No concurso para a formação de médicos especialistas que terminou no passado sábado ficaram 406 vagas por preencher. Em comunicado, a Administração Central do Sistema de Saúde anuncia que das 2.242 vagas apenas foram ocupadas 1.836.
O organismo especifica que todas as vagas de 33 das 48 especialidades foram preenchidas e que em 22 das especialidades houve “o maior número de sempre” de entradas, apesar de em várias destas não terem sido preenchidas na totalidade.
Do outro lado destes resultados está Medicina Interna, “uma especialidade nuclear para o funcionamento das unidades hospitalares” escreve-se naquele comunicado, na qual só 104 das 248 vagas foram preenchidas, ao mesmo tempo que se anuncia “uma análise sobre as razões que levam a uma menor preferência por esta especialidade”. Também com muitas vagas em aberto ficou Medicina Geral e Familiar: 165 das 453.
Se a análise for feita por região, no mapa das falhas é Lisboa e Vale do Tejo que se destaca com 178 vagas não preenchidas, seguindo-se o Centro, com 103, o Norte com 60, o Alentejo com 28, os Açores com 18, a Madeira com 16 e o Algarve com quatro.
Sindicatos consideram grave a situação em Lisboa
A situação nos grandes hospitais de Lisboa é considerada grave pelos sindicatos que, de acordo com o Diário de Notícias, revelam que no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central apenas uma vaga em Medicina Interna foi preenchida em cada um. O diário acrescenta que “o cenário” de poucas vagas preenchidas nesta especialidade “é idêntico nos hospitais da Grande Lisboa, como Amadora-Sintra, Garcia de Orta e Beatriz Ângelo”, apesar de não se quantificar as falhas.
O facto de ficarem muitas vagas por preencher na Grande Lisboa “tem a ver com o custo de vida porque a esmagadora maioria das vagas são da área de Lisboa”, explica Joana Bordalo e Sá, dirigente da Federação Nacional dos Médico (FNAM). E considera a situação grave, até porque a região de Lisboa e Vale do Tejo é das que mais está a ser afetada pelos problemas nas urgências e a especialidade de medicina interna é “uma das especialidades fundamentais para o funcionamento dos hospitais e dos serviços de urgência”.
Para a FNAM, todos estes números indicam que há “quase 500 jovens médicos que já estão a desistir do SNS” procurando em vez disso trabalhar como tarefeiros ou fazer a especialidade fora do país. Estes “estão a dizer que não querem uma das especialidades nucleares dos hospitais, urgências e dos cuidados primários”. Os médicos em especialização são “cerca de 10 mil dos 30 mil médicos do SNS e não só andam a colmatar as falhas nas escalas dos especialistas como têm nas suas mãos grandes responsabilidades, como a vida dos doentes e tudo o que isso exige”. E mesmo aqueles que entraram “já estão a dizer que não querem viver o que se passa nas urgências, que não querem trabalhar nas condições que existem”. Assim, “é preocupante” que se formem “jovens médicos que já nem sequer acreditam no SNS para fazer a sua formação”, o que também “tem que ver com as más condições de trabalho que têm hoje em dia no SNS”.
Da mesma forma, o Sindicato Independente dos Médicos considera a situação “um péssimo sinal para o futuro das especialidades de Medicina Geral e Familiar” que mostra “a degradação das condições de trabalho no SNS”. Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, diz ao mesmo jornal que isto significa que “vamos ter um problema sério de falta de especialistas” e que “corre-se o risco de ver diminuir a qualidade do SNS.”
Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, usa também a palavra “preocupante” para se referir ao que está a acontecer. Para ele, em declarações à Lusa, os dados “espelham aqui efetivamente uma grande despreocupação e um trabalho muito mal feito da parte do Ministério da Saúde”. O Governo não terá assim feito “o trabalho que deveria” para que haja uma “maior atratividade do SNS e para se poderem fixar mais médicos”, conclui.