Esta foi a quinta noite consecutiva de confrontos em várias cidades da Sérvia. De um lado, os estudantes e a população em protesto há meses contra a corrupção, ataques à liberdade de imprensa e o autoritarismo. Do outro, a polícia e os apoiantes do partido no poder há 13 anos, o Partido Progressista Sérvio, de direita.
De acordo com os jornalistas do Balcan Insight, grupos do partido governamental, “protegidos pela polícia” entraram em confrontos com os manifestantes em várias cidades por todo o país. Os protestos têm estado a acontecer à porta de sedes do PPS “guardadas por dois cordões de segurança: ativistas do partido – homens corpulentos armados com fogo de artifício, pedras, garrafas e pedaços de madeira – e polícias”.
Estes dão conta ainda que os membros do partido “visaram intencionalmente jornalistas que cobriam o protesto” em Belgrado e que “a polícia parecia apenas estar a tentar dispersar os manifestantes enquanto tolerava a violência cometida pelos ativistas do partido PPS.
As autoridades lançaram a notícia de que houve dezenas de detenções e dizem que três sedes desta formação política em Novi Sad foram atacadas. Estas estavam vaziadas e sem ninguém a guardá-las. Alguns manifestantes partiram as janelas, atiraram para a rua mobília e propaganda do partido e pintaram as entradas.
Em Belgrado, contam, a tentativa de avançar contra a sede central do partido foi travada. Foi depois disso que um grupo de jornalistas e outras pessoas que não pertenciam à manifestação foram ameaçados pelos apoiantes do partido no poder e começaram a “perseguir pessoas por uma das ruas”. A polícia também o fez, recorrendo à força e a gás lacrimogéneo.
Um deputado do Partido Liberdade e Justiça, de centro esquerda, Pedja Mitrovic, alega ter sido atacado por “sete ou oito hooligans mascarados” que lhe bateram na cabeça e pernas com paus, enquanto o insultavam.
Houve ainda tentativas de avançar sobre outras sedes mais pequenas do mesmo partido que resultaram também em intervenções policiais musculados com lançamento de bombas de fumo e de gás lacrimogéneo.
Também se registou uso da força policial em cidades como Nis, Valjevo e Pancevo.
Ivica Dacic, ministro do Interior sérvio, justifica a ação da polícia para “
À meia-noite, dizia que havia já 37 detenções mas que muitas mais se iriam seguir, justificando-as com ataques à polícia.
Uma das contas de redes sociais que tem sido fundamental nas mobilizações, intitulada Bloqueio do Estudantes, acusa pela sua parte as autoridades de tentar “provocar uma guerra civil com os confrontos”, notando-se que até agora, na sua esmagadora maioria, as manifestações juntavam centenas de milhares de pessoas de todo o país e decorriam na maior parte sem incidentes. Acusam a polícia de “estar a guardar os defensores do regime que estavam a atirar pedras e a lançar fogo de artifício aos manifestantes”.
Ao mesmo tempo, nas suas páginas, publicam exemplos de brutalidade policial.
Protestos não param desde novembro, peritos da ONU criticam repressão
O movimento de protesto na Sérvia dura sem parar desde novembro passado, depois de um teto da estação ferroviária de Novi Sad colapsar e matar 16 pessoas na sequência de obras de requalificação envolvidas em suspeitas de corrupção. Desde então, os estudantes exigem justiça e têm tomado a dianteira deste movimento de protesto que tem sido massivo e que está a colocar em causa todo o regime.
Protestos
Sérvia, a emergência do maior movimento estudantil da Europa
Iskra Krstić
Estes protestos têm sido confrontados com repressão. Foi isso que sublinharam no início do mês os peritos do ONU que avaliaram a situação, mostrando “preocupação profunda” com o “padrão perturbante de repressão” sobre estudantes, professores, defensores dos direitos humanos, atores da sociedade civil e outros cidadãos”.
No seu relatório, afirmaram existir uma “tentativa sistemática de silenciar vozes críticas e desmantelar a independência de instituições académicas”, estando em causa os direitos humanos e a democracia.
Ao longo deste período, as manifestações pacíficas tem enfrentado “intimidação, ataques físicos, vigilância e prisões, muitas vezes sem justificação legal”. Há ainda “campanhas de difamação coordenadas” como os meios de comunicação alinhados com o Estado a publicar centenas de artigo difamatórios e a classificar manifestantes pacíficos como terroristas.
Conclui-se haver “uso excessivo da força, detenções arbitrárias, prisões prolongadas”, “vigilância ilegal, ferimentos graves” entre outras medidas repressivas. Apelava-se assim ao governo para parar imediatamente “todas as formas de retaliação e intimidação, garantir a segurança e os direitos “ de todos os envolvidos no movimento e “iniciar um diálogo significativo com as instituições académicas”.