Na manhã desta segunda-feira, a tensão estava elevada mas a cidade permanecia calma. Ruas desertas e comércio fechado não são o normal para uma segunda-feira de manhã. A greve e manifestação já estavam marcadas, mas o assassinato de Elvino Dias e de Paulo Guambe, o primeiro advogado do candidato Venâncio Mondlane, o segundo mandatário do partido PODEMOS, fez as tensões subirem inesperadamente.
O que tinha sido convocado como protesto dos resultados preliminares das eleições de 9 de outubro, tornou-se uma manifestação contra a repressão política e Mondlane intensificou os apelos à greve. “Agora não vamos ficar em casa de braços cruzados, nesta greve ninguém vai pedir autorização a nenhum município. Vamos carregar os nossos cartazes, vamos para as ruas, pacificamente. Não vamos destruir bens públicos nem privados. Mas a nossa greve vai agora sair de casa para as ruas”, disse.
Prevendo a possibilidade de violência policial, o candidato presidencial avisou que “depois da vossa violência há de vir algo extraordinariamente mais forte do que vocês todos e vão-se arrepender disso”, mas o aviso não foi suficiente.
Aliás o porta-voz da Polícia da República de Moçambique já tinha confirmado que seriam “tomadas todas as medidas de polícia coercivas, necessárias e justificáveis para rechaçar quaisquer atos de vandalismo, violência e desordem públicas generalizadas, greves e manifestações ilegais no país”, apelando aos cidadãos para que aguardassem pelos resultados oficiais das eleições.
Moçambique
Bloco quis condenar morte de civis em ataque em Cabo Delgado, direita chumbou
O líder do PODEMOS, do qual Paulo Guambe era mandatário e que apoiou Venâncio Mondlane nas eleições presidenciais, distanciou-se da manifestação convocada pelo candidato.
Dito e cumprido
Apesar da manhã se afigurar calma em Maputo, a presença policial em volta da área onde Dias e Guambe foram assassinados – o ponto de encontro da manifestação – indiciava possíveis confrontos. À medida que as pessoas se começavam a juntar, por volta das 10h, hora local, a polícia moçambicana lançou gás lacrimogéneo para dispersar a multidão e deteve dois manifestantes.
Armando Mora, um manifestante presente no local, confirmou à agência Lusa que as autoridades não disseram nada, começaram apenas a disparar tiros de gás lacrimogéneo. “Só estão a disparar para um lado e para o outro”, disse.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram também a forma militarizada como a polícia procura dispersar os manifestantes, formando fileiras e avançando pela avenida sobre os manifestantes enquanto disparam tiros de gás lacrimogéneo. A multidão vai-se afastando mas mantém-se coesa.
Armando mostra-se convicto e sem vontade de desmobilizar. “Eles que nos aguardem, estamos aqui, ninguém vai recuar”, disse. “A polícia está a fazer esta pouca vergonha, isto é mais um repúdio aos resultados eleitorias”.
A Lusa avança também que a polícia utilizou cães para intimidar os manifestantes, disparou gás lacrimogéneo sobre o próprio Venâncio Mondlane e que um jornalista ficou ferido devido às agressões polícias. Os manifestantes responderam atirando pedras e com o lançando artefactos pirotécnicos.