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Mulheres de Abril: Testemunho de Diana Andringa

Então, a prisão. Como leu num texto da Praça da Canção, “de certo modo estava no (seu) posto”. Era, de algum modo, o reconhecimento. De uma grande responsabilidade política? Não. Daquilo que marcara a sua vida, porque não saberia ser de outra maneira: a extraordinária força dos porquês. Por Diana Andringa.
Ficha prisional de Diana Andringa.

Este é o décimo sétimo testemunho de uma série de mais de 20, a ser publicada pelo Esquerda.net. São relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

À medida que os testemunhos forem publicados, poderá consultar toda a série em: Mulheres de Abril. O próximo testemunho será publicado na quinta-feira, dia 11 de maio. Coordenação de Mariana Carneiro.


A extraordinária força dos “Porquê?”

As negras mãos dele, normalmente tão leves, tão cuidadosas, tinham-se transformado em estranhas bolas de carne e o sorriso, sempre presente quando falava connosco, mudara-se em soluços e lágrimas e arrepios sucessivos que lhe abanavam o corpo. Enquanto a mulher branca, indignada, procurava um remédio que lhe atenuasse as dores, o homem branco levantou-lhe as mãos lentamente, com uma doçura inabitual. “Desculpa”, murmurou, e a palavra era também surpreendente, porque nada fizera que a justificasse. Então, porque a dizia? Seria, não por ele, mas por alguém com cuja pele branca a sua se confundia? Porquê?

Houve também aquela frase da professora, ao mostrar os cadernos, limpos e cuidados, dos meninos da escola negra: “Eles não se podem dar ao luxo de não estudar.” Porquê?

Porque é que, em lugar de andarem de baloiço, como nós, eles capinam o jardim? Porque é que o cozinheiro negro diz que a filha nunca comeu um bife? Porque é que o velho de carapinha branca desce do passeio quando se cruza com a menina branca? O normal não seria o contrário? Porque é que um criado negro não pode fazer um recado à noite, por então não poder estar no interior da vila?

Porquê? Porquê?

Porque é que, no Puto, tantos meninos da escola primária andam descalços, mesmo no Inverno? Porque é que são esses as vítimas preferenciais das ponteiradas que as professoras desferem nos dedos inchados pelas frieiras? Porque é que, quando não lhes emprestamos os livros, não podem fazer os trabalhos de casa?

Porque é que, sob a bata, as meninas do colégio estão sempre bem vestidas, e aprendem línguas em casa em lições particulares? Porque é que os pobres a quem levamos alimentos para a Ceia de Natal têm tantos filhos, se o dinheiro é tão pouco que precisam dessa esmola? Porquê?


Diana Andringa com 3/4 anos, na varanda da sua casa no Dundo.

Há perguntas que não se fazem. Essa dos pobres, por exemplo. “A menina é malthusiana!” (“Quem será esse Malthus que, pelos vistos, citei sem saber?”)

O primeiro de muitos epítetos.

Outro foi “comunista”. Pois não escrevera no quadro, com outra colega, “Viva o Delgado!” ? (A verdadeira razão era ele ser aviador, e ela sonhar voar: “O que é ser comunista?”)

“Comunista”, também, ao após 1961 responder, a uma pergunta sobre o Estado Português da Índia, “Não há Estado Português da Índia.” (“Comunista é quem diz a verdade?”)

O pequeno mundo da infância sacudido por imagens de massacres. “Genocídio contra Portugal.” Memórias das mãos desfeitas pela palmatória, a escola segregada, os meninos que capinavam o jardim. “Do rio que tudo arrasa se diz que é violento, ninguém diz violentas as margens que o comprimem”, lerá mais tarde em Brecht, mas já o compreendera sem saber dizê-lo.

Na Faculdade, em 1964, falam-lhe de estudantes presos (“Estudantes presos? Porquê? Porquê?”). A alegria de ver um deles, Saldanha Sanches, voltar à liberdade. E depois, a 21 de Janeiro de 1965, logo de manhã, uma lista de nomes de colegas, de amigos, presos nessa noite. (“Porquê? Porquê?”)

A polícia diz que foram presos por serem comunistas. E então? “Porque é que não podem ser comunistas?” “Porque não.” “Porque não”, sempre lhe disseram, “não é uma resposta!”

