Nepal: Um país sem governo

09 de agosto 2010 - 14:10

A actual revolução nepalesa, tem muitas semelhanças com a Revolução Russa. A grande diferença entre a Rússia de 1917 e o Nepal de 2010 esta na questão subjectiva da revolução, ou seja, na estratégia revolucionária e na orientação dos partidos que estão na direcção das massas nepalesas. Por Tomi Mori, de Tóquio para o Esquerda.net

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Nepal - Sagamartha Trek - McKay Savage / Flickr

Em tese, o peso do Nepal no cenário mundial não é muito relevante. É um pais pobre, encravado no meio de outros países, fazendo parte de um pequeno grupo de países que, desafortunadamente, não têm costa marítima, como o Laos e a Bolívia, entre outros. Mas o Nepal é famoso por ter em suas terras o monte Evereste a as imponentes montanhas do Himalaia. O Nepal é também a terra natal de Sidharta Gautama, o Buda. Poderíamos parar de falar do Nepal por aqui, mas seria de extrema injustiça já que é, na actualidade, um pais onde ocorre um dos mais profundos e importantes processos políticos da história deste século.

O Nepal entrou em pleno século XXI como um dos países mais atrasados historicamente, ainda sob o regime monárquico é a ultima democracia constituída no planeta, após a revolução que derrubou o rei nepalês.

DESDE 1 de MAIO UM PAIS SEM GOVERNO

No 1 de Maio, as massas nepalesas fizeram uma multitudinária manifestação em Kathmandu, com meio milhão de manifestantes. No dia seguinte, iniciaram a greve geral que ganhou forca e se transformou em uma poderosa greve geral revolucionaria, na medida que se prolongou por seis dias. A greve, convocada pelo Partido Comunista do Nepal Unificado (maoísta) tinha como principal revindicação a renúncia do então primeiro-ministro, Madhav Kumar Nepal, do Partido Comunista do Nepal Unificado Marxista-Leninista. Este encabeçava uma frente popular entre seu partido , o PCdoN(UML) e o Congresso Nepalês. A greve geral foi interrompida pelos maoístas sem que, naquele momento, tivesse conseguido absolutamente nada.

Após a greve geral deu-se inicio a um complicado, patético e dramático processo de conchavos políticos entre os chamados três grandes (partidos), o PCdoN(U), o PCdoN(UML) e o Congresso Nepalês. Madhav Kumar Nepal continuava como primeiro-ministro, mas já não conseguia governar o país. A ficção reaccionária de formar um governo de consenso entre os três partidos tomou conta do cenário nacional. Foram várias semanas onde se viu as mais baixas politicagens, trapaças politicas, com todos os dirigentes políticos fazendo o papel de cegos, surdos e mudos, tudo de acordo com as conveniências do momento. E, obviamente, acusações de todos os lados. Cada um dos três grandes, alegando os mais variados motivos, exigiam para a formação do governo de consenso que seu partido encabeçasse o futuro governo de frente popular.

AS MASSAS DERRUBARAM O PM NEPAL

No dia 30 de Junho, no meio da tempestade da crise politica, aberta com a greve geral revolucionaria de maio, Madhav Kumar Nepal, incapaz de governar o pais, apresenta sua renuncia, alegando que o fazia para abrir caminho para a formação de um governo de consenso. Poucos dias após ter renunciado, e sem que se formasse nenhum novo governo de consenso, Madhav Kumar Nepal, argumentou que havia sido traído, já que sua renúncia não levara a formação de um novo governo.

A greve geral fora interrompida, mas havia selado o destino do governo, derrubando Nepal e produzindo uma extraordinária crise e vácuo politico que dura até hoje. O piquetes de Kathmandu, que pararam a cidade, e os militantes do interior, que haviam vindo para a capital para fortalecer a greve geral, também parando as províncias, ganharam, ainda que tardiamente, sua batalha.

QUATRO TENTATIVAS DE ELEGER UM NOVO PM NO PARLAMENTO FRACASSAM

Após a renuncia do PM Nepal, e a incapacidade de se chegar a formação de uma nova frente popular no Nepal, o chamado governo de consenso, obedecendo a legislação que exige a eleição de um novo PM pelo parlamento, fez quatro tentativas. Durante os últimos dias todas as tentativas de se eleger um novo primeiro-ministro fracassaram, já que nenhum dos três grandes tem mais 50% da bancada parlamentar nem consegue forjar qualquer tipo de acordo.

