Milhares de pessoas já repudiaram atribuição de nome D. Manuel Clemente à ponte do Trancão

13 de agosto 2023 - 14:54

Este sábado foi lançada uma petição pública para exigir a alteração do nome da nova ponte pedonal da zona oriental de Lisboa, a que a Câmara Municipal quer atribuir o topónimo Ponte Cardeal Dom Manuel Clemente. Vereadora Beatriz Gomes Dias já pediu esclarecimentos a Carlos Moedas.

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Nova ponte pedonal do Rio Tranção. Imagem publicada pela Câmara Municipal de Lisboa.

Conforme refere a agência Lusa, a petição, intitulada "Petição pela alteração do nome previsto para a ponte Lisboa/Loures no Parque Tejo", foi lançada este sábado na rede social X (antigo Twitter) por Telma Tavares, autora dos cartazes em memória das vítimas de abusos sexuais por membros da Igreja Católica que foram colocados em Lisboa, Loures e Algés durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

No texto da iniciativa, que, pelas 14h deste domingo, já somava perto de 5500 assinaturas, é assinalada a “suposta laicidade do Estado" e questiona-se se a atribuição do nome de Manuel Clemente à ponte não poderá “ser vista até como uma ofensa e/ou desrespeito pelas mais de 4800 vítimas de abuso sexual por parte da igreja em Portugal".

Os peticionários lembram que, "com efeito, D. Manuel Clemente é um dos nomes que está sob suspeita de ter encoberto pelo menos um crime de abuso sexual de menores por parte de um sacerdote".

"Se o tema exposto no parágrafo anterior pode ser discutível, esta suspeita deverá ser suficiente para, pelo menos, se ter algum pejo em se homenagear uma figura que não raras vezes se viu envolto em polémicas de vária ordem", defendem.

Na petição é acrecsentado que, "sendo a ponte um dos equipamentos que foi pago com recurso a dinheiros públicos, que todos os portugueses irão pagar com assinalável esforço, o mínimo exigível será que se homenageie quem tenha factualmente marcado a diferença ou sido autor de feitos que mereçam destaque no nosso município".

A atribuição do topónimo Ponte Cardeal Dom Manuel Clemente foi anunciada na sexta-feira pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) em comunicado. O presidente da autarquia, Carlos Moedas, alega que esta “é uma justa homenagem da cidade a um homem que deu tanto a Lisboa ao longo da sua vida".

"Nos 10 anos de mandato enquanto líder da Igreja de Lisboa, D. Manuel Clemente foi o grande impulsionador da Jornada Mundial da Juventude, que nas palavras do patriarca emérito 'será lembrada como um momento decisivo para uma geração que construirá um mundo mais belo e fraterno'", lê-se na nota.

De acordo com a CML, o nome da ponte foi comunicado ao presidente da autarquia de Loures, Ricardo Leão, que considerou tratar-se de "uma boa opção e um justo reconhecimento".

Vereadora do Bloco pede esclarecimentos a Carlos Moedas

A vereadora do Bloco de Esquerda enviou na tarde de sábado um requerimento formal ao Presidente Carlos Moedas exigindo esclarecimentos sobre a atribuição do topónimo D. Manuel sem qualquer decisão ou consulta aos vereadores e vereadoras da CML.

Beatriz Gomes Dias afirma que foi “com estupefação que o Bloco de Esquerda tomou conhecimento pela imprensa que o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa tinha decidido atribuir o topónimo Ponte D. Manuel Clemente, à nova ponte ciclopedonal sobre o Rio Trancão”.

A vereadora aponta que “esta decisão não foi precedida de parecer da Comissão Municipal de Toponímia, não foi alvo de apreciação e votação em reunião de Câmara Municipal de Lisboa e a ser, não cumpria o princípio plasmado nas regras da CML de que ‘atribuição de topónimo apenas deve ocorrer decorridos 5 anos sobre a morte da personalidade’, nem tão pouco o princípio de privilegiar ‘individualidades de maior universalidade’”.

Título foi atualizado às 14h10 de 13.08.2023 face ao aumento exponencial do número de assinaturas recolhidas.