Na madrugada de 3 de janeiro, Donald Trump fez o que muitos dissemos que ele não poderia fazer sem pagar um alto preço: uma mudança de regime na Venezuela. Helicópteros Chinook com forças Delta entraram em Caracas, sequestraram Nicolás Maduro e, horas depois, depositaram-no numa cela em Brooklyn. A 5 de janeiro, foi apresentado a um juiz federal sob acusações de narcoterrorismo.
Impecavelmente suspeito
Para levar o presidente panamiano Manuel Antonio Noriega em 1989, os Estados Unidos tiveram de arrasar El Chorrillo e matar centenas ou milhares de pessoas. A operação demorou quase um mês.
Onde estava agora o exército “chavista”? Os coletivos armados? A Milícia Bolivariana? Os sistemas antiaéreos russos? A “guerra popular prolongada” que prometiam? “O fácil não é entrar, mas sair”, gabavam-se. Mas os americanos entraram, saíram e levaram Maduro sem a menor resistência.
Venezuela
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A história terá que resolver os detalhes da negociação que abriu as portas de uma prisão federal de segurança máxima nos Estados Unidos para Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
O sucesso tático não foi apenas das forças especiais americanas. A única explicação para tanta precisão parece ser uma traição perfeitamente executada.
O triunfo estratégico
Esta operação redefine a “mudança de regime” para o século XXI à luz dos atoleiros do Iraque e do Afeganistão. O seu triunfo estratégico é conseguir o controlo efetivo da Venezuela sem pagar o custo da nation building. Não há reconstrução institucional, nem desarmamento de milícias, nem criação de novas forças de segurança. Não há ocupação com milhares de soldados durante uma década. Não há insurgência, nem vazio de poder, nem caos para administrar.
Trump disse sem rodeios: trata-se de capturar recursos, começando pelo petróleo. A democracia pode esperar.
O que Trump procura executar hoje, com a colaboração entusiástica dos irmãos Delcy e Jorge Rodríguez — nova presidente encarregada da República e presidente da Assembleia Nacional, respetivamente — não é uma libertação: é uma apropriação neocolonial. Donald Trump arroga-se, por pura força, o direito de governar o país. A decidir quem manda e quem não manda. A abrir o subsolo venezuelano às suas petrolíferas. A administrar um país de 30 milhões de pessoas como se fosse uma concessão.
Se isto fosse uma transição democrática, se Delcy Rodríguez fosse a ponte temporária que alguns imaginam, haveria eleições em meses, não um período de acomodação à ocupação petrolífera estadunidense. Por isso, María Corina Machado foi atirada do autocarro pelo presidente dos Estados Unidos, que não se privou de humilhá-la dizendo que ela não tem a “legitimidade” nem o “respeito” do país. Ou seja, a potencial chegada ao poder da outrora elogiada líder da oposição gerava o risco de os Estados Unidos terem que se envolver demais na manutenção da ordem do país, com os riscos que isso significa — e as dificuldades de Trump para justificá-los internamente.
Por coincidência, Machado — que saiu da Venezuela com o apoio dos Estados Unidos para receber o Prémio Nobel da Paz na Noruega — continuava fora do país, para onde deveria regressar também com o apoio dos Estados Unidos, quando a operação militar se concretizou.
A mudança de regime não foi para a democracia venezuelana. Foi para estabelecer o controlo gringo.
Isto não é a República Dominicana
Dizem que Delcy seria uma Balaguer: a continuísta que prepara a transição democrática. A analogia, repetida nestes dias, faz referência a Joaquín Balaguer que, surgido das entranhas do regime dominicano, assumiu a Presidência em 1960 como fantoche do ditador Rafael L. Trujillo e o sucedeu após o seu assassinato em 1961. A transição recaiu sobre ele e não sobre o opositor Juan Bosch. “Em vez de romper com Trujillo, [Balaguer] adaptou o trujillismo a uma nova linguagem, mais suave, mais apresentável para a comunidade internacional, mas com a mesma lógica de controle clientelista, personalismo e verticalidade do poder”. Foi uma “ponte invisível entre épocas, entre a ditadura e a democracia”.
Mas Delcy Rodríguez não é Balaguer.
Trujillo construiu um regime personalista, encarnava o Estado. Quando o mataram, o vazio era inevitável. Balaguer funcionou como amortecedor enquanto se organizava a transição.
O madurismo é outra coisa. Não é um regime personalista, mas patrimonial: uma rede de militares, burocratas e empresários que capturou o Estado para administrá-lo como um espólio. Um regime não se define pelos nomes que o ocupam nem pela sua retórica. Define-se pela forma como o poder funciona: a quem deve lealdade, sob que pressão opera, quais são os limites do que pode fazer ou dizer.
Durante anos, o madurismo legitimou-se, pelo menos no discurso, pela sua “resistência” aos Estados Unidos. Podia ser corrupto, autoritário ou incompetente, mas era “anti-imperialista”. Essa ficção dava-lhe coesão interna e apoio político. Mas isso acabou.
Delcy Rodríguez não representa uma sucessão pessoal, como Balaguer, mas a continuidade de um projeto político que foi capturado.
Não destruir o Estado, capturá-lo
A nova presidente encarregada da Venezuela está onde está porque Trump a colocou lá. Ela deve o cargo a Washington. Pode repetir slogans, manter o executivo, invocar Hugo Chávez, até mesmo liderar a campanha “Free Maduro”. Mas a essência do regime mudou. De facto, é um poder subordinado ao ditame dos Estados Unidos.
A vitória de Trump foi tirar Maduro do volante com o carro em andamento e sentar-se ele.
Quando o líder de um regime personalista cai, o sistema entra em colapso. Não há Estado sem ele. Quando o chefe de uma máfia cai, a estrutura não entra em colapso: ela adapta-se. Procura um novo patrão. Negocia a sua sobrevivência. As lealdades não são ideológicas nem morais. São contratuais. O que importa é continuar no negócio.
Por isso Trump conseguiu tirar o chefe sem desmontar a estrutura. Não destruiu o aparelho chavista para construir algo novo. Capturou-o e colocou-o a trabalhar para si. Essa é a mudança de regime perfeita. Não porque seja moralmente aceitável ou legalmente justificável, mas porque atinge o objetivo: controlar um país sem arcar com os custos que afundaram os Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão.
Não será necessário explicar por que há tropas a morrer em Caracas daqui a cinco anos. Nem justificar milhares de milhões de dólares em reconstrução. Haverá petróleo a fluir, contratos assinados e um governo local que obedece sem que Washington tenha de governar diretamente. É por isso que isto é histórico. Não pela operação militar, mas pelo modelo que inaugura.
Não destruir Estados. Capturá-los. Não ocupar territórios. Controlar elites. Não construir nações. Redirecionar as existentes.
E tudo funcionou porque o regime de Maduro não era revolucionário, mas mafioso. E os Estados mafiosos, pela sua própria natureza, são transferíveis.
Andrés Izarra é jornalista venezuelano. Foi ministro da Comunicação e Informação por três vezes durante o governo de Hugo Chávez e ministro do Turismo durante o governo de Nicolás Maduro entre 2013 e 2015. Atualmente vive no exílio. Artigo publicado em Nueva Sociedad