A politicagem entre os dirigentes políticos dos três grandes continua, mas tamanha é a crise que não é possível antever qual será o resultado nos próximos dias.

A FORÇA DA REVOLUÇÃO NEPALESA

Uma observação superficial não permite compreender o actual cenário politico nepalês. Qualquer recém chegado poderia perguntar se os políticos nepaleses estão loucos, são burros, ou são incompetentes (o que e muito provável), ou só pensam em seus interesses próprios, que é o que pensam milhões de nepaleses vendo o que aparenta ser uma enorme trapalhada politica. Mas a chave para se compreender a situação actual se encontra exactamente na originalidade e na força da revolução nepalesa.

O Nepal passou os últimos séculos sob o regime monárquico, mas as massas com suas mobilizações, derrubaram a monarquia em 2006. A derrubada do rei foi a culminação de uma guerra popular lançada, em 1996, pelo Partido Comunista do Nepal (maoísta). Os maoístas foram ganhando influência em várias localidades, passando a controlar Rolpa, Rukum, Jajarkot, Salyam, Pyuthan, Kalikot e estendendo sua influência para várias partes do país. Em 2001 formaram o Exército de Libertação Popular, que foi dirigido por Pushpa Kamal Dahal, o camarada Prachanda, até sua ascensão como primeiro-ministro, encabeçando a frente popular. A guerra popular nepalesa durou dez anos, com poderosas mobilizações populares, que culminaram com a assinatura do Compreensivo Acordo de Paz e a derrubada da monarquia em 2006.

Em 2008, os maoístas obtiveram maioria nas eleições para a Assembleia Constituinte e nesse mesmo ano foi constituída a Republica Democrática do Nepal. O governo que surgiu desse ascenso revolucionário foi a frente popular, encabeçada pelos maoístas do PCdoN(U), através de Pushpa Kamal Dahal, como primeiro-ministro. Após a crise gerada sobre a demissão do comandante do exercito e a negative de incorporação de 20 mil soldados, do Exercito de Libertação Popular às fileiras do exercito nepalês, como havia sido acordado no Compreensivo Acordo de Paz de 2006, a frente popular sofreu um fractura, com a saída dos maoístas em 2009. Mesma fracturada, a frente popular, agora sem os maoístas, seguiu no governo numa coalizão entre o PCdoN(UML) e o Congresso Nepalês.

A revolução nepalesa, que havia derrubado a monarquia, havia voltado ao cenário politico com a greve geral revolucionaria de maio, derrubando o PM Madhav Kumar Nepal, é exactamente a forca da revolução nepalesa que gera a actual profunda crise revolucionaria e impede que se chegue a qualquer acordo. Ainda que as massas tenham sido mandadas de volta para casa, com a suspensão da greve geral revolucionária pelos maoístas, elas seguem de olho em seus dirigentes, já que no dia-a-dia da vida dos 30 milhões de nepaleses que compõem o país, não houve nenhuma melhoria substancial em seu nível de vida. Metade da população vive na miséria, sobrevivendo com pouco mais de um dólar por dia, e outros milhões na pobreza, com um rendimento um pouco maior.

REVOLUCAO OU CONTRA-REVOLUCAO NO NEPAL

A actual revolução nepalesa, tem muitas semelhanças com a Revolução Russa, que levou os bolcheviques ao poder. Mas também tem profundas diferenças que representam o maior obstáculo para a vitoria da revolução nepalesa.

Toda revolução é uma crise social objectivamente condicionada, que possui suas próprias leis internas. Compreender as leis que regem e revolução nepalesa é de fundamental importância já que o Nepal é hoje o país onde estão dadas as condições objectivas para uma verdadeira revolução socialista. Não seria inconveniente lembrar que uma revolução socialista no Nepal, no mundo globalizado, após a derrubada da burocracia dos Partidos Comunistas na maioria dos países, traria uma nova onda de esperança aos trabalhadores de todo mundo, que sofrem com a actual crise mundial. O Nepal, sob esse ponto de vista é hoje o elo mais frágil da cadeia imperialista. O país, assim como a Rússia antes da revolução, é um pais atrasado, que teve como tarefa histórica derrubar a sua respectiva monarquia.

Ao derrubar a monarquia, as massas nepalesas são convocadas a romper o atraso politico e apresentar ao mundo o que pode haver de mais avançado na teoria e na prática política. Foi assim que as massas nepalesas protagonizaram a excepcional e historicamente rara greve geral revolucionária que durou seis dias em Maio. Francamente, meus conhecimentos históricos não me permitem lembrar de nenhuma outra greve geral que tenha durado tanto tempo. Olhando em retrospectiva, podemos dizer hoje que houve em Maio uma revolução que derrubou um governo, o de Madhav Kumar Nepal, ainda que tenha renunciado somente em Junho e siga como PM provisório até hoje, como uma espécie de espantalho nas terras da revolução.

