Mais de 500 personalidades francesas repudiam racismo policial e deriva antidemocrática de Macron

09 de julho 2023 - 20:37

Carta aberta envia “forte mensagem de unidade e determinação na defesa dos valores democráticos e respeito pelos direitos fundamentais de todos”, exige justiça para vítimas da violência policial, e apela a mobilização para 15 de julho. Mais violência policial e prisões na manifestação de sábado em Paris.

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Foto de MOHAMMED BADRA, EPA/Lusa.

São mais de 500 pessoas a assinar a carta aberta que exige que o governo de Emmanuel Macron “pare de criminalizar a raiva popular e de suprimir as reivindicações legítimas da sociedade civil”. “A situação atual exige que o governo assuma a responsabilidade e exige respostas imediatas”, escrevem personalidades do mundo artístico, mediático, político e militante, entre os quais Virginie Despentes, Casey, Médine, Angèle, Abd Al Malik, Hatik, Annie Ernaux, Mame -Fatou Niang,

No texto divulgado este sábado, referem que os nomes do franco-argelino de 17 anos Nahel e de Mohamed B., morto a 6 de julho, em Marselha, somam-se “à longa lista de vítimas da violência policial em França nos últimos anos: Alhoussein, Rayana, Adama, Good, Mozomba, Zineb, Aziz, Adam, Jean-Paul, Fadjigi, Amine, Nathalie, Zyed e tantos outros”.

Para os signatários da carta aberta, “a constatação é clara: na França, árabes e negros morrem nas mãos da polícia”.

As mais de 500 personalidades indignam-se perante a “mobilização financeira sem precedentes” promovida pela extrema-direita em defesa do “assassino racista”. “Nesta atmosfera venenosa, milhões de nós estamos de luto, revoltados, preocupados com a falta de reação política do governo a este terrível sinal antidemocrático”, escrevem, exortando os decisores a proibir a transferência de fundos.

A deriva antidemocrática de Macron, com, nomeadamente, a proibição de manifestações, a ameaça de corte das redes sociais, as prisões indiscriminadas não é, de acordo com os signatários, “digno dos desafios que estamos a enfrentar”. “O problema do racismo em nosso país é muito mais amplo e essa crise é apenas um sintoma disso”, alertam.

Na missiva, é feito um apelo para que a França saia da negação e ouça “as advertências do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch ou mesmo do Conselho da Europa”.

E são deixadas algumas reivindicações, que passam pelo reconhecimento, por parte do governo, do caráter estrutural do racismo na polícia; pela revogação do artigo 435-1 que dá à polícia licença para matar; pela criação de um órgão autónomo para substituir a Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN); e pelo fim imediato do uso sistemático da prisão preventiva e dos comparecimentos judiciais imediatos.

“Todos os detidos e detidos devem ter direito a um julgamento justo e beneficiar do apoio da sociedade civil. A repressão judicial a que estes últimos estão sujeitos é indigna do Estado de direito e apenas quebra ainda mais o vínculo de confiança entre as instituições e os cidadãos”, lê-se na carta aberta.

Por fim, é exigida a autorização da manifestação prevista para o dia 15 de julho, sendo deixado em apelo à participação neste protesto.

Mais violência policial e prisões na manifestação de sábado

No sábado, já depois de divulgado o texto desta carta-aberta, o cidadão francês Youssouf Traoré, de 29 anos, foi preso de forma violenta durante a manifestação de sábado, em Paris, em memória do seu irmão Adama. Traoré foi assistido no hospital, de onde teve alta este domingo.

O advogado de Youssouf Traoré, Yassine Bouzrou, anunciou que já apresentou uma queixa por violência intencional. Nas imagens da sua prisão, filmadas por várias testemunhas, vemos Traoré a ser agarrado e atirado de cara no chão por vários polícias.

A manifestação de sábado, que se realiza anualmente, contou com a presença de cerca de 2.000, apesar da proibição da polícia. Em causa está a evocação da morte de Adama Traoré, logo após a sua prisão em julho de 2016, a exigência de que se faça justiça.

Um segundo homem, identificado como Samir por membros do comité Adama, também foi preso durante a iniciativa, e libertado da custódia policial no final da tarde de domingo. Cerca de 50 pessoas concentraram-se em frente a esquadra no início da tarde de domingo para exigir a sua libertação, entre as quais os deputados da França Insubmissa Eric Coquerel, Jérôme Legavre e Thomas Portes.

O partido Europa Ecologia - Os Verdes, CGT e Solidaires, entre outros, também exigiram a libertação de Traoré e Samir. Todas estas organizações pedem uma nova "ampla mobilização" contra a violência policial, em 15 de julho em Paris.

Nas imagens filmadas por testemunhas no final da manifestação de Paris no sábado, que, conforme destaca a AFP, ocorreu pacificamente, é também possível ver uma mulher a ser violentamente atirada ao chão por um polícia e jornalistas a serem agredidos pelas autoridades.

A AFP foi informada por fonte policial que foi aberta uma investigação administrativa para esclarecer a violência.