem falar do que importa ao país. Não têm uma única palavra a dizer. Nesta luta de palácios, esqueceram-se do direito à habitação porque nunca tiveram nada a dizer a quem trabalha neste país”, reforçou.

“Não há nenhuma luta da palácios que nos faça esquecer o fundamental”

A coordenadora do Bloco fez também referência ao facto de o BPI ter triplicado os seus lucros e de o presidente do banco ter dito “que preza a estabilidade” e ter agradecido a resiliência das famílias”.

Catarina enfatizou que o que João Oliveira e Costa quer efetivamente dizer é que “a estabilidade deste modelo económico serve mesmo a banca, a quem já tinham servido todas as crises, e que espera que quem trabalha continue a pagar sem reclamar”.

É assim mais fácil perceber Belém e São Bento “quando diziam que mais escândalo menos escândalo tudo vai bem porque a economia vai melhor”. Mas vai melhor para quem? Para o BPI e a Galp, para o setor financeiro e o setor energético?”, perguntou a dirigente bloquista.

Mas “não há nenhuma luta da palácios que nos faça esquecer o fundamental”, garantiu, enfatizando que “há quem lute pela estabilidade da vida das pessoas e quem queira uma voz para defender a vida das pessoas”.

E os desafios estão bem identificados: “Durante a guerra de palácios, foi promulgado um concurso de professores que cria mais desigualdade, mais injustiça e cria mais frustração entre os professores” e vamos começar um ano letivo “sem uma única solução à vista” para os problemas que os professores têm vindo a levantar, afirmou Catarina.

Assim como não há respostas para salvar o Serviço Nacional de Saúde: “Nunca se pagou tantos aos privados para se ter cada vez menos acesso à saúde”, referiu Catarina, frisando que está a ser ameaçado “um dos mais básicos pilares da nossa democracia e que é fundamental à estabilidade da vida das pessoas”.

No entanto, tal como este ano letivo foi um ano de luta para quem defende a Escola Pública e a Educação, também há quem se esteja a organizar pelo direito à Saúde. E o Bloco “não faltará à chamada para as mobilizações pelo SNS e pelo acesso à saúde por parte de toda a população”, assegurou a dirigente bloquista.

“Vamo-nos encontrar na manifestação de 3 de junho”, pelo direito à Saúde. “Não é nos palácios, é na rua que nos encontramos”, rematou Catarina.