Também como na Rússia de 1917, existe uma crise nas camadas dirigentes da burguesia, que não consegue dirigir absolutamente nada neste momento. O Nepal possui também um proletariado que, ainda que seja em comparação numericamente pequeno, assim como na Rússia de 1917, pode ser a vanguarda dirigente da luta revolucionária, dirigindo o campesinato e as massas oprimidas nepalesas. Essas são as semelhanças entre as duas revoluções.

Após a revolução ter chegado a esse ponto, vem a outra parte da historia. Ou a revolução avança ou a contra-revolução se organiza para fazer recuar o processo histórico. Esse e o significado do primeiro-ministro da Índia, Singh, ter enviado um emissário politico ao Nepal para discutir com os três grandes nos últimos dias. A Índia, que vive seus próprios problemas internos, a sua própria guerra civil, tem junto com a burguesia nepalesa e os países imperialistas o maior interesse em estrangular, seja de que forma for, a actual revolução nepalesa. Também ao vizinho chinês, não seria interessante que uma revolução fosse vitoriosa no Nepal, já que a China também vive vários problemas, como o das nacionalidades oprimidas e agora o ascenso operário, principalmente, em Guangdong. Uma revolução no Nepal agora seria para a Índia um péssimo exemplo, já que os maoístas controlam vários estados da Índia, para a burocracia chinesa também seria uma espécie de pedra no sapato, e para os imperialistas, que não sabem como resolver a crise actual, um problema realmente indesejável.

UMA ESTRATEGIA PARA A DERROTA

A grande diferença entre a Rússia de 1917 e o Nepal de 2010 esta na questão subjectiva da revolução, ou seja, na estratégia revolucionária e na orientação dos partidos que estão na direcção das massas nepalesas.

A Rússia possuiu um Lenine, que com suas Teses de Abril, conseguiu armar o partido bolchevique e dar a virada na orientação da politica revolucionaria, permitindo que os revolucionários bolcheviques estivessem em condições de dirigir as massas em Outubro de 1917. Todo mundo sabe que, sem Lenine, não haveria Outubro de 1917.

No Nepal de 2010, não há nenhum Lenine, nem Trotski, nem Kamenev nem qualquer coisa parecida com a direcção dos bolcheviques. Os dois partidos que dirigem as massas nepalesas, o PCdoN(U) e o PCdoN(UML) tem sua estratégia baseada na teoria da revolução por etapas. Que traduzindo ao nepalês, após a derrota da monarquia, há que existir, a qualquer preço, um período de desenvolvimento do regime democrático burguês. Após essa etapa histórica é que se chegaria a outra, o belo dia em que esses partidos irão dirigir as massas ao caminho da revolução, não se sabe é quando. Os dois partidos, através de seus lideres, estão demonstrando que estão dispostos a ressuscitar ate mortos para formar um governo de frente popular, se os burgueses vivos não se dispuserem a serem prisioneiros num governo dirigido pelos comunistas.

É essa a explicação do por que os maoístas suspenderam a revolução em Maio, mandando as massas revolucionárias e a vanguarda revolucionária, materializada nos piquetes, de volta para casa. Todas as condições estavam dadas para a tomada do poder e vale lembrar também que os soldados do Exercito de Libertação Popular continuavam e continuam acantonados por todo o país esperando a incorporação no exercito nepalês. Ao invés de avançar no caminho revolucionário, os dirigentes comunistas nepaleses decidiram levar a luta para o beco sem saída do regime democrático nepalês, fazendo todo tipo de negociatas sem a participação e a organização das massas oprimidas nepalesas.

É essa a estratégia: atolar a revolução no pântano de um regime incipiente e historicamente desnecessário, levando à derrota da revolução nepalesa ou a uma prolongada agonia, ao invés de se passar a um regime de democracia revolucionária.

A NECESSIDADE DE ORGANISMOS DE PODER DAS MASSAS

Qualquer que seja o resultado dos próximos dias, a necessidade premente é que se organizem estruturas de poder popular, seja através dos sindicatos, das associações ou concelhos dos vilarejos de todo o país. A próxima vez que a revolução nepalesa voltar, ela irá necessitar desses organismos para se consolidar.