Numa entrevista à SIC no domingo, o presidente da Câmara de Lisboa disse que, na sequência da queda da ponte Hintze Ribeiro, em 2001, o então ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, se tinha demitido porque “tinha recebido informações no seu gabinete sobre problemas de manutenção naquela ponte. Havia uma informação escrita ao gabinete daquele ministro. E ele, com toda a coragem, exatamente por ter essa informação, demitiu-se”.
A alegação contra o ex-governante, falecido em 2021, é falsa. Jorge Coelho não se demitiu por esta causa e as “informações” sobre “problemas de manutenção” que Moedas invoca não têm nada a ver com as causas da queda da ponte.
O que Jorge Coelho disse na época, nomeadamente divulgadas pela SIC, foi o seguinte: “eu próprio, há cerca de um ano, visitei a ponte em causa (...) e tive a oportunidade de ver que, na realidade, se tratava de uma ponte já com um número significativo de anos, mais de 100 anos, e, nesse sentido, face a alguma degradação que tinha, nomeadamente a nível do tabuleiro – que eram as questões que eram colocadas – foi tomada uma decisão no âmbito do Ministério do Equipamento Social, no sentido de fazer outra ponte”.
Mais tarde, declarou no contexto da biografia “O Todo-Poderoso” ao jornalista Fernando Esteves que “a Estradas de Portugal tinha informado que era necessário repor o pavimento: Caminhei em cima da ponte e constatei que de facto a questão era real, mas estava longe de imaginar que era tão alargada”.
No julgamento que se seguiu, os técnicos acusados de negligência foram absolvidos, Jorge Coelho não foi responsabilizado pela queda da ponte, nem houve qualquer informação no sentido de que teria tido conhecido de problemas estruturais. Os dois relatórios técnicos em que a sentença se apoiou mostraram que a extração de areias terá contribuído para a queda da ponte.
Esta é apenas uma da série de mentiras de Carlos Moedas na sequência do acidente do elevador da Glória. O Expresso dedica-se esta terça-feira a fazer um “fact check” sobre várias das suas declarações onde deteta falsidades, afirmações incompletas e parcialmente incorretas.
Entre as frases colocadas taxativamente como falsas estão, para além destas sobre Jorge Coelho, as duas declarações sobre investimento e manutenção.
Moedas diz que aumentou manutenção, mas na verdade cortou 18% na dos elétricos e elevadores
Carlos Moedas insiste que aumentou no seu mandato a manutenção em 30% e investiu “mais 60% no meu mandato do que no mandato anterior”. O Expresso considera a frase falsa e recorre aos relatórios e contas dos últimos anos da Carris que indicam que os custos totais de manutenção da frota do modo elétrico, ou seja os elétricos, ascensores e elevadores da cidade, diminuíram 3% entre 2021 e 2024.
Elevador da Glória
Federação Europeia de Trabalhadores de Transportes: “segurança não pode ser externalizada”
Por outro lado, na rubrica “Custo de Manutenção da Frota de Elétricos/Ascensores/Elevador” houve aumento de 5% entre 2021 e 2024, de 3,31 milhões para 3,46 milhões de euros, mas redução com os gastos de manutenção das infraestruturas associadas ao modo elétrico de 1,8 milhões em 2021 para 1,5 milhões de euros em 2024 (-18%).
Os jornalistas notam que nas declarações de Moedas há uma mistura dos dados gerais da frota da Carris, até dos autocarros, com os gastos específicos dos elevadores para tentar passar a ideia de um aumento de investimento (o aumento na frota de autocarros nesse período foi de 25%). Assim, a verdade é que “os gastos associados apenas aos três ascensores e ao elevador de Santa Justa se mantiveram (os contratos não oscilaram muito de valor), nos últimos anos, com quase um milhão de euros para três anos”.
Ainda sobre a manutenção, o presidente da autarquia lisboeta fez outra afirmação falsa, a de que a manutenção na Carris aumenta com mais utilizadores. Orçamentos da Carris e dados do portal Base.gov mostram que entre 2012 e 2025 a empresa “pagou praticamente o mesmo valor anual a fornecedores externos para assegurarem a manutenção dos ascensores da Glória, do Lavra e da Bica e do elevador de Santa Justa, apesar de ter havido um aumento de passageiros durante esse período”. Terá havido uma subida de apenas 1% dos gastos com os fornecedores externos de manutenção dos ascensores e do elevador da Carris ao longo de todos estes anos. Isto enquanto o número de utilizadores ia aumentando. Por exemplo de 990 mil passageiros em 2022 para 1,5 milhões em 2024.
Moedas utiliza ainda o relatório preliminar para fazer passar a ideia de que não há responsabilidade da manutenção no sucedido, tendo declarado que “aquilo que está dito pelo relatório é que nada indica que houve pouca manutenção ou que ela não tinha sido feita.” Mas o que consta do documento é apenas uma conclusão preliminar que aponta “até ao momento” para que a manutenção tenha sido feita. O mesmo documento acrescenta, porém, que há muito mais que tem de ser avaliado neste aspeto como a “formação, experiência e proficiência dos técnicos envolvidos nas operações de manutenção”, as “condições e exequibilidade de realização das operações de inspeção e manutenção” e a “fiscalização da execução da prestação de serviços pela entidade contratante, incluindo meios e frequência”.
Outra das declarações com as quais Moedas se tenta desresponsabilizar é a que aponta a Câmara como mero acionista da Carris, considerando que “eu não posso interferir na gestão dessa empresa”. O Expresso contrapõe que, precisamente nessa qualidade de único acionista, lhe cabe a tarefa de “interferir” na gestão da empresa, ou seja “aprovar ou reprovar orçamentos, planos de atividade e relatórios e contas”, “definir as orientações anuais para a empresa, tendo em conta as orientações estratégicas relativas ao exercício dos direitos societários aprovadas pela Câmara Municipal de Lisboa” e “pronunciar-se e deliberar sobre quaisquer assuntos de interesse para a empresa”.
Elevador da Glória
Moedas é “politicamente responsável” e julgamento cabe aos eleitores, diz Marcelo
Responsável pelo "Russiagate" foi demitido por Medina e acabou contratado por Moedas
O autarca lisboeta também se tem tentado defender por causa do pedido de demissão do seu antecessor a propósito do caso de envio de dados de ativistas russos à embaixada deste país em Portugal. Nessa altura, insistiu que Fernando Medina se devia demitir por causa do que considerava “um erro técnico”. Agora tenta sublinhar que tinha então havido um “erro sistemático” da “responsabilidade direta do gabinete” de apoio do presidente da Câmara para dizer que não pode haver comparação com o atual desastre. A alegação de Moedas não corresponde à verdade no sentido em que “não há qualquer responsabilidade direta de Fernando Medina” e com a entrada em vigor do Regulamento Geral de Proteção de Dados o responsável direto pela situação era o “Encarregado de Proteção de Dados”. Este era Luís Feliciano, foi demitido por Medina, e nomeado pelo atual presidente da Câmara para o seu gabinete quando assumiu funções, estando agora no gabinete de Joana Almeida, vereadora da maioria.
O semanário expressa ainda dúvidas sobre a afirmação taxativa de que “não houve erro humano”, lembrando que o relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários concluiu sim que o guarda-freio fez tudo o que era possível para tentar que não se desse o acidente. Porém, ainda não há conclusões finais sobre “se há algum tipo de responsabilidade direta – e de erro humano – envolvido numa tomada de decisão que diga respeito à manutenção, inspeção, reparação ou prevenção de falhas técnicas do ascensor”.