Em que altura é que todos esses porquês confluem em algo que passa a ser rotulado de “atentado à segurança interna e externa do Estado Português”?

Quando se grita, alto, “Liberdade para os estudantes presos?” Quando se pintam cartazes exigindo a libertação dessas raparigas e rapazes cujo crime terá porventura sido, apenas, o de não aceitarem que “as coisas eram assim porque eram assim” e exigiam a mudança, um mundo melhor? Quando se participa em manifestações junto à prisão do Aljube, onde os colegas estão presos? Ou junto ao Tribunal da Boa Hora onde são julgados?

Diana Andringa quando voltou ao Dundo para preparar a rodagem do filme Dundo, Memória Colonial. Luanda, 2006. Foto de Zé Catanho.

Um amigo dá-lhe um livro: “Praça da Canção”. A dedicatória diz: “Para que um dia pense assim.” Estranho. Não encontra ali nada – para lá do estilo, da beleza das palavras – que não seja a mesma inquietação que a faz perguntar “Porquê?”

Há um dia em que chove demasiadamente, tanto que falha, até, o transporte para casa. Nos bairros frágeis ao redor da cidade, ruem barracas, morrem habitantes. Os apoios tardam. São os estudantes quem vai para o terreno, junto com os bombeiros, tirar lama, desenterrar cadáveres, vacinar populações. Senhoras da Cruz Vermelha, impecáveis nas suas fardas, evitam sujá-las enquanto entregam víveres insuficientes a famílias sem nada. Nas zonas ricas, cai um único muro. “Porquê? Porquê? Porquê?”

Tem já respostas teóricas para a pergunta, mas só uma – pueril, talvez – lhe interessa: “Porque é que tem de ser assim? Porque é que se aceita que tenha de ser assim?”

Os irmãos, os amigos, partem para uma guerra em que a razão cabe ao adversário. Chegam-lhe as histórias de outros massacres, os das “nossas tropas”. Fotografias de cabeças de negros espetadas em paus ou usadas como bolas de futebol. E as orelhas cortadas guardadas em frascos… Porquê? Porquê? É essa a superioridade cultural do homem branco?

Amigos presos, torturados, destruídos pela impossibilidade de resistir à tortura. Em fuga de uma guerra que recusam fazer. A censura a impedir toda a informação sobre o que realmente importa. Porquê? E não basta dar um nome à ditadura, é preciso saber porque é que dura. Recusar toda a cumplicidade. Gritar não.

Então, a prisão. Como leu num texto da Praça da Canção, “de certo modo estava no (seu) posto”. Era, de algum modo, o reconhecimento. De uma grande responsabilidade política? Não. Daquilo que marcara a sua vida, porque não saberia ser de outra maneira: a extraordinária força dos porquês.

Diana Andringa, em 2007, com o seu auto-retrato feito na prisão de Caxias, em miolo de pão.

* Diana Andringa nasceu em 1947, no Dundo, Lunda-Norte, Angola, vindo para Portugal em 1958. Em 1964 ingressou na Faculdade de Medicina de Lisboa, que abandonou para se dedicar ao jornalismo. Em 1968, frequentou o 1º Curso de Jornalismo criado pelo Sindicato dos Jornalistas e entrou para a Vida Mundial, de onde saiu no âmbito de uma demissão colectiva. Desempregada, foi copy-writer de publicidade, trabalho que a prisão pela PIDE, em Janeiro de 1970, interrompeu. Condenada a 20 meses de prisão por apoio à causa da independência de Angola, voltou ao jornalismo. De 1978 a 2001 foi jornalista na RTP. Foi também cronista no Diário de Notícias, na RDP e no Público e fugaz directora-adjunta do Diário de Lisboa. Actualmente documentarista independente – “Timor-Leste, O sonho do Crocodilo”; “Guiné-Bissau: As duas Faces da Guerra” (co-realização com o cineasta guineense Flora Gomes); “Dundo, Memória colonial”, “Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta”, “Operação Angola. Fugir para lutar” – regressou entretanto à Universidade, doutorando-se em Sociologia da Comunicação pelo ISCTE em 2013. Investigadora do CES-Coimbra.


 

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