Nepal: greve geral suspensa, mas a crise continua

09 de maio 2010 - 17:48
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Cartaz do PC do N (U) nas ruas de Katmandu. Foto de Opendemocracy, FLickRLíder maoísta dá dois dias para o actual governo se pronunciar, e a vanguarda da greve voltou às ruas. Por Tomi Mori, de Tóquio, para o Esquerda.net.

Os maoístas suspenderam sexta-feira à noite, inexplicavelmente, a poderosa greve geral que paralisou o Nepal durante seis dias, sem resolver nenhum dos problemas que levaram à paralisação. Alegando que a suspensão era para aliviar a penúria do povo que estava a sofrer com a mobilização e evitar a provocação do governo, Prachanda, líder maoísta, deu dois dias para que o actual governo se pronuncie. Prachanda afirmou que o que foi visto até agora é apenas o trailer. O filme será mostrado caso o governo não se manifeste. Na manhã de sexta-feira foi realizada uma manifestação pela paz, promovida pelos sectores contrários à greve, que contou com cerca de 10 mil participantes. Mas, segundo os maoístas, não foi esse o motivo que os levou a interromper a paralisação

O movimento liderado pelos maoístas visa o derrube da actual coligação entre o Congresso Nepalês e o Partido Comunista do Nepal Unificado Marxista-Leninista, do qual o actual primeiro-ministro, Madhav Kumar Nepal, é um dos dirigentes; e a redacção final da constituição e a conclusão do processo de paz. Mesmo empresários agrupados em torno da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria pediram a Nepal que renuncie, para facilitar uma saída de consenso.

Desde o anúncio da suspensão da greve, havia grande descontentamento entre a vanguarda "piqueteira", que não via sentido em encerrar a paralisação com as mãos vazias, e muitos estavam dispostos a mobilizar-se contra os seus próprios líderes. Neste domingo, os "piqueteiros" voltaram às ruas. Não se sabe se por conta própria ou por orientação do partido, ocuparam Singha Durbar, onde está sediado o governo em Kathmandu, e as sedes dos governos locais em todos os 75 distritos que compõem o pais. Segundo a imprensa nepalesa, pode-se ver a intensificação do movimento das milícias rebeldes comunistas por todo país.

Houve confrontos entre a policia e "piqueteiros" em Maitighar, Kathmandu, com mais de dez "piqueteiros" feridos, assim como alguns polícias.

A revolução em compasso de espera

A greve geral, que durou seis dias, foi um acontecimento de grande magnitude no actual cenário mundial. Ainda que diminuta importância tenha sido dada na imprensa internacional, principalmente pelo facto de a crise grega estar no centro das preocupações, e também por ninguém acreditar que o Nepal tenha alguma relevância no curso dos acontecimentos actuais. Os nepaleses protagonizaram uma greve geral, que, independente da vontade de qualquer um dos 30 milhões de nepaleses, foi uma greve revolucionária, criando um vácuo de poder que durou uma semana, e que, mesmo sendo interrompida, deixou como resultado uma espectacular crise política.

Nada ficou resolvido. Mas é óbvio que alguma coisa precisa ser feita após ela. As massas e a vanguarda nepalesa deram o maior exemplo de combatividade revolucionária, mas não tiveram uma direcção politica à altura para levar o seu movimento à vitória, completamente possível neste momento. O Nepal, por qualquer ângulo que se observe, está grávido de uma revolução

Quando a realidade não cabe na teoria

O que diferencia esta greve geral de todas as ocorridas nas últimas décadas é que esta não foi convocada por nenhuma central sindical, mas por um partido comunista, o Partido Comunista do Nepal Unificado (PC do N (U)), de orientação maoísta. Alguém se lembra de algum partido comunista convocar alguma greve geral nos últimos anos?

Mas qual o motivo de os maoístas terem convocado essa mobilização, que, pelo desfecho actual, aparenta ser uma aventura política inconsequente?

