No único debate televisivo a juntar os onze candidatos à Presidência da República, o tema de abertura foi o ataque dos EUA à Venezuela no passado fim de semana. Em resposta aos candidatos que justificaram a intervenção militar com a defesa da democracia e o afastamento de Maduro, Catarina Martins afirmou que “é bom não nos preocuparmos a encontrar justificações que o próprio Donald Trump não se preocupou em encontrar”, quando disse abertamente que “quer ficar com o petróleo” da Venezuela.
Presidenciais
“Os herdeiros de Passos Coelho não vão ter coragem de se levantar contra Montenegro”
“Num país que teve uma ditadura fascista durante 48 anos não estou a ver bem quem é que quer agora defender que o ideal para Portugal teria sido uma intervenção externa para prender o ditador português”, prosseguiu a candidata. Quanto à posição do Governo português, Catarina defendeu que “não somos espectadores da comunidade internacional, somos parte da comunidade internacional” e contestou o “duplo critério” da União Europeia sobre direito internacional que “enfraquece a ONU”. O que é preciso é “ter a mesma posição quando estamos a falar de Gaza, da Ucrânia ou da Venezuela” e não deixar a segurança da Europa nas mãos dos EUA. “Não vale a pena gastar dinheiro naquilo que Donald Trump manda”, afirmou.
No que diz respeito ao papel de uma Presidente da República, Catarina defendeu que lhe cabe equilibrar os poderes e “lançar os debates que possam desbloquear as grandes crises que atravessam o país”, referindo-se à habitação, saúde e violência sobre as mulheres. Nesta fase do debate criticou os candidatos da direita que “convivem bem com um país onde uma criança possa nascer, crescer e terminar o primeiro ciclo sem ter acesso à nacionalidade portuguesa”, o que considera “um enorme problema de coesão nacional”. Mas também por mostrarem “conivência” com um Governo que “quer colocar toda a gente a contrato a prazo”, quando há poucos dias o Banco de Portugal divulgou um estudo “que diz que contratos estáveis levam a progressão salarial”.
Catarina respondeu também ao apelo de Jorge Pinto que na prática conduziria à desistência dos candidatos à esquerda a favor de “um candidato que deixou passar o corte do subsídio de férias e do subsídio de natal no tempo da troika”, referindo-se a António José Seguro. “Naquilo que me diz respeito, a esquerda terá em quem votar no dia 18”, concluiu.
“O nosso problema não é onde cada pessoa nasceu, é o salário ser baixo”
O debate tratou também da questão da imigração e Catarina aproveitou para lembrar que “a integração é uma coisa tão simples como todas as pessoas terem acesso a aprender a língua”, o que hoje está a ser negado. Sobre a abordagem do tema da imigração do ponto de vista da economia, Catarina apontou que isso acontece porque ninguém quer debater a economia que temos, “assente no turismo e em que os salários são muito baixos e as casas são muito caras”. Por isso pretende lançar o debate de uma nova economia “de salários dignos para toda a gente”, com mais inovação, que aproveite as condições que o país tem para liderar a transição climática justa com empregos qualificados. “O nosso problema não é onde cada pessoa nasceu, é o salário ser baixo”, resumiu.
Na última parte do debate, Catarina Martins introduziu a “perspetiva dos cuidados, cuidar uns dos outros e de quem está mais frágil”. Mas também “cuidar da economia para ela ser mais igual” ou da liberdade, da imprensa, da cultura e do conhecimento, além “do direito das mulheres se sentirem seguras na rua, em casa em em todo o lado”. E terminou a sublinhar a atualidade o relatório elaborado por Maria de Lurdes Pintasilgo há 30 anos, intitulado “Cuidar do Futuro” e que lançava dois desafios: “erradicar a pobreza e travar a degradação ambiental”.