“Parem de matar o nosso povo”, pediram centenas de profissionais de saúde moçambicanos esta terça-feira em Maputo, na primeira manifestação realizada na capital moçambicana após a greve de protesto aos resultados eleitorais. Segundo a agência Lusa, os médicos organizadores tinham negociado com a polícia passarem o protesto para uma concentração, mas face à pressão dos presentes, a marcha acabou por se realizar pacificamente, acabando por descer a avenida Eduardo Mondlane e marchando até à estátua do histórico líder moçambicano, entre gritos de "socorro", "salvem Moçambique" e "parem de matar o nosso povo", enquanto centenas nos prédios e nos passeios aplaudiam.
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Ao contrário das anteriores manifestações, desta vez não houve repressão com gás lacrimogéneo nem a violência repressiva da polícia que já deixou 108 pessoas baleadas e fez 16 mortes nas últimas semanas.
Esta repressão aos protestos que contestam os resultados anunciados pela comissão eleitoral, que deram vitória folgada aos candidatos da Frelimo, levou à detenção de centenas de pessoas durante a greve convocada pelo candidato da oposição às presidenciais, Venâncio Mondlane. O candidato apoiado pelo partido extraparlamentar Podemos não reconhece o resultado anunciado que lhe dá cerca de 20% dos votos face aos cerca de 70% do candidato apoiado pela Frelimo, Daniel Chapo. O não reconhecimento do resultado é também partilhado pelos outros dois candidatos, Ossufo Mornade, da Renamo, e Lutero Simango, do MDM.
Esta segunda-feira, no Parlamento português, a deputada bloquista Marisa Matias lamentou que até agora o Governo não tenha tido “a mesma clareza em relação a Moçambique” que teve em relação à situação pós-eleitoral na Venezuela.
“Estamos a falar de uma situação eleitoral que desencadeou uma enorme repressão. Estamos a falar de níveis de violência muito elevados, em que já houve assassinatos”, afirmou Marisa na audição com o ministro dos Negócios Estrangeiros, pedindo a Paulo Rangel a “garantia de que o Governo português não reconhecerá nenhum resultado eleitoral que não traduza a vontade popular”.
Nessa audição, Rangel afirmou que Portugal está “a acompanhar a situação muito de perto” e “com uma grande vontade que as coisas corram bem, que os resultados e atas eleitorais apareçam e sejam todas publicadas, que haja pacificação e as forças políticas dialoguem para que Moçambique não regrida e possa dar um passo em frente”. O ministro prometeu ainda tudo fazer para ajudar ao diálogo entre as forças políticas moçambicanas.
Já esta terça-feira, o presidente moçambicano desmentiu a notícia que dava conta da vinda de tropas ruandesas para Maputo a fim de reprimir as manifestações, garantindo que elas continuavam em Cabo Delgado em operações antiterroristas. A porta-voz do governo ruandês, Yolande Makolo, já tinha feito o mesmo desmentido no domingo.
O Bloco de Esquerda apresentou um projeto de voto de condenação pela escalada da violência política em Moçambique, no qual critica a repressão policial que se tem vivido em Maputo, mas também em Nampula.
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"A escalada da violência política surge na sequência do comunicado por parte do candidato do PODEMOS sobre a apresentação de impugnações aos resultados eleitorais nos tribunais competentes, sendo o principal promotor precisamente o advogado Elvino Dias", explica o documento.
O projeto de voto relembra que a greve geral convocada para o dia 21 de outubro foi marcada " por uma morte presença policial e militar nas ruas que confrontou a população que se manifestava pacificamente, principalmente em Maputo".