Uma revolução é uma crise social objectivamente condicionada, regida por leis internas. Entender as leis que regem os actuais acontecimentos nepaleses é de fundamental importância já que, como aconteceu na Revolução Russa, a cadeia capitalista rompe-se no seu elo mais frágil.

Em 1996, ao lançar a Guerra Popular, os maoístas tinham como uma das suas bandeiras a revolução democrática, como parte da sua concepção das duas etapas da revolução nepalesa. Tendo essa como uma das suas bandeiras, encabeçaram uma guerra que durou dez anos e só acabou com a vitória das massas e a assinatura de um acordo de paz em 2006.

O Nepal ocupava então um dos principais postos na lista dos países mais atrasados do planeta - basta lembrar que entrou no século XXI sem ter ao menos partidos burgueses participando livremente da política local, coisa que só foi acontecer após o derrube da monarquia pelo movimento popular. O atraso económico, assim como o político, e o papel que o Nepal ocupa na arena mundial e que está na origem da actual crise revolucionária.

Os maoístas depuseram as armas, venceram as eleições em 2008, subiram ao governo numa frente popular que durou alguns meses até à saída de seu primeiro-ministro, Pushpa Kamal Dahal, Prachanda, e voltaram à oposição.

A saída dos maoístas do governo, que continua a ser uma frente popular, representou um enfraquecimento qualitativo do governo. Na oposição, eles acusam o actual governo de ser um governo marioneta, já que carece de força. O que isso representa? Os maoístas parecem-se com um ancião que desceu de uma carroça puxada por uma mula que se nega a andar. O ancião agita o chicote mas a mula não anda...

No fundo, os maoístas, de acordo com a sua teoria da revolução por etapas, gostariam que a frágil burguesia nepalesa conduzisse um processo de reformas democráticas, no campo económico e político. Nesse cenário ideal, eles seriam a ala esquerda da democracia, brandindo o chicote para a mula andar. A revolução socialista seria numa etapa posterior. E é essa a única explicação para o fato de, mesmo estando na direcção de um ascenso revolucionário, os maoístas se negarem a tomar o poder.

Aliado a isso, e qualquer pessoa é capaz de entender, os maoístas sabem que não é possível construir o socialismo apenas no Nepal. O problema é que agora as coisas foram longe demais e a situação política extrapolou os limites do desejável. A teoria, tanto da burguesia quanto dos maoístas, não cabe na realidade. A democracia burguesa tradicional é, sem dúvida, uma utopia reacionária. Uma espécie de sonho impossível num país tão atrasado. económica e politicamente. Um país onde a burguesia não tem força para abrir caminho num mundo globalizado. Qualquer pessoa que esteja na miséria se perguntaria qual a diferença entre os comunistas tomarem o poder agora ou num futuro distante. Esperar o quê? Num país tão atrasado como o Nepal, as tarefas democráticas só podem ser realizadas através de uma revolução socialista. E a actual política dos maoístas, de querer um outro governo de frente popular para realizar as tarefas democráticas, longe de amenizar a agonia das massas, só fará prolongá-las.

A necessidade de uma assembleia popular e da solidariedade da esquerda mundial

A luta travada pelas massas nepalesas, num país que passou por dez anos de guerra civil, que derrubou a monarquia, que protagonizou a poderosa greve geral, necessita ser sintetizada com uma verdadeira assembleia popular. Uma assembleia popular eleita por representantes de todas as vilas e etnias que compõem o pais, que possa decidir soberanamente sobre as leis e governo que as massas nepalesas desejam.

Os últimos vinte anos de luta democrática e revolucionária, com parte da militância pegando em armas, gerou uma vanguarda que não se contenta com a situação e com a política actual. É essa vanguarda de "piqueteiros", que está nas ruas do Nepal e impulsiona a mobilização, que é o motor da crise revolucionária, que obriga o PC do N (U) a ir mais longe do que gostaria.

Essa é uma luta que não pode ser levada apenas nos longínquos picos do Himalaia, e nas ruas de Kathmandu, e que necessita da solidariedade imediata da esquerda mundial.

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