“Há uma absoluta degradação do Governo”

02 de maio 2023 - 23:39

António Costa recusou o pedido de demissão do ministro das Infraestruturas. Para Catarina Martins, o problema “não é um caso isolado” de um ministro, mas "a forma de estar da maioria absoluta” que não tem "nenhuma saída para os problemas do país”.

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Catarina Martins. Foto de Ana Mendes.

Reagindo à decisão do primeiro-ministro de não aceitar o pedido de demissão do ministro das Infraestruturas, Catarina Martins começou por destacar ser uma “surpresa para todo o país ouvir hoje o primeiro-ministro de Portugal fazer uma declaração solene sobre aquilo que foi uma coboiada do Ministério das Infraestruturas e não dizer uma palavra sobre os problemas políticos do Governo”.

Para a coordenadora do Bloco, isto é “sinal de uma absoluta degradação ou, se quiserem, é a maioria absoluta como ela própria é”. Ou seja, “o primeiro-ministro achou por bem falar de um incidente rocambolesco de uma bicicleta atirada não sei para onde, em vez de falar daquilo que é o problema: que sucessivos ministros mentem sobre a sua relação com uma importante empresa pública portuguesa, a TAP que conta com milhões de euros dos contribuintes portugueses”.

A dirigente bloquista considera que “é um problema para o país se o primeiro-ministro acha que deve credibilizar esse incidente com uma declaração formal ao país”, num momento em que “temos um Governo absolutamente descredibilizado por ter tido ministros que sucessivamente mentem”. Assim, António Costa deveria “responder pelo funcionamento das instituições” quando assistimos a “uma degradação contínua da vida política”. E se há pouco mais de um ano ele “prometia ao país que se tivesse maioria absoluta traria a estabilidade”, regista-se agora que “não há nenhuma estabilidade nem institucional nem na vida das pessoas”.

Comissão de Inquérito revelou "uma forma de governação irresponsável e que é a maioria absoluta”

Um quadro revelado, diz a deputada, “quando o Bloco de Esquerda propôs a Comissão de Inquérito à TAP para perceber a relação entre a tutela e decisões de empresa”. Foi assim que “acabámos a descobrir e a revelar para todo o país aquilo que não foi afinal um caso isolado mas uma forma de governação irresponsável e que é a maioria absoluta”. Portanto a CPI mostrou que o problema “não é um caso isolado, não é um problema de um ministro, é sim a forma de estar da maioria absoluta” que deu “carta branca para que os ministros pudessem fazer tudo o que lhes apetecia e achassem que nunca tinham de responder às necessidades do país”.

Marcelo e Costa "já não precisam um do outro" e "acabam por desproteger o país"

Questionada sobre a possibilidade de uma dissolução da Assembleia da República por Marcelo Rebelo de Sousa, Catarina Martins retorquiu que “estamos a perder tempo” porque “o que era preciso era uma reorganização do Governo que não tem só a ver com a remodelação dos ministros que não têm condições porque estão descredibilizados. Tem a ver com a própria política”.

A coordenadora bloquista não esquece assim que “para lá de todos os casos de mentiras temos uma educação que não tem resposta, uma saúde que não tem resposta” e nem é “preciso de dizer as quantas matérias em que há ministros descredibilizados não tanto pelos casos de mentira mas pelo facto de não terem nenhuma proposta, nenhuma saída para os problemas do país”.

O principal problema com esta perda de tempo é “que o país não tem tempo” porque “precisamos de um Governo que possa funcionar, que possa dar credibilidade às instituições e que possa dar resposta às vidas das pessoas”.

Sobre a situação da relação entre o Governo e o Presidente da República depois deste ter defendido a demissão do ministro das Infraestruturas e de António Costa a ter recusado, o Bloco classifica-a como “pantanosa” e distribui responsabilidades: “na verdade”, esta terá sido “provocada tanto pelo senhor primeiro-ministro quanto pelo senhor Presidente da República”. E volta-se atrás no tempo para provar este ponto: “este primeiro-ministro quis este Presidente da República, este Presidente da República ajudou o primeiro-ministro a provocar eleições quando não eram necessárias, para ter a sua maioria absoluta”. Agora que “estão os dois numa situação de tensão muito grande porque já não precisam um do outro nessa sua tensão acabam por desproteger o país e a necessidade de soluções”.